sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, cinco meses e quatro dias de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – Somos como a lua.

Coluna Contrastes e Confrontos – Urariano Mota, crônica, “Lula e a esperança”.

Coluna Do real ao surrealEduardo Oliveira Freire, conto, “Senhor austero”.

Coluna ClássicosT. S. Eliot, poema,O nome dos gatos”.

Coluna Porta AbertaNatércia Freire, poema, “Canção do verdadeiro abandono”.

Coluna Porta Aberta – Maria Teresa Horta, poema, “Segredo”.

@@@

Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Somos como a lua


O escritor norte-americano Samuel Clemens – que se celebrizou com o pseudônimo literário de Mark Twain e se tornou clássico juvenil com seus romances “As aventuras de Tom Sawyer“, “As aventuras de Hucleberry Finn” e “O príncipe e o mendigo”, entre outros – afirmou, certa feita: “Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém”.

E somos parecidos com o satélite natural da Terra não somente neste aspecto (posto que de forma metafórica, claro), mas em tantos outros. Um deles é o que se refere às fases. A exemplo da lua, também as temos na vida. Umas, são mais brilhantes, outras bem menos, com a diferença de que, cada uma delas é definitiva. Tão logo passe, não volta jamais.

Do nascimento ao início da maturidade, atravessamos a fase da Lua Nova. Somos dotados de vigor e entusiasmo e partimos para o mundo com ousadia e volúpia, certos de que nada e ninguém nos deterão na busca e conquista dos nossos ideais. Nosso brilho, então, é intenso, que se reflete em nossos olhos, ardentes de paixão: por um amor, por uma causa, por uma esperança etc.

Claro que me refiro, no caso, às pessoas positivas, valorosas, vencedoras. Há quem já nasça sob o estigma dos derrotados. Há quem envelheça precocemente, ou por equívocos pessoais, ou por educação deficiente ou por força de inúmeras circunstâncias, muitas das quais escapam ao seu controle. Há quem sequer justifique o fato de estar no mundo, quem se torne peso morto para si e parasita para a sociedade. Infeliz de quem ostenta essa terrível condição! Temo que a maioria da população mundial se enquadre nela.

Como se trata de metáfora, posso alterar a ordem das fases da lua ao meu bel-prazer. E é o que farei. Reitero, porém, para deixar bem claro, que me refiro, nestas comparações, apenas às pessoas vitoriosas, àquelas que costumo classificar de “gigantes da espécie”, que não cultivam, e por isso não acumulam, grilos e nem apostam na infelicidade. São poucas, eu sei, infelizmente. Todos poderíamos (e deveríamos) ser assim.

A fase seguinte é a do Quarto-Crescente. É a da maturidade, quando crescemos física e espiritualmente (e materialmente, por que não?). Definimos uma profissão, constituímos família, geramos descendentes, educamo-los e lhes transmitimos os valores que nos norteiam e mobilizam. Somos produtivos, respeitados, adorados até (se fizermos por merecer essa adoração). Aliamos à paixão da juventude a experiência da maturidade. É quando mostramos ao mundo a que viemos e nos consolidamos no coração e nas mentes dos nossos contemporâneos.

Mas não conseguimos nunca alterar o inexorável ciclo da natureza. Chega sempre o momento em que nossas forças começam a declinar. É a fase do Quarto-Minguante. A experiência que acumulamos, porém, nos permite cortar caminhos, descobrir atalhos e nos manter competitivos, posto que com energias crescentemente minguantes (por paradoxal que essa expressão pareça). Ou seja, diminuem constantemente, às vezes em questão de meses, outras de meras semanas, dias ou horas.

Se soubemos cultivar relacionamentos, porém, se fizemos por merecer, face nossos atos e realizações, esta fase pode ser das mais agradáveis. Torna-se o período da colheita do que semeamos, a época em que vemos os filhos trilharem os caminhos do bem, da justiça e do sucesso sob a nossa segura orientação, a da chegada dos netos, a do reconhecimento dos nossos méritos e ações.

Finalmente, entramos na fase da Lua Cheia. E ela pode ser repleta de gostosas lembranças e de sublimes recordações. Mas só o será se as soubemos cultivar. É uma espécie de retorno à infância, sem as responsabilidades que tínhamos quando meninos, de estudar, aprender, e nos preparar para a vida. É verdade que nosso corpo dará sinais crescentes de decadência. Não há como evitar (embora isso possa ser retardado com hábitos saudáveis e muita prudência).

Mas se tivermos o espírito forte e se conservarmos o amor pela vida, nada impedirá de continuarmos sendo úteis, produtivos e imbuídos de fé até nosso derradeiro suspiro, até nosso último dia sobre a face da Terra, não importa quando ocorra. A sensação que nos restará, olhando para trás, fazendo um retrospecto de nossa trajetória, será a de paz, aquela que acompanha os que têm certeza do dever cumprido. Poderá ser, também, a de euforia, dos que estão convictos de deixar um legado indestrutível para as futuras gerações e que, por isso, gozam do justo júbilo dos vitoriosos.

Voltando a Mark Twain, de fato todos temos um lado escuro na alma, o qual nos negamos a exibir a quem quer que seja. Alguns, todavia, por mais que procurem dissimular, não conseguem. Têm essa “escuridão” moral tão acentuada, que não a podem esconder, por mais que tentem. Ela permanece, o tempo todo, estampada em suas faces. Falta-lhes o brilho da fé, o foco da esperança, a fogo da paixão e a centelha do amor que ofusquem esse seu lado sombrio das vistas alheias. Estes, infelizmente, já nasceram com o estigma dos derrotados!

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Lula e a esperança


* Por Urariano Mota


A maior liderança popular do Brasil – mais de um brasileiro diria que de toda América Latina, e mais de um latino diria que de todas Américas, e mais de um pernambucano diria que de todo o mundo -, ou em resumo com modéstia, o ex e futuro presidente Lula está de volta ao Recife. De volta, é só um modo de dizer. Ninguém reencontra o mesmo rio, mas me refiro a outro sentido também. Quero dizer, Lula encontra um Pernambuco devastado, numa decadência profunda que é bem o retrato do Brasil. Aqui, em matéria de desgraça humana e material, Pernambuco reflete todos os lugares brasileiros. E acompanha, quando não lidera, as consequências do golpe que sofremos, de anulação de todos os direitos e garantias.

É nesta cidade do Recife que Lula vai ao comício hoje à noite. É nesta terra, onde por felicidade e fado suportamos a tempestade do desgoverno Temer, que Lula procurará dividir conosco o recomeço de um novo tempo. E no entanto é curioso o quanto alguns intelectuais, na pureza das mais puras concepções, não veem a urgência desta empreitada. Eu me refiro, entre outros, a Vladimir Safatle, que tem feito um trabalho de plantar urtigas no mato a ser limpo. Hoje, no artigo "Não haverá 2018", ele nos ensina do alto do posto de filósofo acadêmico:
"Neste sentido, pautar todo debate político atual a partir do que fazer em 2018 é simplesmente uma armadilha para nos prender em uma batalha que não ocorrerá, para nos obrigar a naturalizar mais uma vez uma forma de fazer política, com seus 'banhos de Realpolitik', razão mesma do fracasso da Nova República e dos consórcios de poder que a geriram.
Melhor seria se estivéssemos envolvidos em um luta clara pela recusa dos modelos de 'governabilidade' que nos destruíram".
Antes, ele havia sido mais claro ou menos cauteloso:
"Como se fosse apenas um acaso, no dia seguinte à aprovação da reforma trabalhista o Brasil viu o artífice deste reformismo conciliatório, Luiz Inácio Lula da Silva, ser condenado a nove anos de prisão por corrupção.…"
Nesta semana, em vídeo ele se estendeu mais aqui https://www.youtube.com/watch?v=IwaTLtf5wW4 .
Nele, podemos concluir que o filósofo é arrogante. Como podemos descartar a bandeira que é a volta de Lula? È no mínimo um erro achar que do interior do nosso complexíssimo saber poderemos pautar a realidade. Por um lado, Safatle fala da esquerda como se fosse o "grilo falante", a consciência moral e última da esquerda. Mas de fora, à parte, numa gauche lunar. Isso enquanto cita de passagem Tocqueville. Por outro lado, é tão pretensioso, que vaticina, profetiza que não haverá 2018. Ele quer parar o tempo? Não seria mais prudente conhecer Alceu Valença na composição Embolada do Tempo? https://www.youtube.com/watch?v=urnRHAJOnx8
Era bom e de melhor filosofia que o intelectual circulasse na periferia de São Paulo, nos grupos de poetas da periferia, no seio dos movimentos sociais que não desceram suas bandeiras. E, naturalmente, que voltasse à leitura da poesia, do romance, para não se conformar à perspectiva da nossa derrota como um destino.
Enfim, queiram os iluminados ou não, Lula está de volta. E seja o que o povo quiser.


* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros



Senhor austero

* Por Eduardo Oliveira Freire

Dizia que só consumia comida de verdade: arroz, feijão e carne. Considerava frutas e doces, uma frescura. Sua aparência era austera.

Um dia, soube que seu filho e nora morreram. No enterro, só foi falar com os netos. Convidou-os para passear. Os netos ficaram receosos, achavam o avô chato.

Mas gostaram. O avô conhecia lugares muito interessantes. De repente, viram uma confeitaria e pediram, com olhares famintos, para entrar. O senhor tentou resistir, porém cedeu.

As crianças comeram biscoitos, tortas e sorvetes. Ele assistiu a tudo sobriamente. A neta mais nova lhe ofereceu um pedaço de torta de morango. Disse que não queria, ela insistiu. Provou e algo tomou conta dele. Começou a comer as guloseimas com os netos, que não mais o viam como um avô severo, mas como um amigo.

Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/



O nome dos gatos

* Por T. S. Eliot

Dar nome aos gatos é assunto complicado,
Não é apenas um jogo que divirta adolescentes;
Podem pensar, à primeira vista, que sou doido desvairado
Quando eu digo, um gato deve ter TRÊS NOMES DIFERENTES.
Primeiro, temos o nome que a família usa diariamente,
Como Pedro, Augusto, Alonso ou Zé Maria, Como Vitor ou Jonas, Jorge ou Gui Clemente
Todos nomes sensíveis para o dia-a-dia.
Há nomes mais requintados se pensam que podem soar melhor,
Alguns para os cavalheiros, outros para titia:
Como Platão, Demetrius, Electra ou Eleonor –
Mas todos eles são sensíveis nomes de todo dia.
Mas eu digo, um gato precisa ter um nome que é particular,
Um nome que lhe é peculiar, e que muito o dignifica,
De outro modo, como poderia manter sua cauda perpendicular,
Ou espreguiçar os bigodes, orgulhar-se de sua estica?
Dos nomes deste tipo, posso oferecer um quórum,
Como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato, Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum –
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.
Mas, acima e para além, ainda existe um nome a suprir,
E este é o nome que você jamais cogitaria;
O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir –
Mas O GATO E SOMENTE ELE SABE, e nunca o confessaria.
Se um gato for surpreendido com um olhar de meditação,
A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma que o consome:
Sua mente está engajada em uma rápida contemplação
De lembrar, de lembrar, de lembrar qual é o seu nome:
Seu inefável afável
Inefavefável
Oculto, inescrutável e singular
Nome.

(Tradução de Rodrigo Suzuki Cintra).



* Thomas Stearns Eliot foi um poeta modernista, dramaturgo e crítico literário norte-americano, naturalizado inglês, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1948. 
Canção do verdadeiro abandono

* Por Natércia Freire

Podem todos rir de mim,
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.

Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.

Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastos.


* Poetisa portuguesa
Segredo

* Por Maria Teresa Horta

Não contes do meu 
vestido 
que tiro pela cabeça 

nem que corro os 
cortinados 
para uma sombra mais espessa 

Deixa que feche o 
anel 
em redor do teu pescoço 
com as minhas longas 
pernas 
e a sombra do meu poço 

Não contes do meu 
novelo 
nem da roca de fiar 

nem o que faço 
com eles 
a fim de te ouvir gritar 

In “Poesia Completa”

* Escritora, jornalista e poetisa portuguesa.