Fruto da crença
O
medo, desde que não anormal e imotivado, é uma reação sadia,
necessária e instintiva de todo e qualquer animal. É uma espécie
de alerta, de sinal vermelho, para que se evite o que possa vir a
trazer riscos à nossa integridade física e até à vida. Todos
seres vivos sentem-no. Desconfio que até as plantas possuam, em
certo grau, esse mecanismo de proteção, senão de defesa, embora,
óbvio, não tenha a mínima condição de comprovar essa suposição.
Trata-se
de tema recorrente em minhas reflexões (que já andam pela casa de
alguns milhares de textos, que classifico de crônicas, mas que
muitos insistem em dizer que são ensaios. Alguns, exagerados,
afirmam, até, que lembram os de Montaigne. Exagero, claro. E nem a
minha pretensão chega a tanto). Sou – como os leitores certamente
já notaram – incansável estudioso do comportamento humano com
suas infinitas nuances. E sempre me surpreendo com reações com as
quais sequer atinava. Essas descobertas, por seu turno, remetem-me a
novos estudos, mais observações, intermináveis leituras etc.
etc.etc., numa atividade sem fim.
Sobre
o medo, inclusive, cheguei a fazer, em fins dos anos 80, uma
conferência no auditório do Senac, em Campinas, num programa que
contou com vários especialistas na matéria, como psicólogos,
psiquiatras e estudiosos do comportamento. Ensinei (pouca coisa),
aprendi muito e foi uma saudabilíssima troca de informações entre
oradores e platéia, composta, quase toda, por profissionais da área
e estudantes.
Óbvio
que, antes de tudo, tracei a distinção entre o medo normal,
saudável, instintivo e necessário, e o doentio, exagerado,
superlativo: o pânico, o terror e outras tantas manifestações
patológicas (entre as quais, as várias fobias). Reitero que ensinei
(pouca coisa) e aprendi (muito) com os ilustres conferencistas que me
sucederam. Até hoje, todavia, não entendi a razão de haver sido
convidado para esse evento.
Não
sou psicólogo, psiquiatra ou algo que o valha. Não passo de um
projeto de escritor que tem, como “matéria-prima” do seu
trabalho, o ser humano, em toda a sua grandeza, majestade e
transcendência e, também, na sua miséria, fragilidade e
efemeridade. É verdade que, pelo visto, saí-me muito bem na
conferência. Pelo menos fui agraciado por prolongados aplausos, de
uns cinco minutos de duração, com a platéia toda de pé.
Provavelmente, tratou-se de generosidade dos presentes.
Na
ocasião, eu ainda não havia lido o conto “O medo”, de Guy de
Maupassant, que em poucas palavras, traz subsídios valiosíssimos
para o estudo do tema. Uma pena. Se tivesse lido, minha performance,
certamente, seria melhor e minha preleção, mais proveitosa. Como se
vê, não raro os escritores têm mais coisas a dizer sobre
comportamento humano do que os especialistas. É o caso.
Maupassant
coloca, na boca do principal personagem do conto, esta constatação:
“O medo (e os homens mais valentes podem sentir medo) é algo
terrível, uma sensação atroz, uma espécie de dilaceramento da
alma, um tremendo espasmo da inteligência e do coração, cuja
simples lembrança nos faz estremecer de angústia. Mas quando se é
corajoso, isso não acontece diante de um ataque, nem diante da morte
inevitável, nem diante de qualquer das formas conhecidas de perigo;
isso acontece em determinadas circunstâncias anormais, sob
determinadas influências misteriosas e diante de riscos vagos”.
Medo,
portanto, desde que motivado, ou seja, face a um risco concreto,
iminente ou não, não é sinônimo de covardia. E nem a sua
ausência, nesses casos, é sinal de coragem. É, isto sim, sintoma
de imprudência, de temeridade, de falta respeito, valorização e de
amor à vida. Mas não é esse o aspecto que considero mais relevante
no conto de Maupassant. É esta observação complementar: “O
verdadeiro medo é como uma reminiscência dos terrores fantásticos
de outrora. Um homem que acredita em fantasmas e que imagina ver
espectros à noite deve sentir o medo em todo o seu medonho horror”.
Esse
sentimento subjetivo, que causa efeitos irreversíveis na mente e que
depende exclusivamente da crença, é que deve ser evitado. Produz
sofrimentos impossíveis de serem dimensionados e, levado ao grau
extremo, o de terror, pode, até, redundar na morte de quem passa por
essa traumatizante experiência. Deve-se, pois, cuidar naquilo em que
se acredita.
Eu,
por exemplo, tive, durante muitos anos (e não somente na infância,
mas em boa parte da adolescência) um medo enorme de escuro. Apesar
da minha parte racional dizer-me que não havia perigo algum na falta
de luz (a não ser o risco de algum tropeção ou queda em algum
buraco ou outra coisa do tipo), o lado irracional punha todo o meu
corpo em alerta. Resolvi buscar no passado a causa desse meu
comportamento que me constrangia tanto.
Depois
de forçar muito a memória, finalmente descobri. Quando eu tinha
quatro anos de idade, um tio me disse, para acalmar minhas
traquinagens noturnas, que eu não deveria brincar à noite no
quintal, pois lá havia “um monstro” que atacava criancinhas
desobedientes. Aquilo calou fundo no meu subconsciente. Por que? Não
sei! Desde então, a escuridão passou a me apavorar. Por que esse
medo se instalou tão fundo na minha mente? Simplesmente, porque
“acreditei” no que um adulto havia me dito, mesmo que eu ou
qualquer outro menino com que me relacionava nunca tenhamos visto
qualquer criatura monstruosa e homicida na escuridão.
A
partir do momento em que passei a não dar mais crédito a essa
bobagem, esse medo tolo desapareceu, como que por encanto, e para
sempre. Devemos pensar bem, portanto, no que dizemos às crianças.
Aquilo que pode nos parecer uma observação casual, trivial e
aparentemente sem conseqüência, pode marcá-la para sempre. Aliás,
sou contra tratar alguém, tenha a idade que tiver, como se fosse
bobo. Sou avesso a esse excesso de “inhos”, ditos aos pequeninos,
essa infantilização dos adultos, achando que com isso serão mais
simpáticos e mais amados por seus filhos, netos ou sobrinhos.
Certamente, não serão.
Não
se deve mentir, seja por qual motivo for, para uma criança. Não se
deve incutir, sobretudo,. em suas mentes, fantasias de quaisquer
espécies, notadamente as de caráter negativo. Elas, no momento
adequado, saberão elaborar as suas. E, certamente, estas não serão
assustadoras e muito menos aterrorizantes. Afinal, o medo é um
mecanismo de defesa importante demais (e indispensável) para que se
brinque com ele.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Eu e meus medos. Eu e a minha fobia de avião.
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