terça-feira, 1 de junho de 2010




A lista

* Por Risomar Fasanaro

A senhora que trabalha na casa de um dos meus amigos estava gripada, e o marido foi avisar que ela faltaria naquele dia. Poderia ter ligado, mas resolveu ir porque estava muito apreensivo, e precisava pedir um conselho.

Eliseu é uma pessoa a quem os amigos recorrem quando se encontram com dificuldades de tomar uma decisão. Sabendo disso é que seu José foi procurá-lo.

Meu amigo notou a fisionomia carregada do homem, o jeito nervoso de ele esfregar as mãos uma na outra, e perguntou:
- O que foi seu José?

O homem nervoso, com as mãos trêmulas, demorou a falar, não sabia como ele, iria recorrer àquele rapaz muito mais jovem do que ele.

Mas enfim, depois de ficar percorrendo descaminhos e atalhos, de ficar de olhar enviesado pro meu amigo, resolveu tirar do bolso da calça uma folha dessas de caderno universitário, grande, amassada, com jeito de ter sido dobrada e desdobrada dezenas de vezes.

O que conteria aquela folha?

Depois de vários minutos sem que o homem se resolvesse a dizer o que fora ali fazer, Eliseu perguntou se estava tudo bem.

Em silêncio ele passou a folha de caderno ao meu amigo:
- O senhor espie essa lista, seu Eliseu. A gente anda recebendo telefonemas direto lá em casa, ameaçando nós, dizendo que vão matar eu e Vitorinha se eu num comprá tudinho que tem nessa lista pra fazer um despacho. E asdespois disso, a gente recebe ameaça pelo telefone todo dia.
- Ameaças, seu José?
- É o que lhe digo seu Eliseu. Uma pessoa liga e diz que vai matá eu e a Vitorinha. Agora, uma conhecida de Teresa que é médium, recebeu minha cunhada que já morreu, Deus a tenha em bom lugar, e o espírito dela pediu pra gente fazê um trabalho, que senão eu e a menina vamo morrê.

Teresa é a mulher de José, e Vitória a filha.
-Mas ela recebeu assim... uma pessoa que já morreu, seu José?
-Apois é. Assim... na sala da minha casa? E o espírito disse que tenho de dá o dinheiro pra comprá tudo isso que está aí nessa lista, e mais 180 real pra pagá o chão onde o trabalho vai sê feito, mas eu num tenho esse dinheiro, seu Eliseu. O que o Sr. acha que eu faço?
- Espere aí seu José, deixe eu ler a lista. E meu amigo leu uma relação de itens de cima abaixo da folha: 1 coração de boi, 3 pombas brancas, 1 galinha d’angola, dois chifres de bode, 20 búzios, 2 quilos de feijão fradinho, 1 quilo de farinha de milho, 10 velas brancas, 10 amarelas e 10 vermelhas, 7 inhames, e um buquê de rosas vermelhas.

Depois que terminou de ler, ouviu o homem dizer:
- Imagine seu Eliseu, a gente mar tem pro de comê, como é que eu vou comprá tudo isso e inda pagá os 180 real?

Eliseu que é budista, muito calmo disse:
- O que o Sr. vai fazer, seu José? O Sr. não vai fazer é nada. Isso aqui não tem nada a ver com nada. Essa mulher é uma vigarista...
-Mas o espírito ameaçô, disse que nois tem de fazê esse despacho até dia 31, senão Vitorinha e eu vamo morrê.

Ficou em silêncio, com a mão no queixo, e voltou a falar:
- E se esse espírito vié mesmo e matá nois, eu mais minha filha?
- Não vão morrer coisíssima alguma seu José.
- Como é que o Sr. sabe disso, seu Eliseu?
-Por que isso não existe, seu José. Essa mulher deve ser uma vigarista. Isso não é coisa de gente espírita. O espiritismo é outra coisa. Isso é bandidagem.

E continuou:
-Faz quanto tempo que vocês conhecem essa mulher?
-Ah...ela apareceu lá em casa esses dia...a gente nem conhece ela direito. Ela apareceu dispois que soube das ameaça por telefone...Disse a Teresa que ia salvá nois.
-Está vendo? É uma vigarista! O Sr. diz que não tem dinheiro, e que ela pare de dizer essas coisas, porque o Sr.não tem nem pra lista, nem pro terreno.
-Mas eu já disse, seu Eliseu. E ela disse que tem um conhecido dela que empresta dinheiro, e ela me leva lá pro home me emprestá...
- O Sr. está vendo? Olha aí a vigarice. O Sr. não está percebendo, seu José, que tudo isso é uma armação? Será que não é esse pessoal que fica ligando e ameaçando vocês? E ainda por cima vai lhe fazer ficar endividado com agiota?
-E o que faço, seu Eliseu?
-Faça o seguinte: vá procurar um padre. Eles estudam muitos anos, conte tudo a ele e peça um conselho.

De repente o rosto do homem se iluminou e ele esboçou um sorriso. Virou-se pro meu amigo e disse:
- Carece mais não, seu Eliseu, carece mais não. Sabe o que de repente me alembrei? Minha cunhada, essa que morreu, e que a médium “recebeu”, num podia nem falá em espiritismo. Tinha pavor de macumba, num podia nem falá nessas coisa. Ela era católica até a raiz do cabelo...E apois num é que eu nem tinha lembrado disso?

* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.

4 comentários:

  1. Riso querida me fez lembrar de uma
    mulher que agarrou minha mão em Nova
    Iguaçu e não soltava de jeito nenhum!
    Infelizmente existem canastrões aos
    montes e simplórios ao dobro.
    Ótimo texto!
    Beijos

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  2. É triste a exploração da boa fé das pessoas simples, mas você deu leveza e humor para a "vigarice" em seu texto. Parabéns e beijos, Risomar.

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  3. Parabéns pelo diálogo. Está puro, autêntico e completamente verossímel: coisa difícil de fazer.

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  4. Obrigada Nubia, Evelyne e Mara, pelas palavras, e pelo carinho.
    Beijos

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