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A Copa de 1970
* Por Risomar Fasanaro
1970, auge da ditadura no país. Dia sim outro também chegava ao colégio e alguém dizia: “J. desapareceu, ele não foi ao nosso encontro ontem à noite, e na casa dele ninguém sabe onde está”.
* Por Risomar Fasanaro
1970, auge da ditadura no país. Dia sim outro também chegava ao colégio e alguém dizia: “J. desapareceu, ele não foi ao nosso encontro ontem à noite, e na casa dele ninguém sabe onde está”.
Um dia cheguei à faculdade para a aula de Lingüística, e alguém cochichou: não vai haver aula, a professora A. N. foi presa. Um a um todos ficavam sabendo e saiam cabisbaixos. Respirávamos o terror.
Os companheiros que lideravam o movimento operário-estudantil de Osasco contra a ditadura tinham sido presos. João Domingues da Silva fora assassinado sob tortura em setembro do ano anterior, e Sérgio Zanardi se suicidara.
O medo, a tristeza, a decepção eram os sentimentos que tomavam conta de todos nós. Várias vezes cheguei à faculdade atrasada. Quase que diariamente a polícia me parava na Avenida Jaguaré, para revistar o carro.
Abriam o porta-malas, o capô, levantavam os bancos.. Na Cidade Universitária soldados da cavalaria “passeavam por entre os prédios...
Foi assim que chegou a Copa do Mundo de 1970 em minha vida.
Nossa casa era a “sede central” da torcida. Era ali que meu filho e seus amigos se reuniam para ver o jogo: a sala ficava repleta com aqueles garotos entre 9 e 12 anos espalhados pelos sofás e almofadas no chão.
Lembro-me de que no primeiro jogo o Brasil enfrentava a seleção da Tchecoslováquia, e eu, trancada no quarto, tentava ler alguma coisa, mas o barulho que os meninos faziam não me permitia entender nada.
Aproveitei o intervalo do jogo, fechei o livro, fui até a sala e fiz um “discurso” contra a participação do Brasil naquela Copa. Expliquei àqueles olhinhos atentos que o país vivia sob uma ditadura, que no governo Médici as pessoas eram presas, torturadas, que algumas tinham morrido dentro dos presídios, por causa das torturas.
Um discurso insano de quem quer explicar a crianças daquela idade algo que além de não compreenderem, não lhes interessava.
Eles me ouviam, mas logo percebi que aquele silêncio era não só por educação, mas também porque o 2º tempo ainda não havia começado.
O que queriam era saber se Pelé faria algum gol contra a Tchecoslováquia. Temiam que Petras, jogador tcheco faria outro gol, e se Ivo Viktor conseguiria defender todos os gols daqueles super poderosos jogadores brasileiros: Pelé, Rivelino, Tostão.
O Brasil ganhou de 4 a 1, e eles comemoraram com pulos, gritos e passeata pelas ruas. Como pude perceber, meu “discurso” não tivera nenhum efeito sobre aquela torcida.
Veio o 2º jogo contra a Inglaterra, e em determinado momento a agitação dos torcedores mirins aumentou tanto, que fui até a sala saber o que estava acontecendo. A agitação se devia à atuação do goleiro Gordon Banks que defendera um gol de cabeça do Pelé. Mais tarde fiquei sabendo que aquele lance é considerado até hoje, a maior defesa do século XX, na história do futebol.
Bom, aí devo confessar que quis ouvir as explicações deles.
É incrível como um garoto brasileiro de 9 anos entende de futebol. Algo de emocionar.
Eles me explicavam com detalhes como havia sido a jogada, porque aquela defesa do jogador inglês fora tão inacreditável.
Enfim...Mais do que aos ingleses, aqueles meninos me derrotaram. Sentei entre eles e assisti ao jogo até o final. E depois?
Depois vesti uma blusa amarela, lotei o carro, e saímos pelas ruas gritando e desfraldando nossa bandeira. Além daqueles garotos, o sentimento patriótico me venceu.
* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
Riso eu lembro exatamente do que fazia
ResponderExcluirnesse dia. Eu tinha sete anos e meu pai
estava de serviço, era o que dizia né, eu
varria a sala e olhava o jogo sem entender
muito. Não assimilava ainda a importância
do evento para o país.
Mas foi bom relembrar. Ótimo texto.
Beijos
Você disse tudo, Risomar!
ResponderExcluirGostei muito do texto, agora mesmo os torcedores estão treinando o "Casar! Casar! A turma é mesmo boa, é mesmo da fuzarca", tudo na base das buzinadas, e o pior, imitando a torcida sul-africana nas perturbadoras cornetas. Fora os fogos... É a maior perturbação do mundo!!! "Pra frente Brasil"?!
O sentimento patriótico já estava a flor da sua pele, Risomar. Apenas mudou de face carrancuda e foi para a festa. Pelo motivo do ditador de plantão, Medici, fingir ser gente do povo, que de tão normal, até torcia pelo Brasil, não inviabilizava a sua genuína torcida. O patriotismo foi usado para camuflar os ditames da ditadura, mas a copa de 1970 não era apenas isso. Tanto foi assim, que depois da volta da democracia, tudo ficou ainda maior.
ResponderExcluirMuito obrigada Núbia, Calvino, Mara
ResponderExcluirVocê tem razão, Mara, depois daquela experiência nos primeiros jogos, me enturmei com meus amigos adultos e passei a assistir a todas as partidas que nossa seleção jogava, em todas as Copas do Mundo.
Beijos