Breves apontamentos sobre a
educação das criancinhas
* Por André Falavigna
Há, nos dias de hoje, duas
verdades indiscutíveis contra as quais ninguém ousa levantar uma objeção
sequer: a primeira é que, também nos dias de hoje, a educação das crianças é muito
mais humana e menos brutal do que aquela que nossos pais e avós receberam, e
mesmo do que a que nós recebemos; a outra é que, ainda nos dias de hoje, as
crianças são mais mal educadas do que o seriam hienas gonorréicas do Kalahari
após meses de privações e seca.
Longe de mim contestar a primeira
ou a segunda proposição. Esta é um fato que posso acompanhar dia a dia, aquela
uma descrição de algo que não vivi, mas que é feita por gente super capacitada
que, muitas vezes, fez até Psicologia na USP. Eu não fiz Ciências Sociais na
USP e, portanto, não estou habilitado a discutir o que quer que seja com quem
quer que seja, onde quer que seja. Só quero esclarecer umas dúvidas aí, porque
um dia desses posso engravidar alguém e, então, já viu. Vou ter que educar uma
criança e prepará-la para Um Outro Mundo Possível.
Por exemplo: esse negócio de
castigo físico é uma abominação. Graças a Deus, a coisa vem melhorando
gradativamente. Quando eu era pequeno, se fosse pego mentindo, apanhava. De
cinta. Meu pai, no tempo dele, apanhava de fio de ferro. Suponho que nada muito
pior era feito ao meu avô, já que ele sobreviveu para gerar e criar meu pai. As
cintadas também não me tornaram estéril, e pareço razoavelmente apto a trazer
ao mundo mais um cambucetense.
Eu e minha jovem esposa temos
planos para o assunto. Sou meio antiquado e prefiro fazer filho com a minha
mulher mesmo. Dá menos trabalho. Também sei que seria mais solidário e
bolivariano adotar uma criança carente ou patrocinar um aborto. Mas é por puro
reacionarismo que resolvi formar família. Ainda vou me dar mal com essa
história.
E já estou me informando.
Diferentemente do que se passou comigo, com meu avô e com meu pai, meu filho
não será ofendido na sua condição estatutária de criança ou adolescente só porque
faltou com a verdade. Para começo de conversa, isso poderia deformar a mente do
jovenzinho, inculcando-lhe a idéia de que existe alguma coisa que possa ser
encarada realmente como verdade. Todos sabemos que isso não é verdade, à
exceção da afirmação de que não existe nada que possa ser encarado realmente
como verdade. Eu sei que é confuso, é verdade, mas não posso explicar melhor a
coisa porque, inclusive, também não entendi até hoje essa história. Isso que dá
não ter feito Filosofia na USP.
Há outras questões: se eu vier a
descobrir que o pentelho está mentindo, é porque invadi a privacidade dele.
Quem merecerá uns tapas sou eu, ou minha mulher (depois do primeiro filho,
minha jovem esposa deve, a exemplo do que ocorre em toda a espécie, tornar-se
“minha mulher”). É uma vergonha invadir a privacidade de uma pessoa, sobretudo
se ela ainda não deu provas de ser de direita ou simplesmente de um partido do
qual a gente não goste.
Além do mais, está claro que se o
pequeno oprimido rebelde está mentindo é porque está faltando diálogo em casa. Pouco importa
que seja impossível mentir-se para os outros sem se submeter a alguma forma de
diálogo: o que interessa é que o modelo hipócrita e opressor da sociedade
capitalista está sendo reproduzido no seio do lar pequeno-burguês, e isso causa
um prejuízo danado à camada de ozônio.
Às vezes, percebo alguém
incomodado com uma criança que faz caso e escândalo, em público, porque o papai
ou a mamãe lhe negam esta ou aquela requisição, ululada sempre em regime de
urgência. As pessoas se incomodam com a gritaria e, uma vez ou outra, com o
palavreado de puteiro dos futuros líderes da nação. Eu também não gosto, mas
temos que reconhecer que há pessoas que estudaram a vida inteira e que sabem do
que estão falando. Esse pessoal até tem alguns doutorados na USP.
Vejam só vocês, outro dia li num
jornal o seguinte: certos pais percebem que seus jovens filhos, de repente,
mudam seus hábitos bruscamente e passam a chegar tarde em casa, andar em
companhias esquisitas e a, muito provavelmente, fumar um pouquinho de maconha
com os amiguinhos. Eles não sabem o que fazer e clamam por orientação. Como não
conseguem a tal orientação a tempo, quando vão ver a rapaziada está dando umas
porradas na mamãe para dar umas pipadas com a galera. Pelo que entendo do que
ando ouvindo dos especialistas, faltou diálogo com essa meninada boa lá atrás,
quando eles grudavam chicletes nos cabelos da professora de matemática, e falta
agora, quando eles aplicam alguns marmeloques despretensiosos na vovó. Era uma
questão de conversa e, ao fim e ao cabo, continua sendo. Sem conversa, não dá
para exteriorizar a coisa, compreendem? É a maldita herança do pensamento
judaico-cristão que sufocou essa juventude. Assim que todo mundo entender que
essa pressão toda por virtude e essa repulsa toda ao vício não passam de um
preconceito bushista, todo mundo vai parar de se comportar mal e viver feliz
para sempre.
Portanto, se alguém ficar tentado
a encontrar alguma contradição entre os dois enunciados do primeiro parágrafo, pode
ir tirando o cavalinho da chuva. Se as crianças contemporâneas não conseguem
passar cinco minutos sem ferir alguma norma de convivência, higiene, boas
maneiras ou civilidade, isso é porque ainda são criadas por pais e professores
que, a despeito de informados quanto às mais modernas práticas educacionais,
foram eles mesmos criados numa época em que imperavam a selvageria, as trevas e
a palmatória. No futuro, quando esses pestinhas tomarem nas mãos a educação de
nossos netos, aí sim nós vamos ver descortinada diante de nós a solução
dialética do problema todo. Vai ser um barato.
Nossos filhos poderão fazer mais
do que nós porque, mais do que introjetarem a idéia de que toda repressão é uma
merda, eles não farão a menor idéia do que seja reprimir porra nenhuma. Eu
desconfio seriamente que eles terão que inventar alguma coisa para educar
libertariamente suas crias. Como são meio impacientes e não gostam de ser
contrariados, já vi tudo: no lugar de umas palmadas, umas cintadas e uns
castigos do tipo “esta semana você nem mexe no videogame”, vão partir logo para
soluções mais propositivas e construcionistas, como fuzilamentos em massa,
enforcamentos, sepultamento de vivos e outras medidas fundadas no centralismo
democrático. Eu mal posso esperar.
(*) André Falavigna é escritor, tendo publicado dezenas de contos e crônicas
(sobretudo futebolísticas) na Web. Possui um blog pessoal no qual lança,
periodicamente, capítulos de um romance. Colabora com diversas
publicações eletrônicas.
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