sexta-feira, 22 de junho de 2018

Índice


Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Doze anos, dois meses e vinte e quatro dias de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – Questão de identificação.

Coluna Contrastes e Confrontos – Urariano Mota, artigo, “Zico foi excluído da Seleção pela ditadura”.

Coluna Do real ao surrealEduardo Oliveira Freire, crônica, “Vai Brasil!!!.

Coluna ClássicosFernando Pessoa, poema,A Ciência, a ciência, a ciência...”.

Coluna Porta AbertaJoão Alexandre Sartorelli, poema,Clarão da lua”.

Coluna Porta Aberta – Wanderlino Arruda, crônica, “A arte de falar em público”.

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DESAFIO E PROPOSTA

Meu desafio está atrelado à proposta que tenho a fazer. Explico. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que quero conferir. Tenho um novo livro, dos mais oportunos para um ano como este, de Copa do Mundo de Futebol. Seu título é: “Copas ganhas e perdidas”. Trata-se de um retrospecto de mundiais disputados pelo Brasil (que disputou todos, por sinal), mas não sob o enfoque do profissional de imprensa que sou, mas de um torcedor. É um livro simultaneamente autobiográfico e histórico, que relata como e onde acompanhei cada Copa do Mundo, de 1950 a 2014, da minha infância até meus atuais 75 anos de idade. Meu desafio é motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, apenas pela internet, e sem que eu tenha que bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa até que consiga êxito, todos os dias, sem limite de tempo. Basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. A proposta e o desafio estão lançados. Acredito que serei bem sucedido!!!

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CITAÇÃO DO DIA:

Culposo 

Tenho um amigo que gosta de dizer que o Brasil é um país culposo, pois tudo o que aqui acontece de ruim se deve a uma das três características do crime culposo: negligência, imperícia ou imprudência. 

(Autran Dourado).




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Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Editorial - Questão de identificação


Questão de identificação


O amor, nas variadas formas e intensidades com que se apresenta, é, sem nenhuma dúvida, a experiência maior, mais marcante e inesquecível de quem o experimentou algum dia ou tem a ventura de ainda vivê-lo intensamente, até o derradeiro instante da vida. Mesmo o que acaba frustrado, fica gravado, a ferro e fogo, na memória e na alma, à revelia de quem se frustrou com ele, com as lembranças, todavia, “adoçadas” pelo tempo, que dilui o veneno da frustração.

Por incrível que pareça, quem e o que nos fez sofrer é recordado com saudade e veneração. Claro que não saímos por aí apregoando algo tão íntimo e tão nosso. Daí o amor ser o tema preferencial e recorrente de praticamente todos os escritores, de todos os tempos. E eles encontram sempre ângulos novos, interessantes e originais para abordar.

Embora as histórias pareçam se repetir, na verdade nunca se repetem. São sempre originais e únicas. Têm personagens e enredos muito diferentes. Mais marcante uma novela, um conto ou um romance (não importa) de amor se tornam quando guardam identidade com nossas experiências pessoais. Quando personagens ou circunstâncias, ou ambos, nos retratam, e descrevem o que, de fato, vivemos, mesmo que apenas por ligeira aproximação.

Identifico-me, em particular, com um romance épico, desses de ficarem marcados na memória para sempre, dos tais que lemos, relemos e voltamos a reler vezes sem fim, com a mesma emoção e mais, com idêntica empolgação. Refiro-me a “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, escritor conhecido, intimamente, como Gabo.

Chamo-o assim, com toda essa intimidade como se o conhecesse pessoalmente. Claro que não tive esse privilégio. Mas é como se o tivesse, tantas foram minhas leituras e releituras de sua magnífica obra (tão magnífica, que lhe valeu o Nobel de Literatura), como “Cem anos de solidão”, “O outono do patriarca”, “Os funerais da mamãe grande”, “O enterro do diabo”, “Relato de um náufrago”, “A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada” e uma meia dúzia de outros.

Identifico-me profundamente com o relato de “O amor nos tempos do cólera” por uma razão que, por mais que tente, não consigo explicar racionalmente. Seu personagem central, por exemplo, que viveu uma experiência afetiva remotamente parecida com a minha, Florentino Ariza, uma espécie de anti-herói, que só na última linha do livro identificamos como herói de fato, não se parece em nada comigo. Somos, fisicamente, rigorosamente diferentes. Ou, forçando a barra, diametralmente opostos.

O que nos identifica é a paixão. Mais do que ela, é a fidelidade devotada a ela. A dele, Florentino Ariza, pela esquiva Firmina Daza. A minha... pela mulher que me acompanha há décadas, mãe dos meus quatro filhos e avó dos meus três netos. Há, claro, uma diferença fundamental sobre a nossa forma de amar e o tempo transcorrido para o sonhado “happy end” (que, em ambos os casos, ocorreu).

Florentino Ariza persistiu por cinquenta e três anos, sete meses e onze dias (“com as respectivas noites”, como Gabo acentua), para saber-se correspondido. Tive mais sorte. Despendi sete anos, um mês e vinte e oito dias para ter igual sucesso em minha teimosa busca pela “cara metade”.

Nós dois – o personagem e eu – tivemos que nos contentar, por muito tempo (põe muito nisso!), com bilhetes apaixonados, cartas de péssima literatura mas de intensa e febril paixão, olhares furtivos e outras tantas loucuras de amor, para expressar à amada nosso sentimento e demonstrar-lhe nossa incorruptível fidelidade. Em ambos os casos, o obstáculo era idêntico: a oposição das respectivas famílias das nossas musas. Eram obstáculos aparentemente intransponíveis à concretização dos nossos delírios de paixão. Ambos os transpusemos.

Tive, é verdade, mais sorte do que Florentino Ariza. Após sete anos, um mês e vinte e oito dias, consegui vencer a resistência familiar e obter o consentimento para “viver para sempre”, até “que a morte nos separe”, com a mulher que minha intuição concluiu que era a que me fora destinada. Por quem? Sei lá!

Mas Florentino Ariza, despendendo quase oito vezes mais tempo do que eu para obter o mesmo resultado, também viu compensadas sua fidelidade e sua constância. No seu caso isso ocorreu, apenas, quando ele e Firmina Daza estavam em provecta idade, em que eram, ambos, anciãos, e ela há tempos viúva, certamente com lembranças de outros braços e outros beijos. No meu, felizmente, isso não acontece. Tive (e tenho) a ventura de usufruir do amor em toda a sua plenitude e glória a partir da minha completa maturidade, física, mental e afetiva até este início de declínio das minhas energias e vitalidade.

Todavia, os sofrimentos, as frustrações, as esperanças seguidas de desespero e de novas esperanças e de outros tantos desesperos, por mais de meio século, descritos com a perícia de um escritor genial, como Gabo, de Florentino Ariza, me são sumamente familiares. E como são! O amor... ah, o amor! É, sem tirar e nem pôr, o que tão bem o caracterizou a escritora Marguerite Grepon: “Uma enfermidade sem a qual ninguém passa bem”. E da qual, aduzo, intimamente, nos recusamos a nos curar.

O poeta romano Virgílio, impotente para se livrar dele, amaldiçoou-o. Não em nome próprio, é verdade (não chegou a tal atrevimento), mas colocando a maldição na boca de um personagem da sua imortal epopeia “Eneida” (Livro IV), que diz, num assomo de ira e de desalento: “Maldito amor, a que não obrigas os corações mortais!”.

Às imprecações, queixas e maldições, prefiro a ponderação sábia e segura de um especialista na alma e no comportamento humanos, o psicanalista Erich Fromm, que sentenciou, em seu livro “Arte de amar”: “O amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana”. E não é?! Florentino Ariza (ou melhor, Gabriel Garcia Marquez) que o diga.


Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

Zico foi excluído da Seleção pela ditadura - Urariano Mota


Zico foi excluído da Seleção pela ditadura


* Por Urariano Mota

Todos nós já sabíamos do uso, para efeito de propaganda política, da seleção brasileira de futebol. Sabíamos também da sua interferência até na escalação de jogadores, quando Médici impôs Dario ao time da Copa. E a consequente demissão do grande João Saldanha. Mas não sabíamos disto, com provas vivas, de excluir e perseguir geniais jogadores por motivo ideológico.

O jornalista e escritor Paulo Verlaine, que considero um clássico vivo do jornalismo brasileiro, foi quem me presenteou o livro “Futebol e Ditadura”, quando fui lançar em Fortaleza o romance “A mais longa duração da juventude”. É das páginas do Futebol e Ditadura, com prefácio de Paulo Verlaine, que destaco este escândalo.

Fala, Nando, atleta e jogador de talento, sobre a perseguição a seu irmão Zico:

Eu ainda estava jogando no Gil Vicente, em Portugal, quando soube que o Zico, titular absoluto da seleção olímpica, que iria para Munique em 1972 – o Brasil tinha se classificado em Bogotá vencendo a Argentina por 1 X 0, com gol de Zico em 1971 – pois bem: meu irmão foi absurdamente deixado de fora da lista de convocados pelo treinador Antoninho. Olhem só: Antoninho tinha sido inclusive treinador do Antunes (outro craque, meu irmão) no Fluminense, e conhecia muito bem a nossa família, que sem falsa modéstia é sempre considerada como um exemplo a ser seguido, o que nos dá muito orgulho…

Esse treinador, antes de falecer, confirmou que recebeu ordens de não convocar o Zico, porque um dos irmãos tinha sido preso. (O irmão preso fui eu, Nando.) Isso nos machucou muito, e o Zico pensou até em parar de jogar futebol, tal foi a sua decepção. Foi um episódio lamentável e de perversidade única com um jovem de apenas 18 anos, a idade de Zico quando foi cortado. Um jovem cheio de sonhos, porque todos sabíamos do seu potencial e de sua força de vontade”.

A razão do corte de Zico se deu bem antes, mas acompanhou para tentar matar o futebol, ou pelo menos sufocar o talento da maior família futebolística do Brasil, dos craques irmãos Edu, Zico e Nando:

“Em 1963 minha irmã Zezé, Maria José Antunes Coimbra, cursava a Faculdade de Filosofia para me inscrever no concurso para professor do PNA (Plano Nacional de Alfabetização), criado pelo grande Paulo Freire. Fomos ambos aprovados, ela para coordenadora, eu para professor. Entre o treinamento para a função e trabalho propriamente dito ficamos poucos meses no PNA. Assim que teve início a famigerada ditadura, o PNA foi encerrado e todos que atuavam nele passaram a ser perseguidos”.

A partir daí, a “mancha” de ter querido alfabetizar brasileiros não largou mais a vida de Fernando Antunes Coimbra, mais conhecido por Nando no futebol. Ele foi perseguiu do modo mais desonesto até em Portugal, como conta:

“Quando eu estava para assinar o contrato que se arrastava sem acordo (o Belenenses não queria me pagar o prometido quando me chamou no Brasil), fui surpreendido um dia no hotel. Era outono, início de 1968, e duas pessoas bateram à minha porta. Como estavam de terno, pensei que fossem repórteres e atendi de pronto, mas logo depois se identificaram como da PIDE, a polícia política do ditador Salazar. Logo começaram a me interrogar. E para meu espanto, eles sabiam que eu tinha sido educador do PNA. Tinham minha ficha completa…

No dia seguinte após o treino, o diretor de futebol do Belenenses me chamou para uma conversa particular. E debochadamente deu a entender que sabia da visita que eu tinha recebido no hotel, e foi mais longe: caso eu não assinasse o contrato como eles queriam, me fez ver que eu era filho de português, então eles poderiam me mandar para a “guerra nas áfricas’, que era como eles se referiam a Angola e outras colônias”.

Como sempre, Nando evitou falar, comentar a perseguição da ditadura com os irmãos em casa, porque Edu, o outro craque da família, já fazia sucesso como jogador. Mas em vão. Os ditadores não dormiam:

“O Edu foi o artilheiro do campeonato brasileiro em 1968 (se chamava Taça Brasil) e já havia sido convocado para a Seleção Brasileira que disputou a Copa Roca, na Argentina, e a Taça Atlântico, no Uruguai. Então a gente já dava como certo ele ser convocado para a seleção de 1970. Para nossa pior surpresa e frustração, Edu não foi convocado. O João Saldanha, quando foi demitido da seleção (era comunista e não escondia), comentou que não convocara o Edu porque havia por parte do regime militar restrições à família Antunes”.

Pouco depois da Copa do Mundo de 1970, Nando foi preso no DOI-CODI do Rio de Janeiro. Nas palavras do seu relato:

“Nos meados de agosto de 1970, fomos surpreendidos com a prisão de nossa prima Cecília Maria Bouças Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais, e seu marido José Novaes.... Um dos primos me ligou para dizer que a tia Maria, mãe deles, estava passando mal com a prisão da filha. Corri à casa de um colega que era médico e muito nosso amigo e partimos para Rua Dias da Cruz, no Méier, onde eles moravam. Na ocasião, fomos surpreendidos por diversos agentes do DOPS que invadiram o apartamento com armas pesadas e nos levaram presos para o DOI-CODI.

Passamos uma noite de horror, em pé, com a cara na parede e as mãos na cabeça até de manhã. Saímos várias vezes, encapuzados para interrogatórios, onde ouvíamos as coisas mais absurdas...”.

E conclui ao fim do seu verdadeiro e necessário depoimento:

“De nada me arrependo na minha vida e esta é a minha história. Igual à de muitos brasileiros que sofreram muito mais que eu e foram o alicerce para que as novas gerações pudessem viver numa democracia.... xô ditadores!!!”

Esse depoimento tão revelador é necessário para bem ilustrar o mundo absoluto da ditadura, que não respeitava nem os limites do esporte. Além de assassinatos de presos desarmados, chegou a impedir a convocação de jogadores geniais do futebol brasileiro, como Zico e Edu. 

Nando foi atleta do Ceará na década de 60. O depoimento acima, em texto integral, está no livro Futebol e Ditadura, publicado pelo Centro Cultural do Ceará Sporting Club. O subtítulo é “A história de Nando, o primeiro jogador anistiado do Brasil”. Agradeço ao craque de jornalismo Paulo Verlaine, que me presenteou a edição. Recomendo o livro com entusiasmo de torcedor da seleção brasileira.

(Texto publicado no portal “Vermelho”, em 22 de junho de 2018).

* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros
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Vai Brasil!!! - Eduardo Oliveira Freire


Vai Brasil!!!


* Por Eduardo Oliveira Freire


Vai Brasil!!! Vamos ser hexa!!! Todos contra a corrupção!!! Vamos pegar as panelas e bater bem alto e fazer a dançinha organizada. Vamos nos vestir de verde e amarelo, torcer para o Brasil e para os guerreiros que só jogam com a finalidade de dar um pouco de alegria ao povo brasileiro. Porque futebol é ainda sonho e paixão nacional, dinheiro não rola.

Todos os jogadores querem jogar pelo Brasil e não ir para os times de fora, ganhando milhões. A Fifa e a CBF são instituições que regulam o esporte super íntegras e não estão envolvidas em corrupção.

Vai Brasil!!! Que cada jogador dedique um gol para as crianças necessitadas, os moradores de rua e a cada mulher violentada. O Brasil é o país do futebol, só rola paixão. Não há dinheiro rolando…

Vai Brasil!!! Agora vai!!! Seremos hexa!!!! Peguem as panelas, chamem o pato da Fiesp e dancemos com bastante harmonia. Vai Brasil, hexaaaaaaaaa!!!

Depois do jogo, trabalhar. Mas, antes, tiro uma selfie, porque gosto de mim e descobri que sou meu melhor companheiro.
A cada indiferença, uma selfie.

Na verdade, é um ato político para mostrar que eu existo e que sou um corpo livre. Que venha o tempo, os problemas do país e as maledicências alheias. Vou sobreviver, pois sou forte!!! E, claro, filho do meu pai e de minha mãe.


* Eduardo Oliveira Freire é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, com Pós Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é aspirante a escritor


A Ciência, a ciência, a ciência... - Fernando Pessoa


A Ciência, a ciência, a ciência...

* Por Fernando Pessoa

A Ciência, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com quanto esforço dado ralha!
Contra o pesar, que é o meu vício!
A Ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.


In Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar, pg 455.


* Fernando António Nogueira Pessoa foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. 

Clarão da leua - João Alexandre Sartorelli


Clarão da lua

* Por João Alexandre Sartorelli

Lua cheia que me mata
Mas não traz você de volta.
Essa lua não alumia,
A luz urbana não me basta.
A cidade me redime,
Mas não traz você de volta.
Tantas voltas nesta vida,
Tonta lua que transborda.

* Analista de Sistemas por profissão e poeta por vocação

A arte de falar em público - Wanderlino Arruda


A arte de falar em público

* Por Wandelino Arruda

Em recente curso de oratória que tive oportunidade de ministrar para vinte participantes, na Academia Montes-clarense de Letras, vivi poucos dias e muitas horas de intenso labor dirigido aos objetivos do mais gratificante prisma da comunicação. É que o falar em público, a arte da eloquência, o verdadeiro discurso, aquele que agrada e gratifica a quem fala e a quem ouve, é indiscutivelmente uma realização pessoal, sempre recebido com prazer e, muitas vezes, com emoção. Difícil de acontecer, porque, resultado de dom, de cultura, de domínio linguístico e de longo treinamento, a oratória legítima fica a cada dia mais distante de se encontrar.

Há os que falam com brilhantismo e beleza, os que dão vida às frases e períodos, criando o ambiente receptivo, estabelecendo os liames da verdadeira compreensão. Estes trabalham mais achegados no campo da arte ao gerar novas possibilidades no manejo do pensamento, plasmando formas, movimentos, cores, oferecendo novas imagens à inteligência. Há também os que, sem conseguir a perfeição da forma, alcançam a melhoria do entendimento, transmitido e comunicando com segurança a cultura e o saber, voltados mais para a ciência da didática e da informação. Estes mais professores do que artistas, mais objetivos e pragmáticos, são os informadores e formadores do conhecimento.

Não sei a quem atribuir o mérito maior, já que o mundo é uma composição de ciência e de arte, de engenho e beleza. O pensamento, abstrato para quem só sabe pensar, mas muitissimamente concreto para os que materializam a palavra, em qualquer de suas formas, será sempre objeto de curiosidade e de interesse sincero. É através dele que se verificam a aprendizagem, a compreensão, o entendimento, bem como as possibilidades de análise, síntese e de crítica, coordenadas construtoras de todos os elementos civilizatórios. Na verdade, o mundo, em todo processamento histórico, vem sendo construído, em primeiro lugar, pela força das id
eias, pela projeção do raciocínio dos grandes líderes de todos os tempos.

Creio, sinceramente, que Juscelino Kubitschek, o grande modificador das estruturas do progresso brasileiro, o homem de fronteiras, o bandeirante do otimismo, realizou muito mais pela força da retórica do que propriamente pelo dinamismo do trabalho. Sua palavra, clara, direta e bonita, era uma receptiva usina de coragem e decisão, plasmadora de patriotismo, convincente, agradável de ser ouvida e, sobretudo, confiável e confiante. Um presidente de todos os lugares e de todas as pessoas, festivo nos contatos e sério nas decisões, soube liderar, escutando com paciência e falando com entusiasmo. Sua palavra rasgou mais territórios do que os tratores das construtoras, e desbastou e esculpiu e cinzelou uma nova realidade.

Assim, palavra vai e palavra vem, é bom acreditar nela, convencer-se da sua força, sentir todo o seu poder. É necessário, pois, estudá-la, vivê-la, acostumar-se ao seu fascínio. Não nos esqueçamos de que foi com o exemplo e com a palavra que um humilde carpinteiro da Galileia modificou a história da humanidade.


* Escritor, advogado, político e professor, radicado na cidade de Montes Claros, tendo sido o idealizador e primeiro presidente do Instituto Histórico e Geográfico e da Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas.