sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Índice


Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Doze anos, cinco meses e vinte e dois dias de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – Erudito e eclético.

Coluna Contrastes e Confrontos – Urariano Mota, crônica, “Memória da ditadura, memória da filha de um bravo.

Coluna Do real ao surrealEduardo Oliveira Freire, conto, “Íntimos e estranhos.

Coluna ClássicosAgustina Bessa Luís, trecho de livro,O Português”.

Coluna Porta AbertaCelso Marconi Lins, poema,Jornalistas”.

Coluna Porta Aberta – Carlos Nejar, poema, “As idades”.

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PESCA EM ÁGUAS TURVAS

Prosseguindo em minha tentativa de “pesca em águas turvas”, tenho uma nova proposta a fazer às editoras. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que venho tentando, há algum tempo, conferir. Tenho mais um livro, absolutamente inédito, a oferecer. Seu título é: “Dimensões infinitas”, que reúne 30 ensaios sobre temas dos mais variados e instigantes. Abordo, em linguagem acessível a todos, num estilo coloquial, assuntos tais como as dimensões do universo (tanto do macro quanto do microcosmo), o fenômeno da genialidade, a fragilidade dos atuais aparatos de justiça, o mito da caverna de Platão, a secular busca pelo lendário Eldorado, o surgimento das religiões, as tentativas de previsão do futuro e as indagações dos filósofos de todos os tempos sobre nossa origem, finalidade e destino, entre outros temas. É um livro não somente para ser lido, mas, sobretudo, para ser refletido. Meu desafio continua sendo o mesmo de quando iniciei esta tentativa de “pesca em águas turvas”. Ou seja, é o de motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, mas apenas pela internet, e sem que eu precise bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa todos os dias, sem limite de tempo. Para fecharmos negócio, basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. Quem se habilita?

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CITAÇÃO DO DIA:

Milagre impossível 

Moisés manteve durante 40 anos os judeus no deserto com a finalidade de mudar seu caráter. Não conseguiu e tampouco Cristo conseguiu. Pois bem, em 1968, os estudantes queriam que seus professores fizessem aquilo que nem Moisés nem Jesus Cristo haviam conseguido.

(Hermann Kahn, em fevereiro de 1977).



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Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Editorial - Erudito e eclético


Erudito e eclético



Os escritores muito eruditos, com conhecimento a fundo de determinadas disciplinas, tendem, via de regra, a pecar pela rigidez. Apegam-se a estilos e temas de sua especialidade e se mostram imperitos, quando não incapazes, de flanar por outras áreas do conhecimento, que não as suas. Pecam, portanto, por falta de ecletismo. Esse não é o caso, todavia, do sul-africano J. M. Coetzee, residente, atualmente, na cidade australiana de Adelaide, onde leciona na universidade local.

Trata-se de um homem de letras que chegou ao topo da atividade que escolheu: a literatura. Consagrou-se, notadamente, como romancista. Seu mais recente best-seller foi “Verão”, que conquistou crítica e público nos principais centros culturais do mundo. Ademais, não precisa provar mais nada para ninguém. Afinal, foi reconhecido, mundialmente, ao obter a mais reputada e cobiçada premiação literária, o Nobel de Literatura de 2003. Foi o quarto escritor nascido na África (e o segundo da África do Sul, a que o precedeu foi Nadine Gordimer, em 1991) a lograr essa façanha.

Antes, já havia protagonizado outro feito quase que do mesmo porte. Havia ganho o disputadíssimo “Booker Prize”, dos Estados Unidos, e em duas oportunidades. O primeiro prêmio foi pelo livro “Life & times of Michael K”, em 1983. E o segundo, 16 anos depois, em 1999, por “Disgrace”. Foi o primeiro escritor a conquistar esse prêmio por duas vezes. Como se vê, não precisa provar mais nada para ninguém.

Interessante é a formação acadêmica de Coetzee. Algumas de suas qualificações não têm nada, absolutamente nada a ver com literatura. Bacharelou-se, por exemplo, em matemática. Entre 1962 e 1965, viveu uma temporada na Inglaterra, quando trabalhou como programador de computadores. Porém, paralelo a essa formação técnica, fez, também, estudos específicos, que o capacitaram a caminhar com segurança e desenvoltura pelo mundo das letras. Para tanto, além de um bacharelato em língua inglesa, doutorou-se, na Universidade do Texas, em Austin, em linguística dos complexos idiomas de raízes germânicas. Como acadêmico, portanto, o cara é uma fera!

Sua brilhante carreira literária, que desembocou no Nobel de Literatura de 2003, começou em 1974, com o livro “Dusklands”. A ele, seguiram-se outros 20, entre os quais o recentemente lançado no Brasil pela Companhia das Letras, intitulado “Mecanismos internos”. Muitos dos livros de Coetzee já chegaram ao Brasil e podem ser encontrados nas melhores livrarias. São os casos, por exemplo, de “À espera dos bárbaros”, “O cio da terra. Vida e tempo de Michael K”, “A idade do ferro”, “O mestre de Petersburgo”, “Cenas de uma vida”, “Desonra”, “Homem lento” e “Diário de um ano ruim”, entre outros.

Mecanismos internos” não foi um livro planejado para sê-lo. Coetzee fez, em relação a ele, o que muitos escritores, que são colunistas de jornais e revistas (literários ou não) fazem. Ou seja, reúnem as melhores colunas, que tenham alguma relação umas com as outras, para conferir uma certa unidade temática ao conjunto, e publicam-nas em um e, às vezes, em vários volumes.

Os 21 textos que compõem esse livro foram publicados na prestigiosa “New York Review of Books”, o suplemento literário do jornal “The New York Times”. Quem se baseia, apenas, no currículo de Coetzee, sem se dar o trabalho de ler essa obra, pode ter a impressão (falsa) de se tratar de textos complicados, carregados de erudição, de leitura monótona, para não dizer, chata. Não ocorre nada disso. Aliás, pelo contrário.

O autor, valendo-se de sua longa experiência de professor – função que ainda exerce, agora na Universidade de Adelaide – esbanja didatismo e clareza, sem perder sua melhor característica: a capacidade crítica e o talento de arguto observador, que enxerga determinadas nuances (positivas e/ou negativas) nos textos dos escritores cujas obras passam pelo seu crivo. É, portanto, não somente o romancista consagrado, o ganhador de um Nobel de Literatura, mas também um ensaísta de mão cheia.

Nos 21 ensaios que compõem “Mecanismos internos”, Coetzee avalia a obra principalmente de seus precursores e, em especial, dos contemporâneos, o que lhe dá foros de atualidade. Entre estes, destaco suas análises sobre Walter Benjamim, Nadine Gordimer e Robert Musil. O livro conta com a tradução de Sérgio Flaksman. Recomendo-o aos que amam literatura e que se esmeram em conhecer sua importância e alguns dos seus “segredinhos”.

Um dos aspectos a serem destacados, em “Mecanismos internos”, é a análise que Coetzee faz das traduções. Dá tanta importância a essa questão, que lhe dedica um terço dos textos do livro. E ela é importante mesmo. Ademais, o autor tem capacitação plena para opinar, com propriedade, a respeito. Afinal, entre suas tantas habilidades, está a de tradutor, função que exerce com naturalidade por dominar, com absoluta fluência, três idiomas: inglês, alemão e holandês.

A vantagem da sua erudição mostra-se por inteiro na minúcia de suas pesquisas e na coerência de suas análises. Concordo com Gabriel Innocentini que, em sua análise de “Mecanismos internos”, no site da Revista Bula (WWW.revistabula.com), destaca: “Coetzee lê atentamente com o leitor, levantando hipóteses, investigando por que o escritor em questão fez determinadas escolhas. Primeiro, compreender; depois, julgar. Somente depois de entender de que forma tal efeito foi obtido. Coetzee avalia se uma opção diferente não traria melhores resultados”. Esse é um erudito que não se deixa “fossilizar”. E que, sobretudo, esbanja ecletismo.

Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

Memória da ditadura, memória da filha de um bravo - Urariano Mota


Memória da ditadura, memória da filha

de um bravo


* Por Urariano Mota

Em dados objetivos, um jornalista diria que o livro Nasci Subversiva será lançado em dezembro, pela Mundoaflora Edições. A obra foi publicada primeiro em inglês sob o título de “Born Subversive”. E sua autora, Nadejda Marques, é filha única de Jarbas Pereira Marques, um dos militantes assassinados no Recife sob encomenda do Cabo Anselmo.

Jarbas foi um dos 6 executados no mesmo massacre que levou Soledad Barrett em 1973. E mais diria: este livro fala de uma Nadejda mulher, extraordinária na sobrevivência e luta, que se tornou Pesquisadora de Direitos Humanos nas universidades de Stanford e Colorado, nos Estados Unidos.


Mas nós escritores, com a memória do maldito tempo que os militares ameaçam hoje com a sua volta, temos o dever e a graça de falar duas ou três coisas. A primeira delas é que este é um livro de experiência amadurecida, mas que guarda no seu amadurecimento o paradoxo do frescor. Isso porque a recordação de Nadejda fala do que aconteceu ontem como se houvesse acontecido hoje de manhã:

“Conheci meu pai através de algumas fotografias antigas em preto e branco: cinco no total. A primeira era uma pequena foto do tipo das que se usavam para carteira de identidade. Eu vi essa foto em um livro intitulado Dossiê dos mortos e desaparecidos durante o a Ditadura desde 1964 no Brasil. O livro foi escrito por iniciativa da Comissão de Famílias de Mortos e Desaparecidos e o Instituto Estudos da Violência do Estado, IEVE. Das páginas daquele livro meu pai me olhou diretamente nos olhos e eu olhei para ele. Primeiro, busquei algum aspecto físico que eu pudesse reconhecer. A foto não era muito boa. "Eu pareço com ele?", perguntei a mim mesma. Minha avó paterna costumava me dizer que eu e ele tínhamos os mesmos olhos. - Será? Lá estava ele, na minha frente, bidimensional em preto e branco. Sua vida e morte narradas em um curto parágrafo e uma pequena fotografia. Agora que já vivi mais do que meu pai por mais de uma década, não pude evitar o pensamento de que tudo teria sido diferente se ele não tivesse sido morto. Às vezes, fico observando como meu esposo e minha filha brincam seus jogos favoritos. Haveria algum vínculo especial entre as meninas e seus pais? Como seria essa relação? Sinto falta do que não tive”.

A segunda coisa é que Nadejda Marques fala da sua luta e marcas sem desespero. Serena, se assim podemos dizer, quando na verdade é fala calma sobre o que mais sofreu, como se fosse um novo Cristo a caminhar sobre as ondas do mar. Mas como é verdadeira! Num dos trechos mais tocantes, o livro conta para todos nós, de todos os tempos e idades:

“A mentira causa dor, mas também dói. Sei disso porque também sei mentir. Quando criança aprendi a mentir e talvez algumas mentiras tenham salvo minha vida. Aprendi a mentir porque acreditava que estava protegendo os que eu amo... Talvez a mentira que mais tenha me marcado seja o dia em que menti sobre minha mãe. Tinha treze anos e voltava da escola em um ônibus escolar, quando um estranho subiu. O homem sentou-se duas cadeiras de onde eu estava e não falou com nenhuma das crianças. Eu acho que ele nem falou com o motorista. Talvez tenham trocado um cumprimento, ou um gesto com as mãos, com os olhos. O ônibus chegou na minha parada.

O homem olhou para fora do ônibus, se aproximou de mim, apontou para minha mãe em pé em frente ao nosso prédio e puxando conversa perguntou:
- Aquela é a sua mãe?

Lá, estava ela, em pé, me esperando. Sempre linda. Carrego essa imagem comigo. Ela nem sempre me esperava no ponto do ônibus, mas nesse dia lá estava ela. Com um lenço na cabeça, uma moda de quando ela era mais jovem, penso eu, ou talvez de quando estávamos em Cuba. Mas, entrei em pânico, porque naquele momento eu achava que era uma coisa que chamava a atenção. Meu irmão e minha irmã talvez estivessem na escola ainda. Minha mãe me esperava, e provavelmente almoçaríamos juntas. Eu balancei a cabeça e franzi um pouco a boca. Calmamente eu respondi:
- Não senhor. Não é. Não conheço essa mulher”.

Mas este apresentador não é parte estranha à história de Nadejda Marques. Eu conheci e conversei com Jarbas Pereira Marques, pai de Nadejda, em um momento inapagável do Recife em 1972. Tanto, que escrevi sobre esse encontro em “Soledad no Recife” e no mais recente romance “A mais longa duração da juventude”. Nele, Tercinha, mãe de Nadejda, se torna Nelinha. A própria Nadejda se faz Krupskaia. E o personagem Vargas, cujo modelo é Jarbas, ocupa um lugar marcante de heroísmo angustiado e do maior amor e dignidade, em suas horas finais: 
- Sente aqui, bem junto – e descem sobre o sofá da sala.

Vargas põe o rosto de Nelinha entre as mãos: 
- Me prometa. Aconteça o que acontecer, você continuará a sua vida. Entende? Dê à nossa filha a tranquilidade que eu não tive. Saiba, amor: estes dias passarão. Repita: estes dias passarão. Repita comigo: estes dias passarão.

Nelinha repete como em uma prece:
- Estes dias passarão.
- Você merece toda a felicidade do mundo – Vargas fala. – Você é digna do amor maior que não pude dar.
- Por quê? Fale, Vargas.
- Eu só quero que você saiba. Eu sou um homem. Eu te amo com todas as minhas forças. Só isso. Eu sou um homem. Eu sou apenas menor que o meu coração.
- O que houve?!
- Nada não. Eu estou com febre. Deve ser isso.
- A polícia te procura?
- Acho que não. Mas se me acontecer alguma coisa, pegue Krupskaia e desapareça, entende? Se eu não voltar amanhã, avise à minha mãe. Diga que estou com o pensamento nela. Que no futuro estaremos juntos, eu, você e Krupskaia, entende? – Vargas se ajoelha: - Eu prometo que tu não serás machucada. Eu me entrego somente a meu amor. Eu me entrego a você”.

Neste livro, pude contar: a palavra pai aparece 146 vezes. Mãe, 132. Tortura, 42. Ditadura, 63. Brasil, 309 vezes. Na verdade, o Brasil, a tortura, pai e mãe estão em todas as paginas como uma teia inescapável, clara ou implícita. Como uma razão de ser e de viver:

“Talvez eu tenha resolvido escrever este livro porque quando moramos no Rio, minha mãe, nervosa e ainda tremendo, mas em voz clara me contou que viu o homem que a traiu e matou meu pai e seus companheiros: o Cabo. Ele torturou e matou o meu pai e seus companheiros e estava caminhando calmamente no calçadão de Copacabana em pleno Rio de Janeiro! Ele vive entre nós. Vez ou outra ele concorda em dar entrevistas e posar para a mídia local. Ele mente. Ás vezes ele tenta posar como celebridade ou como um herói da ditadura. Às vezes se faz de vítima. Bem sabe ele que sempre que aparece é como uma ameaça velada tripudiando dos que caíram.
- Era ele. Eu o reconheci e ele caminhava normalmente como se nada tivesse acontecido”.

Hoje, no bairro recifense da Macaxeira, tem uma rua de nome Jarbas Pereira Marques. A Macaxeira é um bairro operário, da famosa fábrica de tecidos de Pernambuco. Faz sentido. No Recife das lutas libertárias, no meu romance e neste livro da filha Nadejda, Jarbas Pereira Marques continua vivo. Ele é memória indispensável deste tempo do Brasil de novos enfrentamentos. Presente, Nadejda Marques, presente, Jarbas Pereira, presente, Tercinha.


* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros
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Íntimos e estranhos - Eduardo Oliveira Freire


Íntimos e estranhos


* Por Eduardo Oliveira freire


"Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem”. - Millor Fernandes. 


Coisa estranha isso, né? Não conhecer as pessoas. Pior que, às vezes, nem eu sei quem sou. Como já ouvi dizer, todos nós somos atores e escolhemos o melhor de nós para mostrar.

Eu não tenho nada de excepcional. Saí da casa dos meus pais com quarenta anos. Fui motivo de piada por ter saído tarde. Porém, morar com eles era tão cômodo...

Perguntaram-me uma vez o que me levou a sair da casa deles. Embromava, porque não queria pensar muito nisso. Era um assunto estranho e desejava empurrar para as profundezas de mim.

Tudo começou com uma lembrança antiga, de quando tinha uns três anos. Estava com meus pais numa praia deserta. Minha mãe me distraía, enquanto meu pai carregava algo pesado. Recordo-me que, mesmo brincando com minha mãe, eu sentia um desconforto. Para onde o papai ia com aquele peso e por que pegou uma pá depois? Minha mãe ria nervosa para mim e me chamava atenção para o castelo de areia que fazia. Eu estava feliz, entretanto, algo não fazia sentido.

A maré subiu e o castelo se desmanchou. Chorei, meu pai me pegou no colo e fomos embora. O silêncio entre eles era sufocante. Depois, os dias correram e me entretive com outras coisas. Até então, tive uma vida muito boa, mas algo aconteceu dali pra diante.

Ao chegar a minha casa, meus pais estavam absortos pela televisão.

Olhei e exibia uma reportagem sobre um corpo encontrado numa praia havia muitos anos. Eles perceberam minha presença e me olharam friamente. Fui dormir e, intuitivamente, tranquei a porta do quarto. Semanas depois, já morava em outro lugar.

Meus pais resolveram fazer uma viagem e disseram que ficariam fora por muito tempo. Não sei onde estão. A única conclusão a que chego é que nunca conheci meus pais, realmente. Só me mostravam o que lhes convinha”.


* Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense. Pós-Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é aspirante a escritor.





O Português - Agustina Bessa Luís


O Português


* Por Agustina Bessa-Luís


O português prefere ser um rico desconhecido, a ser um herói pobre. É melhor do que parece. O homem português é dissimulado, e fez da inveja um discurso do bom senso e dos direitos humanos.

Mas é também um homem de paixões moderadas pela sensibilidade, o que faz dele um grande civilizado. 


Gosta das mulheres, o que explica o estado de dependência em que as pretende manter. A dependência é uma motivação erótica.

É inovador mas tem pouco caráter, como é próprio dos superiormente inteligentes, tanto cientistas, como filósofos e criadores em geral.

Mente muito, e a verdade que se arroga é uma culpa inibida. Vemos que ele se mantém num estado primitivo quando defende a sua área de partido, de seita e de família, à custa de corrupções e de crimes, se for preciso. 


Gosta do poder mas não da notoriedade. Não tem o sentido da eternidade, mas sim o prazer da liberdade imediata. Não é democrata; exceto se isso intimidar os seus adversários.

Não tem gênio, tem habilidade.

É imaginativo mas não pensador.

É culto mas não experiente.

Não gosta da lei, porque ela desvaloriza a sua própria iniciativa. É místico com a fábula e viril com a desgraça. 


Admira mais a Deus do que tem fé Nele.


(In 'Caderno de Significados')


* Nome literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa é uma escritora portuguesa..

Jornalistas - Celso Marconi Lins


Jornalistas


* Por Celso Marconi Lins

A vida do jornalista é muito curta
Quase o mesmo tempo do jogador de futebol
Lhe dando um lugar de encostado
Quando já dispensam as suas ideias
Até o dia em que publica notícias
É o grande elogiado e então depois
Vai sozinho para casa e
A vida não lhe traz agruras 
Se ele trabalhava também como professor
Ou um funcionário público
É triste a aposentadoria de um só jornalista
E mesmo quando está na ativa
Tem colegas que perguntam: 
Jornalista ou ladrão?
Talvez na verdade essas sejam apreensões
De quase todo o proletariado
Se é que ainda existam proletários
Jornal é para existir durante um dia
Hoje nem existe nem mesmo o dia todo
Pois o papel não mais existe para isso
Nem mesmo para enrolar o cocô do gato
Vivemos numa outra dimensão
E nem sentimos mais o que é uma quimera
Vida longa para o jornalista
Que eu não sou mais.


* Jornalista e escritor.

A idade - Carlos Nejar


A idade


* Por Carlos Nejar


Falou e disse um pássaro
dois sóis, uma pequena estrela.
Falou para que calássemos
e disse amor, penúria,brevidade.
E disse disse disse
a idade da eternidade.


(Do livro “O chapéu das estações”. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1978).


* Poeta.