Um Davi e centenas de Golias
* Por
Fernando Yanmar Narciso
Jamais pensei que eu,
que desde que me tenho por gente não dava a mínima pra futebol, teria uma
conexão tão grande com a última Copa do Mundo. A copa no Brasil, que o mundo
acreditava que acabaria sendo um desastre, terminou por calar a boca dos
céticos, anarquistas de plantão e profetas do apocalipse. Na opinião da
imprensa internacional, se não foi a melhor copa feita até então, certamente
figura no Top 5.
A festa foi
maravilhosa, os turistas gringos caíram de amores pelo povo brasileiro, pelo
samba e por nossa alegria contagiante, um futebol algumas vezes vistoso e
vários jogos inesquecíveis... Em particular, “O” jogo. O maior da história, pro
bem ou pro mal. A Mãe de Todas as Copas só poderia presentear aos torcedores
com A Mãe de Todas as Derrotas...
A seleção brasileira,
além de colecionar as vitórias mais emblemáticas dos mundiais, também tem o dom
de colecionar suas maiores, mais trágicas e dramáticas barrigadas. O Maracanazo
em 1950, a Batalha de Berna contra a Hungria em 1954, a queda logo na 1ª fase
em 1966, a inesquecível Tragédia de Sarriá em 1982, Ronaldo Fenômeno
“zumbificado” na final de 1998...
E agora, a histórica e,
até então, inédita boiada de 7 X 1, levada aqui mesmo, no Mineirão, contra a
Alemanha. O Mineiraço. Aquela miragem coletiva compartilhada ao redor do globo,
de uma seleção brasileira mítica e imbatível, vinda direto do Monte Olimpo,
entrando em campo em câmera lenta ao som de Interstellar Overdrive do Pink
Floyd morreu com o quarto gol alemão.
Quis o irônico destino
que o pênalti mais famoso das copas fosse um que não entrou na rede e que o
jogo mais importante do Brasil fosse uma derrota monstruosa em solo pátrio...
Olhando em retrospecto, era algo que um dia precisava acontecer. É natural que
o brasileiro olhe somente para as nossas conquistas e esqueça as inúmeras
derrotas que sofremos. As estatísticas colocam o dito “país do futebol” mais
como um grupo mediano na maior parte de sua história, com uma ou outra geração
que se destaca das demais, do que como um Tarkus, um bicho-papão insaciável.
As vitórias nos
enaltecem e nos cegam, enquanto as derrotas nos deviam dar uma oportunidade de
reflexão, autocrítica e aprimoramento. Mas quem é que pára pra pensar nisso? A
CBF com certeza não! Com o pedido de demissão de Felipão e a dispensa de toda
sua comissão técnica, a fase de “renovação” da seleção brasileira começou com o
retorno de Dunga, treinador da copa de 2010, mestre da retranca dentro e fora
de campo, ao comando da seleção amarelinha (ou será amarelona?).
Alguns o receberam de
braços abertos, vários outros com quatro pedras nas mãos, mas é fato que quase
ninguém vê o técnico como a brisa de ar fresco que o futebol nacional tanto precisa.
Mas nunca se sabe, né? Pelo menos Dungão se livrou da obrigação de capitanear a
seleção nas olimpíadas de 2016 aqui no Rio de Janeiro, onde seu provável
fracasso poderia abreviar sua permanência no cargo.
Digam o que quiser da
seleção que chegou em 4º lugar no torneio, menos que o torcedor não se sentiu
parte da Família Scolari, como na época do pentacampeonato. As nações adotaram
aquele bando disfuncional de moleques mimados e emotivos como se fossem os
Beatles. Confessa. Qual torcedor não sentia vontade de dar um tapinha nas
costas do David Luiz quando ele chorou até botar ranho pelo nariz no jogo
contra a Alemanha? “Relax, cara. Pelo menos tu tentou, né?” Os caras queriam
muito levar o caneco, só não sabiam como, e morreram na praia abraçados ao treinador.
Ao contrário da maioria
das seleções, a nossa é a única pela qual praticamente todos os países torcem.
Quando a Argentina perde uma copa, os argentinos sofrem. Quando o Brasil perde
uma copa, o sistema solar inteiro sofre! Podem ter certeza de uma coisa, caros
leitores. Depois de tomar aquele chocolate histórico, a torcida do mundo pela
seleção brasileira aumentou ainda mais. Só os argentinos riram da nossa cara,
mesmo tendo perdido três gols feitos contra nossos carrascos teutônicos na
final...
O mundo está do nosso
lado, isso é garantido! Como bons amantes de novela, agora até grandes rivais
nossos estão ansiosos por ver como nossos heróicos Canarinhos farão para
ressurgir das cinzas para a Copa na Rússia em 2018. Quantas vezes já não o
fizemos? Como dizia Brizola, tal qual ervas daninhas, o fogo se apaga e a gente
fica mais forte!
P.S.: Alguém ainda se
lembra de quem venceu a copa esse ano? Pois é, o “Efeito Sarriá” fez mais uma
vítima!
*
Escritor e designer gráfico. Contatos:
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cyberyanmar@gmail.com
Ainda que novo no tratamento do tema, fez uma boa análise.
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