A igreja do rei do Congo
* Por
Leonardo Dantas Silva
Na Rua Larga do Rosário,
no bairro de Santo Antônio, entre as ruas de intenso comércio, vamos encontrar
a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Recife (séc. XVII),
onde eram coroados os reis do Congo e de Angola, no período compreendido entre
1674 e 1888.
Da diversidade de
tribos e nações africanas, formadoras da grande comunidade de raça negra no
Brasil Colônia, sobressaíam-se os pretos do Congo que, escravos ou não, tinham
no seu rei uma espécie de ascendência sobre os demais grupos, chamando-o pelo
título: Muchino Riá Congo.
Segundo Pereira da
Costa, “cada cabeça de comarca ou distrito paroquial tinha o seu rei e rainha,
com o competente cortejo de uma corte particular, e procedida à eleição, tinha
o ato solene da coroação e posse no dia da festa de Nossa Senhora do Rosário,
impondo à coroa o pároco da freguesia”.
Informa José Antônio
Gonsalves de Mello:
Essas autoridades
negras, que reinavam sobre as respectivas etnias (ou, pelo menos, sobre as mais
numerosas em Pernambuco), tinham participação importante na administração da
Capitania e, depois, da Província. É que debaixo da ‘autoridade’ desses reis
estendia-se toda uma hierarquia paramilitar de governadores, coronéis,
capitães, tenentes, etc. que enquadrava a população negra a ela subordinada. Há referências a que esses postos se chegavam
por eleição dos que compunham as várias profissões dos escravos. O governador
da capitania de Pernambuco baixava patente de confirmação desses postos. De uma dessas profissões dos escravos,
conservou-se no arquivo da Irmandade do Rosário de Santo Antônio um livro de
registro de missas ‘Ofício dos Capineiros da Praça da Polé, Cinco Pontas, Rua
da Praia, Quatro Cantos, Boa Vista e Cidade de Olinda’, com termo de abertura
datado de 1802, mas de fato contendo registro desde 1757 até 1829.
Das nações dos negros,
era do Congo a que mais se destacava dentro das irmandades de Nossa Senhora do
Rosário dos Homens Pretos e de São Benedito. Tal função não era tão-somente
cerimonial, como deixa entender a descrição de alguns viajantes, mas um encargo
administrativo, do interesse do Governador da Capitania e do bem público, com o
objetivo de “inspecionar e manter a ordem e subordinação entre os pretos que
lhe forem sujeitos“, conforme se depreende da leitura do Diario de Pernambuco,
20 de setembro de 1848:
Publicação a Pedido – O
Dr. Antônio Henrique de Miranda, juiz de direito e chefe de polícia nesta
cidade do Recife de Pernambuco, por S. M. I. e C. o senhor D. Pedro II, que
Deus guarde, etc. Faço saber que,
tendo-me requerido o preto liberto Antônio de Oliveira a confirmação da
nomeação que tivera para Rei de Congo dos pretos desta cidade, e havendo
provado com o termo da dita nomeação ser verdade o expedido em sua petição;
depois de haver obtido as informações necessárias a respeito de sua conduta,
hei por bem confirmar a indicada nomeação, segundo o antigo costume desta
cidade, ficando o referido rei de Congo
obrigado a inspecionar e manter a ordem e subordinação entre os pretos que lhe
forem sujeitos, pelo que lhe mandei passar o presente título, para poder
exercer o lugar para que foi nomeado.
Dada e passada nesta secretaria de polícia de Pernambuco aos 14 dias do
mês de setembro de 1848. Eu Aprígio José
da Silva, 1º amanuense da secretaria de polícia, o escrevi. Antônio Henrique de Miranda.
Tais coroações de reis
negros remontam, segundo Pereira da Costa, ao ano de 1666, segundo trecho das
Memórias de Urbain Souchou de Rennefort (Paris 1688), ao descrever uma festa
acontecida em 10 de setembro daquele ano em Pernambuco:
Apesar do duro
cativeiro em que vivem os negros não deixam de se divertirem algumas
vezes. No domingo 10 de setembro de
1666, teve lugar a sua festa em Pernambuco. Depois de terem ido à missa, em
número de cerca de quatrocentos homens e cem mulheres, elegeram um rei e uma
rainha; marcharam pelas ruas cantando e recitando versos por eles improvisados,
precedidos de atabaques, trombetas e pandeiros.
Vestiam as roupas de seus senhores e senhoras, trazendo correntes de
ouro e brincos de ouro e pérolas; alguns estavam mascarados. Os gastos da cerimônia lhes custaram cem
escudos. Durante toda a semana, o rei e
os seus oficiais não fizeram outra coisa senão passearem gravemente pelas ruas,
de espada e punhal ao cinto.
Tinha a instituição dos
Reis do Congo verdadeira hierarquia, desde vice-rei, duques, governadores,
mestres-de-campo, coronéis, tenentes-coronéis, capitão-mandante, provedor,
juiz-de-fora, conselheiro-mor.
Pelo noticiário do
Diario de Pernambuco se constata que os Reis do Congo eram vitalícios no seu posto,
segundo se depreende do termo de posse de D. Antônio Oliveira, confirmado pelo
Juiz de Direito e Chefe de Polícia da cidade do Recife em 14 de setembro de
1848. Anos mais tarde, quando do seu sepultamento, registrado edição de 24 de
julho de 1872, veio ele ser sucedido no posto por Joaquim Tomás de Aquino
Fonseca, então ocupante das funções de Duque do Congo:
Eu Joaquim Tomás de
Aquino, governador-geral da nação de africano, dado por sua majestade real, o
Sr. D. Antônio de Oliveira Guimarães, já falecido, faço saber, a todos os meus
subalternos, que não poderão botar salva na rua para tirar esmolas para a festa
de Nossa Senhora do Rosário do bairro de Santo Antônio, sob pena de pagarem 30$
de multa, conforme marcam os artigos 4º e 6º da nossa matrícula. Faço este por causa da desfeita que se fez ao
falecido nosso rei e juiz perpétuo de N.S. do Rosário, dado por Sua Majestade
imperial o Sr. D. Pedro II, a quem Deus guarde; e espero ser atendido dos meus
subalternos sobre esta desfeita, o que afirmo com alguns circunstantes da mesma
nação, pois a dita irmandade nem ao menos lhe fizera as honras devidas que
merecia em vista ao cargo que ocupava na dita irmandade de N.S. do Rosário; não
se faz isto com um estranho, quanto mais com um juiz perpétuo, só os mesários
do Rosário. Está conforme, o secretário, Antônio da Silva Braga. (Diario de
Pernambuco, 9.8.1872).
Trata-se este templo de
um dos mais belos exemplares do barroco brasileiro, sendo de grande interesse a
imagem da padroeira, as talhas de seus altares e o painel do seu forro, o
mobiliário de sua sacristia e o seu frontispício onde predominam esculturas
talhadas em pedra dos nossos arrecifes.
Sobre a imagem em
tamanho natural da padroeira, Clarival do Prado Valadares diz ser esta
esculpida em “madeira policromada, olhos de vidro e alfaias de prata. Em nosso
testemunho é um dos mais belos exemplos da escultura luso-brasileira dedicada a
este orago”.
Além da imagem de Nossa
Senhora do Rosário, merece destaque o painel do primitivo forro da capela-mor
(séc. XVIII), no qual aparece a Virgem entregando o rosário a São Domingos,
inspirador da Ordem, ladeada por querubins mulatos.
Com exceção de Nossa
Senhora do Rosário, da Boa Hora e de S. Domingos, todas as demais imagens nos
altares da igreja são de santos negros, como o rei Baltazar, Elesbão, Benedito,
Antônio de Catalagirona, Efigênia e Moisés; algumas dessas imagens encontram-se
hoje depositadas na sede da Regional do IPHAN em Pernambuco.
A presença de reis e
rainhas de Angola, com as suas respectivas coroações e festas, nesta igreja
data da segunda metade do século XVII, figurando nos livros da irmandade a
partir de 1674 e assim se prolongam por todo o século XIX, com a presença dos
reis do Congo e de Cambinda, até os últimos dias da escravidão (1888). As coroações
e cortejos desses reis negros vieram dar origem ao nosso maracatu, ainda hoje
presente nas ruas do Recife no período do Carnaval.
No final do século XIX
é comum a descrição desses folguedos e sua ligação com a Igreja de Nossa
Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Bairro de Santo Antônio, como noticia o
Diario de Pernambuco em sua edição de 10 de fevereiro de 1872, ainda sem a
denominação de maracatus:
No dia 11 do corrente
sairá da Rua de Santa Rita Velha [bairro de São José] a nação velha de
Cambinda, a qual vai em direitura à Rua das Calçadas buscar a sua rainha, e
depois percorrerá diversas ruas, e às 3 horas se achará em frente à Igreja do
Rosário [de Santo Antônio] onde se soltarão algumas girândolas de fogo e uma
salva de 21 tiros; dali seguirá para o Recife e na Rua do Bom Jesus voltará com
a vice-rainha de sua nação.
O conjunto encontra-se
inscrito como Monumento Nacional no livro das Belas Artes v. 1, sob o n.º 481,
em 8 de julho de 1965 (Processo n.º 759-T/65).
*
Historiador, jornalista e escritor do Recife/PE
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