O galanteador
* Por
Aleilton Fonseca
A mulher ia tranquila
pela calçada, em direção a sua residência, quando percebeu que, da janela de um
automóvel, vinha o aceno de um desconhecido. Primeiro olhou discretamente, sem
intenção de atender. O homem foi encostando o veículo, e insistiu no aceno, com
um sorriso simpático. Ela hesitou em atender. Mas pensou: ora, ele deve estar
querendo uma informação. Aproximou-se do motorista e, antes que dissesse algo,
ouviu a abordagem inusitada:
– Oi, amor! Para onde
vai? Quer ir comigo, minha linda?
Ela estacou, surpresa
por um instante. Imediatamente se refez do susto, e riu divertida, achando a
cena mais que engraçada, totalmente bizarra. O homem aguardava a resposta, com
uma vaga esperança nos olhos semi-cerrados diante da intensa claridade do dia.
– Não, senhor; muito
obrigada. Eu moro aqui perto.
– Que tal um chope?
Vamos bater um papo.
– Não, agradeço pela
gentileza.
Aproximando-se, a
mulher olhou mais detidamente para o homem. Moreno, ligeiramente calvo,
aparentava uns 45 anos. A marca nítida da aliança denunciava que ele a tirara
do dedo, a fim de buscar um affair passageiro. Parecia um marido típico,
afundado na rotina de um casamento saturado.
– Eu preciso bater um
papo com você, amor! – ele insistiu.
– Ah, eu gostaria
mesmo de falar com o senhor – disse a mulher, assumindo uma postura mais ativa.
O homem se animou.
Então ela estava a fim de papo! Se conseguisse ganhá-la por um instante, seria
a glória do dia. A mulher, com um olhar agora incisivo, continuou o diálogo:
– Em primeiro lugar,
esse cigarro está lhe fazendo mal.
Ele, no susto,
imediatamente esfregou o cigarro no cinzeiro do carro e atirou o toco longe,
para demonstrar claramente a sua renúncia.
– Só fumo de vez em
quando – explicou, na defensiva.
– Não devia fumar
nunca. Isso mata a pessoa aos pouquinhos.
O homem, com o olhar
intimidado, prestava atenção à conversa, entre curioso e espantado. A mulher
prosseguiu a inspeção:
– Precisa ir à
academia cuidar desses pneuzinhos aí...
– Ah, eu vou... semana
que vem eu volto a malhar.
– E essa barriguinha
de chope? Vai deixar de beber ou não vai?
– Sim, parei a partir
de agora – prometeu, cruzando dois dedos sobre os lábios.
– Está acima do peso.
Deixe o carro em casa e vá caminhar.
– Sim, sim: meu médico
sempre me cobra isso – informou, assombrado.
– Por falar nisso, há
quanto tempo não faz seus exames?
– Pois é... –
murmurou, já encolhido, agarrando-se ao volante.
– E tem um exame que
precisa fazer logo.
– E qual é? –
perguntou, curioso e humilde.
– Está apertando muito
os olhos... Faça um exame de vista urgente.
– É, tem razão –
concordou, visivelmente vexado.
– E sua mulher? Cuide
mais dela, leve-a para passear, viajem juntos.
– Pode deixar, pode
deixar... – disse ele, já acionando o motor do carro.
– Se cuide, hein!
– A senhora por acaso
é médica? – indagou, num tom respeitoso.
– Sou advogada,
casada, e tenho 48 anos.
– Nossa! Eu lhe dava
uns 30... – espantou-se, encabulado.
– Obrigada! É que eu
não bebo, não fumo, como pouco, faço caminhada, durmo bem, pratico esporte,
viajo muito... e sou fiel.
– Ah, bom... eu já vou
indo... – ele engatou a marcha, queria fugir dali e enfiar a cabeça no chão.
A mulher sorriu;
estava satisfeita com o resultado de seu contra-ataque. Percebeu que o homem,
sem graça e desfeito, talvez pensasse consigo mesmo: “Bem que eu podia dormir
sem essa”. Literalmente. Ele acionou o acelerador e já ia se afastando, quando
a mulher fez a última recomendação:
–Tem um exame que deve
fazer amanhã mesmo!
– E... qual é? – gemeu
ele, quase em sofrimento psicológico.
A mulher sorriu
divertida e arrematou o colóquio, enquanto o galanteador esperava o sinal abrir
para sumir dali correndo:
– Seu primeiro exame
de próstata!
*
Aleilton Fonseca é escritor, Doutor em Letras (USP), professor titular pleno da
Universidade Estadual de Feira de Santana, membro da Academia de Letras da
Bahia, da UBE-SP e do PEN Clube do Brasil.
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