Evolução vagarosa e parcial
“Os homens são animais muito estranhos: uma mistura do
nervosismo de um cavalo, da teimosia de uma mula e da malícia de um camelo”. O
autor dessa contundente e nada lisonjeira constatação foi o escritor Aldous
Huxley, em um de seus tantos livros (não me lembro qual). É verdade que se
trata de uma generalização. Ele não apontou quantas pessoas são assim e nem se
agem dessa maneira o tempo todo. Sequer poderia particularizar, em um universo
de mais de 7 bilhões de indivíduos que habitam o Planeta, nos mais variados
graus culturais, econômicos, sociais, anímicos etc. Não é preciso ser nenhum
gênio para saber que o desenvolvimento mental, intelectual etc. do homem (ou
dos homens) não é uniforme.
Há pessoas que estão além do nosso tempo, por sua mentalidade
evoluída e por seu preparo intelectual, enquanto, em contrapartida, há, também,
comunidades inteiras que estão, ainda, na idade da pedra lascada em termos de
costumes e de formas de encarar a vida e, sobretudo, de viver. Creiam-me, não
exagero. Não faz muito, por exemplo, questão de poucas décadas, foi descoberta
uma tribo de aborígenes, em uma área remota da Austrália, que vivia como nossos
remotíssimos ancestrais dos tempos das cavernas. Eu não ficaria nada surpreso
se, em pleno século XXI, quando as comunicações e os transportes “encolheram” o
Planeta, transformando-o em uma aldeia global, fossem encontradas outras
comunidades com idêntico grau de atraso.
Aliás, nem é preciso tanto. Volta e meia topamos, aqui e
ali, na cidade em que vivemos, com pessoas com tamanho grau de atraso mental e
espiritual que causariam pena até aos nossos remotíssimos e supostamente
atrasados ancestrais cavernícolas. Claro que a culpa não é totalmente delas.
Tem muito a ver com o ambiente em que vivem, com as oportunidades que recebem
(no caso, que deixam de receber) de educação e de informação, enfim, com tantas
e tão variadas circunstâncias que as impedem de progredir. Não só não
progridem, como muitas vezes regridem em relação aos seus pais, avós e bisavós.
A evolução da nossa espécie não é rápida, uniforme, contínua
e nem generalizada. Caracteriza-se por avanços e retrocessos, através das
gerações. Ademais, não envolve todas as pessoas. Umas evoluem, enquanto outras
estagnam, quando não retrocedem. E não me refiro apenas à questão material, às
descobertas e invenções que facilitam demais nossa vida cotidiana. Penso, no
caso, no comportamento e na mentalidade que o determina. A humanidade evoluiu,
do ponto de vista tecnológico, de forma miraculosa, em especial nos últimos
dois séculos, impulsionada por esta “mola” irresistível chamada de “necessidade”.
Essa evolução, todavia, não foi e não é acompanhada (não pelo menos no mesmo
ritmo) por um progresso espiritual equivalente, consistente, contínuo e
generalizado.
Huxley generalizou sua pitoresca comparação pela
impossibilidade de particularizá-la. Por isso, também se incluiu nela. Cá para
nós, paciente leitor, você já não agiu, não digo o tempo todo, mas em
determinadas circunstâncias, “com o nervosismo de um cavalo, com a teimosia de
uma mula e com a malícia de um camelo”? Eu já agi dessa maneira, e em várias
ocasiões. Não dominei, por exemplo, a ansiedade, face tarefas de grande
responsabilidade e nem exercitei a paciência com determinadas pessoas quando
até poderia (embora não saiba se deveria) fazê-lo. Ou seja, fui nervoso, como
um cavalo.
Quanto à teimosia... Deus do céu, esta é quase um distintivo
meu! É verdade que, para agradar meu ego, denomino-a com o pomposo nome de “persistência”,
o que lhe confere alguma nobreza. Mas houve momentos em que não deveria teimar
e que teimei. É o comuníssimo comportamento de “não dar o braço a torcer”, como
diz o povão, teimando, teimando e teimando em sustentar idéias e teses insustentáveis.
Minha teimosia deixaria qualquer mula no chinelo. Mas... deixa pra lá.
Já a malicia... é caracterizada por uma certa “esperteza”: a
de querer levar vantagem em tudo. É comportamento
para lá de comum a nós, brasileiros, convenhamos (posto que não exclusividade
nossa, óbvio). Ressalte-se que Huxley não se referiu, aqui, a uma intenção
deliberada de causar males, de prejudicar os outros, que é o significado
principal dessa palavra. Quando falou em “malícia” estava pensando naquilo que
há algum tempo era conhecido entre nós como a “lei de Gerson” (expressão que há
já bom tempo desapareceu do nosso vocabulário).
Nos tempos em que a propaganda de cigarros ainda era
permitida, se não me falha a memória nos anos 70 do século passado, o craque da
Seleção foi contratado por determinada agência de publicidade para gravar um
comercial de certa marca, cujo mote era exatamente este: o de “levar vantagem
em tudo”. Claro que os incautos fumantes que se deixaram levar pela mensagem do
anúncio não obtiveram vantagem alguma, em absolutamente nada. Pelo contrário...
só tiveram desvantagens, tanto para sua saúde quanto para seu bolso, gastando
dinheiro desnecessariamente em um
produto que só lhes trouxe toda a sorte de prejuízos. É este tipo de malícia
que supera a do camelo que, à menor distração de quem o monta, morde-lhe, sem a
menor cerimônia, os joelhos.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Gostei de ver a mudança de nomes transformando um defeito em virtude, teimosia em persistência.
ResponderExcluir