Entre aspas: retrato falhado
* Por
Ruleandson do Carmo
Procura-se vivo ou
sentindo minha falta, alguém que muito amei. Alguém que se foi e eu nunca
aceitei. Procura-se o fim. Procura-se e recompensa-se porque é dele – do fim –
a culpa de cada letra de música, roteiro de filme, texto de teatro, script de
novela, tema literário e do peso da saudade que eu carrego.
O fim. O fim de semana
para suportar a semana inteira no trabalho. O fim do semestre para suportar
cada dia de aula. O fim da refeição para vir a sobremesa, para tolerar cada
coisa que a gente não gosta, mas engole para ser saudável. O fim do ano para a
garantida ilusão do fim do que não está bom e de mais uma dose do que está bem.
E com o amor? O fim do
amor para vir a saudade? O fim da saudade para vir o amor? Ou o fim da dor para
ir a saudade e chegar outro amor? Enquanto tento responder eu penso que não é o
fim que dói é a impossibilidade de voltar ao começo, de revisitar o meio, de
poder reviver só por um dia aquilo que era vida e hoje se reduziu a lembrança.
Lembrança é bom quando
traz esperança, não saudade, pode anotar isso aí. Aproveita e anota também como
era quem amei, desenha cada traço dele, faz um retrato falado e escreve que há
recompensa. Eu recompenso fazendo feliz, sendo feliz, será que basta? Pode ser
que não.
Não, não venha me
dizer que já é hora de esquecer, não tem relógio para o que a gente sente e eu
nunca fui pontual. Desenhe aí o rosto da pessoa mais linda do mundo e escreva
“te procura alguém que te amou sem motivo”. Sem motivo, e quando é sem motivo a
gente fica sem razão para deixar de gostar. O melhor motivo para amar alguém é
simplesmente não saber o motivo ou não ter motivos para não amar.
Poderia te explicar
cada pedaço dele, cada detalhe do rosto, cada traço da boca, dos olhos, mas a
verdade é que eu não sei mais como ele está. Pode ser que a pessoa que eu
conheci e procuro seja completamente diferente da pessoa que hoje existe. Não
vai dar certo pendurar um retrato falhado, procurando alguém que amei e não sei
como achar, dando ilusão à saudade ao invés de pôr nela um fim.
Faça, então, o
seguinte, desenhe a mim, me reproduza nesta folha com exatidão. Vou colocar
junto uma foto minha antiga para ele se lembrar de mim e, se ainda me amar, ter
como me procurar e me encontrar. Vai ver é isso, ele já me procurou, já me
encontrou, mas não sabia que era eu, faz tanto tempo…
Faça esse desenho e
disfarce em seu rabisco qualquer tristeza que eu carregue, senão quando ele me
ver não vai me reconhecer, eu vou ficar tão feliz quando ele voltar que se me
pôr como estou agora na figura, vai pensar que não sou eu.
Promete que procura
por mim e entrega a ele o meu retrato para se ele, um dia, resolver me
procurar. Melhor assim, sem forçar, deixando livre. É que talvez, no fundo, eu
nunca deixe de esperar, mas aceite ele não vir. E se não me procurar que venha
logo o fim, o fim, sem fingir. Pois nem sempre que termina acaba, compreende?
Mas venha o fim se
quem amei não vier. A vida ensina que quando o amor termina é só para vir algo
maior. Tudo tem fim, até o fim, por isso, assim, com o fim do fim a gente pode
recomeçar e dar um jeito de tratar de ser feliz. Procura-se.
*
Jornalista
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