quarta-feira, 29 de abril de 2015

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 9 anos, um mês e um dia de existência..

Leia nesta edição:

Editorial – O romantismo não morreu.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica “Não espere quase ir desta para uma melhor paras mudar”.

Coluna No sopro do Minuano – Rodrigo Ramazzini, conto “O telefonema”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Teia”.

Coluna Porta Aberta – Carmo Vasconcelos, poema, “A gramática do amor”.

Coluna Porta Aberta – Alberto Cohen, poema, “Assédio”.

@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com 
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso” Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



  
O romantismo não morreu.


O romantismo está se acabando”. Esta é uma afirmação recorrente, que ouço, amiúde, de pessoas em geral de mais idade, descontentes com os relacionamentos interpessoais nestes tempos duros, caracterizados pelo individualismo levado às últimas consequências, pelo feroz egoísmo e pelo consumismo exacerbado, em detrimento da gentileza e da cortesia. Todavia, discordo de quem pensa assim. Por que? Basicamente, por tratar-se de generalização. E como todas as generalizações... esta, também, é “burra”, como diria o jornalista e escritor Nelson Rodrigues, com aquele seu jeito irreverente de dizer as grandes verdades, caso estivesse vivo.

Nem todos agem de forma fria e distante, muitas vezes agressiva, não raro descambando para o que chamamos, popularmente, de “falta de educação”, em seus relacionamentos. Diria que as manifestações de romantismo estão é se transformando. E que essa transformação ainda não é, sequer, generalizada. Tenhamos em mente que convivem (e nem sempre harmoniosamente), ao mesmo tempo e no mesmo espaço (refiro-me ao mesmo mundo), várias gerações diferentes. Cada uma delas cultiva seus costumes, comportamentos, hábitos e tradições (neste caso, os mais velhos), conforme foi educada.

É impossível, portanto, dizer, sem risco de errar, que esse modo de agir é excelente, e aquele péssimo; que este é o certo e aquele o errado. A menos que se trate de algo notoriamente nocivo, claro, e que, por isso, tenha repúdio generalizado e consensual. Cada qual sabe (ou deveria saber) o que melhor lhe convém. Entendo que o romantismo não morreu e nem está próximo da “morte”. Em vez disso, transformou-se e segue se transformando.

As manifestações de amor mudaram. O namoro, hoje, por exemplo, é muito diferente do tempo dos nossos avós e de nossos pais (e mesmo do nosso tempo, caso tenhamos algumas dezenas de anos nas costas). As mudanças foram para melhor? Pioraram os relacionamentos? Depende de quem avalia. Para uns, os costumes atuais são mais adequados e os dos antepassados chegam a soar ridículos. Para outros, é o contrário. Quem está certo? Quem está errado? Insisto, depende de quem avalia. Hoje, por exemplo, ninguém mais escreve cartas apaixonadas para as namoradas, ou companheiras, ou seja qual for a condição da outra pessoa pela qual se esteja apaixonado, ou interessado, como queiram. Em vez disso, redigem-se e-mails. Ou nem isso. Muitos (e põe muitos nisso!) limitam-se a postar mensagens em alguma das tantas redes sociais e basta. Nem por isso quem procede assim deixou de ser romântico. Afinal, lembrou-se da pessoa amada ou estimada ou que lhe desperte qualquer tipo de interesse.

Os mais velhos não agiam assim, certo? Sem dúvida. Mas isso ocorria por motivos óbvios. Não contavam com os recursos de comunicação (computador, celular etc.) com que contamos hoje. O hábito de escrever cartas está se acabando não apenas entre namorados, interessados em namorar e amigos. Até mesmo a correspondência comercial das empresas se torna, paulatinamente, coisa do passado, substituída pelos e-mails que, entre tantas vantagens, contam com a da instantaneidade. Mal você concluiu o texto e comprimiu a tecla de “enviar”, a pessoa à qual a mensagem se destina, não importa a distância que esteja de você, o recebe, quase que instantaneamente, na caixa de entrada de seu computador. Com cartas, óbvio, isso não acontecia. Demoravam dias para elas chegarem, e isso quando não se extraviavam.

Outra manifestação de apreço que não se acabou é o hábito de enviar flores a determinadas pessoas em ocasiões especiais, como aniversários (delas, ou de namoro, ou de casamento etc,),  conquistas pessoais, formaturas etc. E isso é feito da forma que sempre foi: é o homem quem envia buquês para mulheres e não o contrário. O que mudou, nesse caso, foi o simbolismo que antes cercava esse tipo de gentileza. Hoje não importa quais sejam as flores mandadas para a pessoa que se quer agradar, desde que de bom gosto, do que as várias floriculturas se encarregam com competência. Nem sempre foi assim.

Houve um tempo em que as flores simbolizavam  sentimentos específicos, a ponto de dispensarem cartões, cartas, bilhetes ou seja lá o que fosse explicando o motivo de seu envio. Hoje, salvo exceções, só os poetas têm em mente o que cada espécie floral significa simbolicamente e utilizam essa simbologia, a título de metáforas, em seus poemas. Por exemplo, o narciso tem o significado de perda, de morte. O jacinto simboliza lágrimas, ou seja, tristeza causada por qualquer separação. O lírio, por sua vez, representa pureza, inocência. O resedá, a bondade. O rosmaninho, a saudade eterna. E a rosa... era no passado e é ainda hoje metáfora de beleza e de amor. Por isso, mesmo quem não tem a mais remota noção do significado simbólico das flores, opta por esta espécie específica quando quer conquistar, conservar ou reverenciar alguma mulher.

Voltarei oportunamente ao tema. Reitero, todavia, minha afirmação inicial. Discordo que o romantismo tenha “morrido” ou que esteja em vias de desaparecer. Como todas as coisas no mundo (aí incluindo, comportamentos, costumes e símbolos), está em processo de transformação. Se para melhor ou para pior, é questão individual, opinião de cada um. Afinal, cada pessoa sabe (ou deveria saber) o que melhor lhe convém.

Boa leitura.


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk                      
Não espere quase ir desta para uma melhor para mudar

* Por Mara Narciso


O setor musical está cheio de alusões a mudar, recomeçar, refazer. Diante da insatisfação, a mudança é uma das mais frequentes vontades, em relação a si próprio e aos que estão perto, depois da busca pela felicidade.

“De hoje em diante
vou modificar o meu modo de vida
naquele instante que você partiu
destruiu nosso amor/” (Roberto Carlos).

Quando a falta de virtudes predomina, a pessoa anseia pela modificação. Em geral ela vem, mas nem sempre para melhor. Muitas vezes os defeitos vão se ampliando com os anos. Mas, deixando o pessimismo de lado, há quem consiga mudar tudo, e o que a fazia sofrer passa a fazê-la crescer. Outros, num momento de raiva, e em tom de ameaça, dizem que desejam sumir. Essa vontade, que de vez em quando é concretizada, significa cansaço de si mesmo e da rotina que leva. Sentindo-se asfixiado, amarrado e cego, quer outra vida, algo diferente. Então foge, desaparece, algumas vezes para sempre, engrossando o rol de desaparecidos. Evite extremos. Tome decisões factíveis antes disso. Começar de novo, de Ivan Lins inicia-se assim:

“Começar de novo
e contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Ter me rebelado
Ter me debatido
Ter me machucado
Ter sobrevivido
Ter virado a mesa
Ter me conhecido
Ter virado o barco
Ter me socorrido”

Cada um a seu modo canta por mais coragem e espera por novidades.

Para buscar outra vida, é preciso abandonar a que existia até então. Muitas histórias são contadas dentro da seara religiosa, por pessoas que foram alcoólatras ou dependentes químicos, e que se converteram a uma religião, começando uma nova existência, largando o que acreditavam (ou desacreditavam) e que viviam para vir a ser uma nova pessoa. Dentre as mudanças radicais, há os que perdem 50 quilos e outros que mudam de gênero. Raul Seixas disse em Tente Outra Vez:

“Beba! (Beba!)
Pois a água viva
Ainda está na fonte
(Tente outra vez!)
Você tem dois pés
Para cruzar a ponte (...)
Tente outra vez!//”

Algumas transformações, pelo menos para o público consumidor, acontecem no formato inicial de vida desregrada, excessos extremos, prática da nudez vulgar e até crimes de morte, para um modo monástico de viver. Argumenta-se que todos merecem uma segunda chance, um voto de confiança após um erro (ou vários deles). Os testemunhos surgem após situações de quase morte. A televisão bebe nessa fonte, e ex-atrizes dançarinas contam como se deram as revelações e as conversões. Renegar o passado é a tônica desses casos. Ainda que se queira colocar um concreto forte em cima, a pessoa é agora a soma do que foi e fez antes.

Muitos só encontram forças para mudar, quando estão próximos da morte. Mencionam um período de reflexão e iluminação, e, quando se recuperam, falam em mudanças, com destaque para os valores, que, entenda-se, eram os cifrões (ostentação, dinheiro, poder e fama) e passam a ser as ações e sentimentos. A conversa é semelhante. Os bens materiais tornam-se secundários, e surgem gestos de solidariedade, da prática do bem, de respeito ao outro, de melhor compreensão do sofrimento alheio.

Que seja praticado o mudar hoje, para amanhã ser o segundo dia, em lugar de adiar indefinidamente. Abandonar a omissão, olhar pelos outros, acolher, entender, evitar ações e sentimentos destrutivos para si e os demais deveria ser a norma para agora, e jamais deixado para o limite final. E que não se espere por doenças graves para visitas de arrependimento ao passado. O sentimento de culpa não deve ocupar tempo nenhum da existência.

O lugar do hospital onde se nasce é a maternidade, mas onde se renasce pode ser o CTI. Não deixe que isso aconteça com você. Antecipe-se!

*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   


O telefonema


* Por Rodrigo Ramazzini



- Alô. Bruna? Pode falar?
- Aqui ó... Essa será a primeira e a última vez que eu vou te falar. Não me liga mais! Por favor.
- O quê? O que houve Bruna?
- Não me liga mais! Não quero saber. Se quer namorar a minha prima o problema é teu. Te vira! Eu não tenho porque te ajudar...
- Bruna! O que é isso?
- Não me liga mais! Faz por ti cara. Se ela não te quer, não será eu quem vai fazer ela trocar de idéia.
- Bruna! Não estou te entendendo.
- Eu já estou cheia destas tuas ligações. Enchi saco já! Te vira sozinho. Por que eu tenho que ser a intermediária?
- Mas Bruna, eu achei que as minhas ligações...
- Não me liga mais! Quer namorar ela? Quer ficar com ela? É simples: liga direto pra ela então! E pára de me torrar a paciência...
- Se queres assim...
- Até o meu namoro está prejudicado com essas ligações fora de hora. Eu não tenho vocação para psicóloga de rejeitados!
- Eu sempre achei...
- Achou errado. Não me liga mais! Está dado o recado. Tchau!

No outro dia

- Alô Bruna? Pode falar?
- Sim. Tudo bem, gatinho?
- Eu só estou ligando para te pedir desculpa se fiz algo errado, e, para te pedir uma explicação...
-Explicação sobre o quê?
- Ora sobre o quê? Sobre ontem, né! Aquele xingamento todo sem explicação...
- Não acredito que acreditastes
-Não entendi?
- Ah ah ah!
- O que foi?
- Tu acreditastes! Era pura cena. O meu namorado andou vasculhando o meu celular e viu o teu número várias vezes nas chamadas recebidas. Esqueci completamente de apagar. Ele ficou desconfiado. Normal! Daí, eu disse que o número era de um chato que queria ficar com a minha prima e queria a minha ajuda. Ele não acreditou muito...
- E?
- E quando me ligaste ontem, eu estava com ele. Ele reconheceu o número por causa deste maldito final zero zero. Então, não tive dúvida. “Meti a boca” em ti!
- Ah ah ah! É isso então!
- É!
- A encenação foi tão perfeita que eu acreditei mesmo!
- Homens...
- O teu namorado acreditou?
- Claro! Os homens são muito bobos.
- Olha! As novelas estão perdendo uma bela atriz. Ah ah ah! Nada como ter uma amante inteligente e criativa.
- Amante não! É muito vulgar.
- Caso extra-oficial?
- Melhorou!
- Quando nos vemos?

* Jornalista e cronista

Teia


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral


Namoro a teia que
a aranha tece.
Espio a armadilha
camuflada entre as
flores de um vermelho
tão vivo, que embriaga
a mim mesma.
Uma pequena borboleta
se agita na teia, diante
da aranha que pacientemente
se permite ao sono
para mais  tarde degustar
sua presa com a consciência
tranquila de quem não
sabota, nem engana,
apenas segue seus instintos.

 * Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário


A gramática do amor


* Por Carmo Vasconcelos


O Amor é substantivo abstrato
Porém tão real na sua abstração...
Não tem gosto nem cheiro, sequer tacto
Mas dói dentro de nós até mais não

Dói na ânsia, na dúvida, na espera
Na ausência do prazer e em saudade
Esvai-se se o prendemos, qual quimera
E esvoaça se lhe damos liberdade

Ufano, nos reporta sem valor
Se o mimamos amorosos demais
E à mão nos vem comer se o ignoramos

Reveja-se a gramática do Amor
Que sejam suas leis consensuais
Concreto... Se leais o conjugamos


* Poetisa portuguesa
Assédio


* Por Alberto Cohen


A poesia espreita o solitário,
quieto no bar, num canto, pela rua,
reconhecível pelo mesmo olhar
dos que esperam sem encontro marcado.
É num arroubo que ela se oferece,
imprevisível, dona, dissoluta,
nas carícias rimadas e medidas
negaceia e se dá, jamais inteira.
Depois, sacode a vasta cabeleira,
recolhe pelo chão os seus mistérios,
e parte, insatisfeita como sempre,
atirando metáforas na cama.


* Poeta paraense

terça-feira, 28 de abril de 2015

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 9 anos e um mês de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Educação e vida criativa.

Coluna À flor da pele – Evelyne Furtado, poema, “Poetisas”.

Coluna Observações e Reminiscências – José Calvino de Andrade Lima, crônica, “Lava Jato”.

Coluna Do real ao Surreal – Eduardo Oliveira Freire, conto, “Oração”.

Coluna Porta Aberta – Aleilton Fonseca, conto, “O canto da alvorada”.

Coluna Porta Aberta – Mouzar Benedito, artigo, “Urinar: Necessidade básica nos botecos e também nas estações de metrô”.


@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal”Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


  

Educação e vida criativa



A educação, valor básico do homem, está em crise no mundo. Cristalizada em dogmas,  não acompanha a evolução da humanidade – da passagem de uma sociedade industrial para outra de informação, por exemplo. Não satisfaz, portanto, as necessidades sociais, em um Planeta assoberbado por novas questões e crescentes problemas. O fenômeno ocorre tanto no Ocidente, quanto no Oriente. Verifica-se quer em países altamente evoluídos política, econômica, social e tecnologicamente, quer em Estados carentes, até inviáveis (nestes, logicamente, de forma mais intensa).

O fundador da Soka Gakkai Internacional, Tsunessaburo Makiguti, já havia detectado essa  inadequação educacional, essa falta de rumos e perspectivas na formação das novas gerações – encarregadas de absorver e transmitir o patrimônio cultural da humanidade desde os primórdios da civilização até os dias atuais. Fez, a esse respeito, uma série de apontamentos, ao longo de 30 anos, que resultaram no livro "Educação para uma Vida Criativa", publicado no início da década de 30.

De lá  para cá, muita coisa mudou. O mundo conheceu nova e devastadora guerra mundial, além de algumas centenas de conflitos regionais. O homem desvendou o segredo mais íntimo da matéria, o átomo, e usou esse conhecimento para produzir as mais terríveis armas, jamais construídas, capazes de eliminar da face da Terra a humanidade e virtualmente todas as espécies animais e vegetais: as nucleares. Um astronauta pisou na Lua. Houve uma polarização ideológica que durou mais de quarenta anos (capitalismo versus comunismo), que só acabou após a queda do Muro de Berlim e a desagregação da União Soviética. Países novos (e miseráveis) emergiram com o fim do colonialismo, notadamente na África e na Ásia. O colapso comunista "redesenhou" o mapa da Europa. O "mercado" foi alçado como uma espécie de panacéia para todos os males, resultando na atual "globalização" econômica, que ninguém sabe ainda no que vai dar. O cenário é muito diferente, portanto, do da década de 30, como diversos também são os problemas mundiais.

Mas as coisas, em termos de educação, melhoraram nestes mais de sessenta anos, no sentido de prevenir e evitar erros, como os cometidos ao longo deste século? Estariam as idéias e propostas de Tsunessaburo Makiguti ultrapassadas? Não! Pelo contrário! O tempo apenas tornou-as mais atuais. E, sobretudo, mais prementes. O diagnóstico da "doença", feito há mais de oito décadas, foi absolutamente correto. Como essa não foi tratada, apenas se agravou desde então.

Na introdução de "Educação para uma Vida Criativa", da edição lançada no Brasil pela Editora Record, o professor Dayle M. Bethel, enfatiza: "Makiguti afligia-se com as imperfeições que percebia na educação japonesa. Suas preocupações com a educação poderiam mesmo ser consideradas obsessivas..." E acrescenta: "O processo de formulação do objetivo na educação era o pensamento central de Makiguti".

"Educar para quê?", é a pergunta que se impõe. Para condicionar o indivíduo a sustentar ideologicamente algum tipo de regime, ou determinada espécie de governo? Apenas para produzir mão-de-obra qualificada, robotizando o homem, tratando-o como máquina, senão como mercadoria, como entendem muitos tecnocratas que deva ser o objetivo da educação? Para formar elites que mantenham o "status quo" vigente? Para condicionar o indivíduo a produzir e consumir bens materiais, a maioria supérflua, esgotando os limitados recursos da Terra?

O líder bolchevique russo, Vladimir Lenin, com grande franqueza (e não sem acentuada dose de cinismo), em um dos seus textos, nos dá uma visão nua e crua de quais são os objetivos da maioria dos sistemas educacionais mundo afora, independentes da ideologia ou forma de governo dos seus formuladores: "A escola jamais foi apolítica; seu fim e problema, seus programas e métodos, foram sempre fixados pela classe no poder".

Para Makiguti, no entanto, a sociedade erra quando age assim e deixa a cargo de acadêmicos e filósofos (a serviço de políticos, evidentemente) as decisões relativas a objetivos e metas educacionais, "sempre ocupados com pensamentos muito distantes da realidade da vida diária". Propõe que tal fixação de metas seja feita por "profissionais que atuam na educação". Entende que estes, "embasados em suas experiências diárias, devem abstrair indutivamente princípios e reaplicá-los em sua prática, na forma de melhorias concretas". Ou seja, que os objetivos sejam fixados por quem "seja do ramo". Que se crie uma "ciência da educação" e que essa seja dinâmica, ágil, mutante, se adaptando instantaneamente às novas necessidades individuais e da sociedade, sejam quais forem. Recursos materiais para isso existem.

Da obra de Makiguti emergem seis temas, ou áreas de interesse básico que, reunidos, formam a essência de suas idéias sobre educação e de suas propostas para a reforma educacional. O primeiro refere-se ao "objetivo". Para quê educar? "Para tornar o homem feliz!", responde. No posfácio do livro, David  L. Norton, professor de Filosofia da Universidade de Delaware, em Newark, EUA, constata: "Makiguti defende que a educação deve ser uma preparação para a vida  no mundo e, principalmente, para se viver bem. Segundo ele, é preciso viver bem no presente, pois um treinamento que adia a felicidade para um futuro indefinido é um treinamento do adiamento da felicidade".

O próprio autor de "Educação para uma vida Criativa" enfatiza: "Não é prerrogativa dos educadores decidir que a preparação para a vida adulta deve ser o objetivo da educação. (...Eles) devem entender que a escolarização que sacrifica a felicidade presente das crianças, fazendo da felicidade futura sua meta, viola a personalidade infantil e o próprio processo de aprendizagem". O fundador da Soka Gakkai indica, ao longo de todo o livro, que "a realização individual está na contribuição social". Ou seja, no acréscimo que o indivíduo pode dar ao patrimônio cultural da sua comunidade e por extensão da humanidade (por ínfimo que seja), que será transmitido às futuras gerações, para que estas transmitam às seguintes, e assim sucessivamente, numa cadeia sempre evolutiva do homem rumo à perfeição.

"Começamos reconhecendo que o ser humano não pode criar matéria. Pode, no entanto, criar valores. A criação de valores é, na realidade, a essência da natureza humana. Quando elogiamos pessoas por sua 'força de caráter' estamos, na verdade, reconhecendo sua capacidade superior de criar valores", acentua Makiguti.   "A questão fundamental, portanto, é resolver para que fins, e no interesse de que valores, a criatividade humana deve ser direcionada", conclui  Dayle M. Bethel. E essa definição o livro traz com detalhes, abordando, ainda, entre outros assuntos práticos, a natureza do processo de aprendizagem, o treinamento de professores e a definição de currículos, além do papel educacional da escola, do lar e da comunidade. É uma indicação lúcida, competente e segura, que os responsáveis pela formulação de políticas educacionais, em especial do Brasil, deveriam olhar com atenção e aplicar os princípios propostos, para fazer da educação o que ela deveria sempre ser:  um guia seguro para orientar o homem a estar bem consigo próprio e a relacionar-se harmoniosamente com seus semelhantes.

Boa leitura.


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Poetisas


* Por Evelyne Furtado


Somos vozes
Nem sempre uníssonas
Nem sempre coerentes.

Somos assumidamente carentes.
E generosamente ardentes.

Solidárias, sim.
E corajosas
Ao abrirmos nossos corações.

Garra, lágrimas e risos.
Desejos, ciúmes amores.
Às vezes sem uma gota de siso.


Somos mulheres poetisas
Amamos em versos
Como amamos na vida


* Poetisa e cronista de Natal/RN
Lava Jato


*Por José Calvino


A presidenta Dilma Rousseff euforicamente demonstra muito otimismo sobre as conseqüências das investigações da Polícia Federal na operação Lava Jato. A presidenta disse que a mudança seria no sentido de que vai acabar com a impunidade que vem acontecendo há muito tempo no país, ressaltando:“A questão da Petrobras é simbólica para o Brasil. Acho que é a primeira investigação efetiva sobre corrupção no Brasil que envolve segmentos privados e públicos”. Realmente é verdade, mas, ao meu ver após as investigações policiais, ela mostrará mais eficiência se for rápida na execução das penas cabíveis. Destaco ainda a relevância de se acelerar a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) de número 300-A de 2008, que trata da unificação das polícias em todos estados do Brasil.

Outrossim, a amiga Dilma Carrasqueira, que vem acompanhando as minhas denúncias através da imprensa, sobretudo pelos jornais referentes à paralisação das obras do PAC me disse que em 2011 a Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab) deixou de realizar algumas obras do bairro de Campo Grande-Recife e que as mesmas não foram concluídas porque o projeto foi readequado estando em análise na Caixa. Cadê os milhões de reais, isto é, os R$ 19 milhões restantes, com mais R$ 7.318.810,53 que os governos federal, estadual e municipal gastaram? Um representante da Cehab disse em entrevista na TV que tudo estaria concluído naquele ano. Mas, em 2013, a Assessoria de Imprensa da Cehab informou que estava em andamento, com conclusão prevista para setembro de 2014. As eleições passaram, a equipe social do governo informou que a demora na conclusão foi devida à falta de matéria prima no País.
Ora, isto tudo sugere o que? Proponho uma nova operação, desta feita com a polícia unificada, podendo chamá-la de “Pente Fino” ou mesmo continuar no Lava Jato.

Para o bem dos brasileiros e brasileiras, termino esta crônica com a poesia “Salário digno”

Tal qual meu pai,
telegrafista ferroviário
manipulava o telégrafo
pelo brilhante trabalho
fazendo tudo honestamente.
Mas, vergonhosamente o salário é mínimo(1)
e se os elogios de todos são hipócritas
prefiro o salário digno
com sublimidade da virtude
abandonando o orgulho, como o meu pai
que era chefe de estação ferroviária
e morreu sem deixar um alicate.

(1)O salário mínimo foi criado pelo ex-presidente Getúlio Vargas em 1940.

Fiteiro Cultural: Um blog cheio de observações e reminiscências - http://jecalvino.blogspot.com/


*Escritor, poeta e teatrólogo.
Oração


* Por Eduardo Oliveira Freire


Está em um mar bravio, bestas e sereias tentam devorá-lo. Ele grita e uma claridade surge rompendo a escuridão. Acorda e percebe que a luz atravessa as frestas da porta do quarto. Levanta e segue a direção da luminosidade. Encontra a mãe a fazer uma oração...

“Senhor proteja meus filhos e até deles mesmos”.

Vê um vulto sair da janela do quarto da mãe, o pai viaja sempre a trabalho.

O menino pensa que é um dos monstros de seus sonhos.

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/