A casa da tia Ana
* Por
Eduardo Oliveira Freire
"Lar
é onde habita o coração." (Plínio, o moço)
Desde quando eu era
criança, me proporcionava serenidade. O jardim bem cuidado, as árvores
frondosas; a varanda gigantesca, os móveis antigos, os quartos ventilados e a
vasta sala... Enfim, a morada era, (não, é), um pedaço do paraíso.
Mesmo adulto, passava
algumas semanas na casa da tia Ana. Lá, a insônia não me atormentava e nem as
chatices do cotidiano. Confesso que sou uma pessoa complicada, pois tenho alma
de artista, mas não possuo nenhum talento. De repente, tenho crises existenciais
que sempre me atormentaram e nunca consegui desenvolver uma atividade artística
para canalizar esta angustia. Logo, com a cabeça repleta de cacos, batia à
porta da minha querida tia Ana, que me recebia com muito carinho.
Um dia, o filho dela
apareceu. Antigamente éramos muito amigos. Mas, à medida que fomos crescendo,
nos distanciamos. Quando ele me viu dormindo no sofá, não gostou. Aparentemente
disfarçou e até me falou da sua viagem à Europa. Todavia, ouvi uma conversa
entre eles, e meu primo dizia que eu queria me encostar na casa da minha tia.
Resolvi nunca mais voltar.
Anos se passaram,
recebi a notícia que a minha tia morrera e que meu primo desejava falar comigo.
Retornei depois de alguns anos à casa da tia Ana. Ele me disse calmamente que,
a pedido de tia Ana, a casa ficaria comigo. Ainda comentou que concordou sem
pestanejar, já tinha tanta coisa e herdou muito mais bens.
Olhei para a casa e
não era a mesma. Embora com a mesma mobília, o jardim, as árvores e a sala, sem
a tia Ana, tudo parecia estranhamente oco para mim. Não aceitei a casa e segui
meu rumo. Na realidade, o que eu queria estava dentro de mim.
Basta acionar a
memória que retorno à casa da tia Ana.
*
Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante
a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/
Nenhum comentário:
Postar um comentário