Textos piegas
Os que lidam com textos, e fazem deles
seu meio de vida, têm que atentar aos mínimos detalhes naquilo que escrevem.
Precisam evitar, a todo custo, que o que colocarem no papel (ou na telinha do
computador, como queiram) enseje múltiplas interpretações, diferentes das que
quis expressar. Não se pode ser ambíguo, obscuro e nem pedante, sob pena daquilo
que o redator escreveu vir a depor contra ele em algum tempo qualquer. Clareza,
concisão e precisão são, portanto, fundamentais em todo e qualquer texto.
Nunca sabemos quem irá ler uma crônica
ou um artigo nossos, por exemplo. Tanto pode ser um sujeito inteligente e
esclarecido, quanto algum infeliz analfabeto funcional, incapaz de assimilar, e
de entender, o que lê, embora ache que saiba fazer isso. Curiosamente, é
justamente esse tipo que mais se arroga, invariavelmente, ao papel de crítico,
tentando ridicularizar quem escreve, embora descambando (ele sim) para o
ridículo.
Quando decidi abrir mão da minha
condição de comentarista político – função que exerci, diariamente, por longos
quinze anos, em vários jornais que trabalhei – para assumir o papel de
cronista, uma das minhas preocupações sempre foi a de evitar a elaboração (e a
publicação, claro) de textos que pudessem soar “piegas”.
Quem lida com esse gênero,
caracterizado pela informalidade, muitas vezes corre esse risco, principalmente
ao abordar episódios pessoais, íntimos, que lhe são caros e que talvez não
sejam para os leitores. Se não tomar cuidado com certos temas – verdadeiras
armadilhas para os redatores – pode, de fato, descambar para a pieguice.
Tive, há algum tempo, um incidente desagradável,
a esse propósito, no Comunique-se. Foi em relação a uma crônica que publiquei
em minha coluna das quintas-feiras, no Literário (que então era uma seção desse
prestigioso e nobre portal), em que abordei um episódio que me marcou
profundamente na infância. Tratava-se de um texto sóbrio, leve, sem adjetivos
ou tentativas banais de fazer literatura. Nem se tratava de algo inédito ou
escrito às pressas, como somos, às vezes, obrigados a fazer, para honrar
compromissos (o que, convenhamos, é um risco imenso).
A crônica em questão já havia sido
publicada em diversos jornais, revistas e sites da internet. E a aceitação, até
então, havia sido unânime por parte dos leitores (pelo menos dos que se
manifestaram com comentários). Qual não foi minha surpresa, porém, ao me
deparar com determinada manifestação de alguém, que se dizia “usuário do
portal”, alinhavando uma série de considerações nada lisonjeiras ao que
escrevi. E não apenas em relação ao texto (que estava na página para quem
quisesse ler e avaliar), mas, sobretudo, sobre a minha pessoa (que tenho
certeza absoluta que esse indivíduo não conhecia e ainda não conhece).
Entre tantas coisas que o tal “crítico”
de algibeira escreveu, a que mais me irritou foi ter classificado a referida
crônica de “piegas”. Houve reações imediatas (e espontâneas) em minha defesa,
como a do escritor Urariano Mota, cujo talento admiro e cuja capacidade de
análise considero insuspeita, dada sua trajetória no jornalismo e, sobretudo,
na literatura.
Meu primeiro impulso foi o de responder
de forma malcriada a essa má-criação. Isso, porém, não faz parte do meu
comportamento. Respeito, profundamente, a opinião de qualquer leitor,
principalmente aquelas que divirjam das minhas. Estou, sempre estive e sempre
estarei aberto às críticas, às quais me submeto (quando pertinentes) e tomo
como referenciais para me tornar um redator melhor.
O tal indivíduo, porém, não estava me
criticando. Estava fazendo “chacota” com o meu texto, o que é muito diferente.
Ainda assim, decidi analisar sua crítica e tentar encontrar algo de bom, de
útil e de aproveitável nela. Fui ao dicionário para refrescar a memória sobre o
sentido exato da palavra “piegas”. Aurélio Buarque Ferreira diz que é o
indivíduo “ridiculamente sentimental”. “Será que sou assim?!”, indaguei-me,
atônito. Concluí que não.
Fiz novas consultas. Fui, por exemplo,
ao Dicionário Mor da Língua Portuguesa, do professor Cândido de Oliveira. E ele
define essa palavra assim: “piegas – pessoa embaraçada, atoleimada,
ridiculamente assustadiça, afetada”. “Meu Deus do céu, será que sou
tudo isso, sem me dar conta?!”. Tenho, é certo, inúmeros defeitos pessoais e
algumas tantas deficiências de estilo, não nego. Mas piegas?! Não,
definitivamente, não sou! E a dita crônica também não é.
Esse incidente trouxe-me à memória
outro, ocorrido há mais de 40 anos. Recebi, certa feita, este poema de uma
garota (a quem amei demais, e que, na época, era a minha namorada) que ela
afirmou haver copiado de algum lugar e que, no seu entender, cabia como uma
luva à minha pessoa:
Menino grande
“Eu
gosto tanto do carinho quer ele me faz
Faz
tanto bem o beijo que ele me traz
As
horas passam, ligeiras, felizes
Sem
a gente sentir.
Ele
está ao meu lado, com o corpo cansado
Precisa
dormir.
Dorme
menino grande
Que
eu estou perto de ti
Sonha
o que bem quiseres
Que
eu não sairei daqui.
Ó
vento não faz barulho
Meu
amor está dormindo
E
o mar não bata com força
Por
que ele está dormindo.
Dorme,
menino grande,
Que
eu estou perto de ti.
Sonha
o que bem quiseres
Que
eu não sairei daqui”.
Mostrei estes versos a um amigo, sem
revelar a autoria, e pedi sua opinião. Qual não foi a minha surpresa e,
principalmente, minha decepção quando ele classificou, na maior cara dura, sem
ao menos refletir no que dizia, essa jóia poética de “piegas”! Não pensei duas
vezes. Rompi, de imediato, sem mais delongas ou explicações, a amizade. Nunca
mais sequer conversei com essa pessoa.
Afinal, não tenho nada em comum com
indivíduos de mau-gosto e que são, sobretudo, mal-informados. Estes versos, para
quem não sabe (ou ainda não identificou) são do magnífico poeta, cronista,
boêmio pernambucano (e, sobretudo, extraordinária figura humana), Antonio Maria
Araújo de Morais, que foi um dos mais inspirados e consagrados compositores da
MPB de todos os tempos. E a letra em questão, tão estupidamente avaliada e
infantilmente criticada, foi estrondoso sucesso de público e de vendas, na voz
gostosa e acariciante de Nora Ney...
Boa leitura!
O Editor.
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