A opinião pública
A opinião da maioria deve, “sempre” prevalecer e ser acatada
por todos, como suposta atitude democrática? Depende! Caso seja rigorosamente
correta, sem a mínima margem para dúvidas, e, portanto, justa e construtiva, a
resposta é, óbvio, afirmativa. Mas não pelo fato de contar com a convicção (ou
pelo menos com se não o apoio, a adesão) do maior número de pessoas. Esse não é
fator determinante. O motivo dela dever prevalecer nesses casos específicos é o
fato de satisfazer condições básicas, como veracidade, justiça e
construtividade. Portanto, isso anula o “sempre” da proposição.
Algum sujeito, que ninguém fica sabendo jamais quem é, lá um
belo dia solta um disparate qualquer sobre algo ou sobre alguém, não raro um
boato, e, de imediato, sem nenhuma análise ou consideração, um bando de pessoas
– centenas, milhares, milhões – repercutem-no de imediato, dando-lhe foros de
verdade. Nem sempre, porém, é verdadeiro. Esse processo, ou procedimento, é o
que se conhece como “opinião pública”. E esta expande-se, multiplica-se e
fixa-se de vez quando divulgada pela imprensa. Muitos se esquecem, todavia, que
jornalismo é feito por pessoas iguaizinhas a nós, sujeitas, portanto, a enganos
e a interesses nem sempre construtivos ou compatíveis com os da maioria. Mas
quando se impõe, o estrago à reputação ou à verdade ou a ambos é consumado e de
tal forma que muitas vezes é impossível de ser remediado.
Da minha parte, desconfio da tal “opinião pública” que,
conforme o Marquês de Maricá, “é sujeita à moda, e tem ordinariamente a mesma
consistência e duração que as modas”. Em muitos casos, ela se torna instrumento
de terríveis injustiças e, como não tem “cara”, não há quem pague por elas
quando a verdade, finalmente, vem à tona (caso venha). Se a opinião pública
fosse “sempre” correta, justa e construtiva, Jesus Cristo, por exemplo, não
seria condenado à morte. Narram os evangelistas que Pôncio Pilatos, convencido
da inocência daquele sereno réu, mas não querendo descontentar o populacho
(afinal, era político), resolveu deixar por conta do povo a decisão sobre seu
destino. Colocou, como opção, libertar o Messias, que jamais havia feito algum
mal a quem quer que fosse ou Barrabás, notório encrenqueiro (nos dias de hoje
seria considerado “terrorista”), com um punhado de delitos nas costas. E todos
sabem qual foi a “opinião pública”. Foi, além de lamentável, irremissível, do
ponto de vista humano. Poderia citar centenas e centenas de outros casos, mas
não o farei.
Há um antiqüíssimo provérbio chinês que diz: “Um homem sábio
toma suas próprias decisões, um homem ignorante segue a opinião pública”.
Infelizmente, muitos a seguem. Machado de Assis comparou-a áquela serpente-deus
dos antigos mexicanos. Escreveu, em uma de suas crônicas: “... Depois de
devorar um alentado mamífero, prostra-se até que a ação digestiva lhe tenha
esvaziado o estômago; então o flagelo das matas corre em busca de novo repasto,
emborca novo animal pela garganta abaixo e cai em nova e profunda modorra de
digestão. Esquisita que pareça a comparação, o público é assim. Precisa de uma
novidade, e de uma grande novidade. Quando lhe aparece alguma, digere-a com
placidez e calma, até que desfeita ela, outra lhe fica ao alcance e lhe
satisfaz a necessidade imperiosa”. E não é? O povão adora escândalos, mas logo
se cansa deles e fica na expectativa do próximo;
Para Henry David Thoreau, pioneiro da tática de “desobediência
civil” consagrada pelo Mahatma Gandhi na Índia, como forma de defender inalienáveis direitos
individuais – seu livro “Desobedecendo” é um primor de sabedorias e de bom senso
– “a opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de
nós mesmos”. Débil e, em certos casos, covarde, posto que sem personalidade e
sem rosto. Da mesma forma que não me submeto “sempre” à sua tirania, não digo
que “nunca” a acate. Mas só a acatarei quando entender que ela está sendo
correta, justa e construtiva. Não sou tão reducionista. Busco agir como a atriz
birmanesa (naturalizada inglesa) Jeane Roland sugere que se deva: “O fraco
treme diante da opinião pública, o louco afronta-a, o sábio julga-a, o homem
hábil dirige-a”. Ou seja, se alvo dela, procuro dirigi-la a meu favor.
Boa leitura.
O Editor.
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Sabedoria do princípio ao fim. Hoje, quando mostrei ao meu filho Fernando meu texto de domingo, ele disse que estava nota oito, e que eu tenho de aceitar que não posso produzir uma Pietá a cada semana. Pois é, preciso reverenciá-lo, Pedro, pela inspiração profusa e feliz desse fim-de-semana. Os três textos, somados de ontem e hoje estão excelentes. Parabéns!
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