Por baixo de uma saia de prega
* Por Benedito Ramos Amorim
(Conto)
O casamento
de Maria Querência com Jesuíno Pereira tinha sido a maior festa que Bom Jesus
dos Pecadores já tinha visto. Apesar de não ser um homem rico, o pai de Jesuíno
trazia a sua fazenda por três gerações. O Coronel Nicácio Pereira era um homem
considerado severo nas suas ações, e temido pelo seu gênio explosivo. Razão de
sobra para ser tão respeitado, sobretudo pelos adversários políticos. Nunca
quis ser prefeito da cidade, até porque não sabia ler e nem votava, mas tinha
sempre um candidato que se elegia para garantir seus interesses. E aquela festa
de casamento trazia um sentido especial para ele. Tinha se acabrunhado por dois
anos quando sua filha Miquelina apareceu prenha de um empregado seu. Com medo
da reação do pai, fugiu e se amoitou na casa da madrinha que morava em Mata Grande. A
velha ainda foi procurar o compadre para ajeitar as coisas, mas a sua reação
foi a pior possível.
- Comadre
Lindalva se Senhora acoitou aquela quenga na sua casa, fique com ela.
- Mas
compadre...
- É o que
eu estou dizendo.
- Mas a
comadre Da Luz está se acabando de saudade da filha.
- Deixe Da
Luz chorar. Um dia ela pára e esquece. Aqui em casa eu não a quero mais. E
passe muito bem comadre.
Por isso
aquela festa era pra lavar a sua alma. Aparentemente tinha esquecido a filha
que nunca mais apareceu na cidade. E só Da Luz que foi não foi aparecia
chorando pelos cantos das paredes lembrando de Miquelina que agora já tinha lhe
dado um neto, que nem conhecia ainda. Não tinha virado quenga, como garantira
Nicácio, mas o safado do marido era um cachaceiro que não lhe dava
sossego. Comadre Lindalva tinha arranjado uma sarna pra se coçar.
Com Jesuíno
era diferente, estava se casando com uma moça trabalhadora, de muitas prendas
embora pobre que nem Jó. Nasceu e se criou numa pequena propriedade atrás da
serra de Água Branca, onde o clima era generoso com o que plantava e criava.
Tinha perdido o pai muito cedo e viveu sempre em companhia da mãe que depois de
velha havia cegado completamente. Conheceu Jesuíno na feira quando ele desceu
do cavalo e ficou olhando pra ela sem dizer nada. Maria Querência sempre foi
muito arisca pra banda de homem. E o olhar amarelo do rapaz a assustou tanto
que deixou a banca em que vendia e saiu pela feira afora quase sem destino. Foi
quando ele continuou a seguí-la. Não pode fazer nada a não ser parar esbaforida
e tentar encontrar voz para encarar o moço. Mas o bicho foi bem mais rápido e
só pediu desculpas por assustá-la. Ela respirou aliviada e pela primeira vez
olhou para o jovem e lembrou que o viu tantas vezes desmontar quase a sua
frente. Era bonito, naquele rosto cortado a facão, marcado por uma barba rala e
uma cabeleira loura que se escondia embaixo de um chapéu suado e roto. Para
Jesuíno, aquela moça nem trazia a faceirice de outras que se enxeriam pra ele.
Mas era aquele seu jeito forte de cara amarrada, sem um sorriso à toa que o
fascinava. Talvez aquele seu porte recatado, vestindo uma blusa de pano
estampado com uma saia de prega, fora de moda, parecendo uma crente. Pronunciou
seu nome pela primeira vez, logo que se apresentou. Olhou de perto aquela
mulher esguia, de mãos pouco delicadas cujo rosto quase triste estava
emoldurado por uma longa cabeleira negra atada à nuca por uma fita vermelha.
Depois desse encontro os dois voltaram até a banca de Querência onde
continuaram a conversar. Era a primeira vez que dava prosa a um homem dali.
Isto havia
ocorrido logo depois que sua irmã fugira de casa. Por isso nem contou a ninguém
que conhecera a moça, nem que tinha se encontrado com ela algumas vezes. O
clima de sua casa estava tão crespo que nenhuma de suas irmãs ousava a tocar no
nome de Lindalva. O pai mesmo se fazendo de forte vivia bisonho. E quando
sentava na varanda olhava horas a fio pro céu como se
procurasse alguma coisa naquele verão escaldante onde quase nenhuma nuvem
aparecia. Ficava tapeando dizendo que estava com medo do açude secar, mas no
fundo não era o céu nem o sol que o entristeciam era saudade da sua filha mais
velha, que beijava o seu cangote quando estava ali mesmo naquela cadeira de
balanço. Vez por outra uma lágrima escorria furtiva que ele acudia rapidamente
sem deixar vestígio. Quando a voz embargava e ele tossia, tossia e depois
pedia um copo d’água. Era a poeira.
Quase seis
meses haviam se passado quando Jesuíno levou a namorada na casa do pai.
Primeiro, o velho ficou parado, olhando aquela moça, admirado com o pouco gosto
do filho. Maria Querência não era grande coisa, havia moças mais bonitas, mas
delicadas e de menor compleição muscular que ela. Era o trabalho árduo na
enxada. O sol. Sempre o bendito sol queimando a pele e secando a terra. Mas
devia ser uma moça trabalhadora, pois tocava a fazendinha do pai quase sozinha.
Tinha uma mãe cega e mais dois irmãos que ela havia ajudado a criar. Não se
importava com a moça simples, nem com as suas mãos calejadas. Seu filho tinha
gostado dela e isso era o bastante.
Era muito
difícil de entender porque logo na primeira noite, depois do casamento, Jesuíno
Pereira estava quase matando Maria Querência, sua mulher com quem havia casado
fazia algumas horas. Agora estava sentado numa cadeira olhando para o chão
pensando na vida. Não sabia o que fazer. Havia entrado tão feliz naquela casa
que construiu junto à sua sogra, sentia que não podia separá-la da filha nem
tirar a mulher de junto de suas terras. E aquela casinha miúda de biqueira
pintadinha de verde era a coisa mais linda de sua vida. Não era uma construção
vistosa, mas o suficiente para um casal morar confortavelmente. O pai
tinha comprado toda a mobília e os eletrodomésticos necessários. E a própria
Querência tinha completado o enxoval. Estava feliz demais para se ver em uma
situação daquelas.
Querência
restava-se deitada ainda no chão se refazendo do chute que havia levado. O
rosto sangrava perto do nariz e ela respirava com dificuldade. Não ousava
sequer dizer uma palavra. Durante muito tempo tentou conversar. Tentou dizer a
ele o seu segredo, mas ele nunca a ouvia. Sua mãe a desencorajou muitas vezes
de prosseguir com o casamento, mas a essa altura amava aquele homem como nunca
havia amado ninguém em sua vida. Vivia aflita e tentou muitas vezes
encontrar um meio de acabar o namoro e depois o noivado. Mas Jesuíno era um
rapaz muito sério, doce, e não conseguia fazer nada errado que motivasse pelo
menos uma briga. Foi um erro ter prosseguido com aquele compromisso. Sua mãe
repetia assustada enquanto ela imaginava que o seu amor superaria qualquer
coisa. Mas não tinha sido assim. Estava ali deitada no chão com todas as dores
em meio a um silêncio ensurdecedor. Tinha certeza que àquela hora sua mãe
estaria rezando por ela no meio daquele silêncio, ajoelhada pedido perdão a
Deus por tê-la ajudado enganar Jesuíno. Razão pela qual apanhou calada e sem
alarde algum permaneceu ali deitada esperando talvez a própria morte, para
evitar escândalo.
Tinha sido
feliz durante todo aquele tempo em que conhecera Querência. Esquecera tudo por
ela. Nunca mais havia ido pra nenhuma festa sozinho, nem dançado com nenhuma
outra moça. Até nas gandaias não andava mais. Vivia para ela. Respeitava o seu
jeito lerdo de aceitar o seu carinho, sem permitir que ele fosse mais ardente.
Continha a sua excitação com um longo beijo cheio afeto, mas se limitava aos
afagos demorados e nada mais. Era isso que mais enfezava Jesuíno. Tinha sido
enganado da pior maneira possível. E, de uma forma que não tinha coragem de
voltar para a casa do pai e contar. Tinha vergonha de si mesmo e não ousaria
aparecer mais nunca na cidade. Preferia morrer a ter que encarar as pessoas.
Por isso só teve tempo de pegar um bisaco e colocar alguns pertences pessoais e
ir embora naquela mesma noite sem ao menos olhar para trás.
Só depois
disso foi que Sinhá Bilinha abriu a porta e foi até a casa da filha. Maria,
como a tratava, estava ainda deitada no chão. A velha mesmo na sua cegueira
parecia adivinhar o que havia ocorrido e abaixou-se tentando ajudá-la a
levantar-se.
- Primeiro
você precisa vestir-se e depois eu vou chamar seus irmãos para ajudá-la.
- Oh! A
Senhora tinha razão...
- Eu sabia
que isso não daria certo. Você devia ter acabado com esse casamento enquanto
era tempo. Ainda hoje cedo eu lhe falei, antes de você ir pra a igreja.
Lembra?
- Mas eu
achava que ele iria me aceitar mãe. Ele gosta de mim.
- Não minha
filha, ele gosta de Maria Querência, a moça recatada que ele conheceu e
respeitou até o dia do casamento.
Sua mãe
estava certa. Ele jamais a perdoaria. Talvez tudo aquilo tivesse acontecido do
mesmo jeito se tivesse contado antes. O erro foi deixar a história seguir o seu
curso sem pensar nas conseqüências. Mas havia pensado demais. Muitas
vezes se deixou ceder às suas cariciais enquanto ele explorava o seu
corpo. Jesuíno poderia ter ido mais além se o quisesse. Mas parecia respeitar a
sua intimidade como uma coisa sagrada. Melhor seria que se tivesse
entregado totalmente ao seu desejo. Ela ao contrário sempre devolveu o seu
carinho com uma ternura inda maior que o deixava quase louco. Sabia o quanto a
amava. Sabia que o seu desejo poderia sobrepujar todas as diferenças.
Mas isto
não aconteceu. E durante aquela noite Sinhá Bilinha esteve ao lado da cama de
sua filha, ajudando-a na sua dor. Seus irmãos ainda queriam tomar satisfação
com seu marido, mas ela mesma os persuadiu a esquecer.
O dia já
havia amanhecido quando ouviu o bater da porta. Sua mãe levantou de uma só vez
e correu até a sala. Depois perguntou baixinho quem era. Foi quando ouviu
novamente a voz de Jesuíno. Sinhá Inácia não abriu antes de ir até a cozinha e
tomar uma peixeira. Foi quando abriu avisando ao genro que se ele se arvorasse
a bater em Maria ela o mataria. Mas Jesuíno estava calmo, a raiva inicial havia
passado e ele começava a cair em si e ver que não podia deixar as coisas
daquela forma e apenas pediu para entrar. Sabia que aquela velha cega não
poderia fazer nada contra ele. E só respeitou a sua dor.
-Eu não vou
fazer nada Sinhá Bilinha eu quero apenas conversar com sua... filha.
Não tinha
coragem de olhar na cara de Maria Querência porque a raiva vinha novamente com
toda a explosão de fúria. Era preciso controlar-se. Por isso, falou dali mesmo
da sala, sem olhar em direção ao quarto e o necessário para ir embora de uma
vez. Precisava ter aquela conversa, por pior que fosse era melhor do que se a
verdade corresse solta pela cidade e caísse nos ouvidos de seu pai. Era melhor
que tudo fosse esclarecido de uma outra forma. Mesmo que a situação não mudasse
muito em relação a sua vergonha seria mais digno contar o episódio de outro
jeito. E assim não pensou sequer em tentar convencê-la, mas a obrigá-la a dizer
que a havia deixado porque não era virgem. Ela não respondeu nada e ele deu
meia volta para sair. Foi quando parou e tornou a repetir. – Outra história não
pode sair daqui. Se eu souber de algum boato eu volto e mato todas as duas.
Ainda teve voz para perguntar para onde ele ia. – Não interessa respondeu. Para
bem longe de você.
Bateu a
porta com uma força que parece ter estremecido toda a casa. Foi quando Maria
Querência chorou pela primeira vez. Chorou por Jesuíno como nunca chorou por
ninguém. E ficou ali soluçando bem alto a ponto dele chegar a ouvir e parar
para escutar. Depois engoliu em seco e se foi de uma vez.. Não podia voltar.
Nunca mais voltaria.
E Maria
Querência teve que encarar sozinha toda aquela historia. Primeiro com os pais
de Jesuíno. O velho Nicácio Pereira não a perdoou. No outro dia mandou buscar
os móveis, a geladeira, fogão e tudo que havia dado para o casório. Maria
mandou um recado dizendo que podia mandar desmanchar a casa se quisesse. Estava
voltando a morar com a mãe de quem nunca devia ter se separado. Ali sim,
era seu. Dizia isto, mas no fundo achava que o pai de Jesuíno tinha razão,
sobretudo, porque era mais um filho que se metia na lapa do mundo.
Não teve mais
notícia de Jesuíno. Tinha saudade e chegava a chorar muitas vezes até tomar uma
outra decisão louca que sua mãe novamente tentou dissuadi-la. – Eu vou ter um
filho de Jesuíno. – Disse a mãe já decidida. – Você sabe que não pode ter um
filho. – Posso sim. – Respondeu e acrescentou. – Eu vou tirar essa vergonha que
ele disse ter passado comigo. Um dia quando ele cansar ele vai voltar, mãe.
Jesuíno nunca vai me esquecer. E no mesmo dia providenciou uma pequena barriga
postiça e começou a ir a feira assim. A cidade inteira percebeu e começou a
comentar que a mulher de Jesuíno Pereira tinha ficado prenha. Como de costume,
dava pouca conversa e só ouvia aqui e acolá os mexericos a respeito de sua
separação. Uma semana depois sua sogra encostava-se em sua banca e
tentava falar com ela. Maria não se fez de rogada, atendeu Dona Da Luz com sua
discreta simpatia. – Nem se preocupe Dona Da Luz eu estou bem. Fique tranqüila.
– A mulher ainda ficou olhando para ela e em seu rosto ela sentia uma grande
ternura a ponto de encorajá-la a perguntar: - A Senhora teve alguma notícia de
Jesuíno? – Não minha filha – respondeu com a mesma tristeza. – Infelizmente
não.
Quase nove
meses haviam se passado, nesse período Maria Querência viaja duas vezes até
Caruaru. Fica na casa de uma tia e através da prima começa a procurar uma
criança recém-nascida para criar. Tinha que ser sua, mesmo que precisasse pagar
aquele segredo. A prima morria de pena porque sabia que ela não podia ter filho
e não queria que o marido soubesse. Era o que havia lhe contado. Ele não
precisava saber da verdade.
Duas
semanas depois estava voltando com a criança e o bucho vazio. Sua mãe mais uma
vez compartilhava das loucuras de Maria. Só que dessa vez a coisa era muito
mais séria. Até porque a família de Jesuíno havia se chegado, principalmente
Dona da Luz que estava radiante com o neto. Era a cara de Jesuíno! Isso ninguém
podia negar. Menino novo é tudo parecido, dizia isso assim meio sem jeito. Mas
as cunhadas, principalmente, asseveram ainda mais aquela semelhança.
A presença
daquela criança deu sossego aos boatos e Maria voltou a ir a feira menos
enfezada. Mas não mudou o seu comportamento quieto e arredio. Limitava-se a
vender seus produtos e montar no burro de volta pra casa. Foi como levou a vida
por um bom tempo até receber a visita de Dona Da Luz. Jesuíno tinha mandado
notícia. Estava em
São Paulo. Estava muito bem! Mas, tinha se amigado com uma
mulher de lá. A essa altura, passados mais de quatro anos, Querência não
esperava mais que o marido voltasse para ela. Mas a notícia de seu novo
casamento desmontou o seu rosto que empalideceu enquanto as lágrimas desceram
sem controle. Não quis mais ouvir e entrou. D. Da Luz a acompanhou e pediu
muitas desculpas. – Minha filha eu achava que devia lhe contar a verdade. De
repente meu filho aparece aqui com essa mulher e você vai se chatear ainda
mais. – Dizia a sogra tentando acalmá-la. Mas nada tinha mais importância. Tudo
o que fizera foi em vão até mesmo o filho que consegui com tanto segredo não
fora suficiente. Ele nunca mais voltaria para ela.
No dia em que Jesuíno voltou foi
a maior alegria na casa de Coronel Nicácio. O velho não acreditava que
fosse o filho que estava voltando trazendo dentro do carro sua irmã Miquelina e
seu sobrinho. Tinha aproveitado o ensejo para fazer aquela aproximação. Achava
que, principalmente, sua mãe precisava daquela alegria. E foi o que aconteceu.
Dona Da Luz chorou quase meia hora abraçada aos dois filhos, enquanto o velho
Nicácio temperava a goela enquanto limpava as lágrimas que desciam sem
controle. O resto era sentar e saber a novidades. Tinha vindo sozinho. Sua
mulher tinha uma loja e não podia ausentar-se naquele momento. É quando sua mãe
o chama até a cozinha e conta sobre o filho de Maria Querência.
- Não pode
ser minha mãe.
- É sim. E
é seu filho. É um menino lindo e está com três anos agora. Adora andar a
cavalo igual a você quando era pequeno. Tem as mesmas manias.
- Mãe pare
com isso. Esse filho...
Mas não
podia dizer nada e apenas engole em seco e vai para a rua ainda abraçado com a
mãe. – Eu preciso ver uma coisa mãe... – E sai dali em direção à mesma
fazendinha onde tantas vezes encontrou Maria Querência. E lá estava ela, como
se o tempo não houvesse mudado. Viu de longe um menino correndo e imaginou ser
aquela a criança que ela diz ser seu filho. Não acreditava que parava o carro
diante dela sem voltar àquela mesma fúria daquela noite. Não queria lembrar
mais nada. Estava bem. Estava feliz. E vinha apenas tirar aquela história a
limpo. Para Maria aquele encontro era tudo o que havia esperado durante os
últimos quatro anos. Por isso olhava para Jesuíno e via o quanto ele havia
mudado. Estava mais branco, limpo, com outra aparência e ainda mais bonito.
- Como vai
Querência?
-Vou bem e
você?
- Eu estou bem.
Cheguei a pouco tempo na casa de meu pai. Vim aqui para saber de uma história
que me contaram.
- Sobre o
menino.
- Sim.
- É aquele
ali, se chama Jesuíno, igual a você.
- Mas ele
não é meu filho, você sabe muito bem...
- Eu
sei de tudo. Mas é seu filho. É sim. Eu o consegui com muita dificuldade,
sacrifício e segredo, coloquei pano na barriga durante nove meses e fui parir
longe daqui. E todo mundo me viu chegar no ônibus com o menino nos braços e
bucho vazio. Eu fiz isso por você.
- Por que?
- Porque
você não merecia ter sido enganado. E eu o enganei. Não queria que sentisse
vergonha de mim. Queria que dissesse a todo mundo, sem medo, que eu fui sua
mulher e pronto. Você me deixou porque eu não era mais moça. Do jeito que você
determinou. O resto seria um segredo meu e seu.
- E de sua
mãe...
- Ela
morreu faz dois meses.
É quando o
menino se aproxima e pergunta quem é o homem do carro. Querência fica calada
enquanto olha para Jesuíno. Os dois sabem que aquele é o momento e nenhum
outro, para negar ou aceitar aquela mentira. – Eu sou seu pai. – Diz isso e
abraça o menino muito forte. Não podia entender como tinha conseguido amar
daquela forma Maria Querência. E mesmo depois de tudo não conseguia
odiá-la. A raiva havia sumido e sentia um carinho enorme pelo seu jeito bruto
de viver. Saiu dali pensando em sua vida. Uma vida que havia construído durante
os últimos quatro anos longe da autoridade do pai. Estava voltando outra
pessoa. Mais livre e menos preso àquela terra e aquele mundo.
O carro afastou-se
e ela também começou a pensar no que fizera de sua vida. Tinha perdido Jesuíno
para sempre. Mas a verdade é que ele nunca seria completamente seu. Não da
forma como ela queria. Não como ele a imaginou. Tinha enganado a um homem bom.
E chegou a pensar que ele havia percebido a sua mentira. Acreditou nisso.
Talvez ela mesma tivesse acreditado que era uma mulher. Mas nunca tinha sido.
Era uma invenção sua e da velha Bilinha. Era o que queria ser desde pequeno e
só a mãe percebeu e a ajudou mentir para todo mundo. No fundo tinha vontade de
ter uma filha. O marido havia morrido muito cedo e a companhia de Querêncio era
tudo o que lhe restava. Mas não podia criá-lo assim efeminado. Não em um mundo
como aquele hostil e severo. E foi aquela sua vida afastada da cidade que
contribuiu para isso. Ninguém conhecia seus filhos nem sua vida. Criou a menina
Maria Querência e sua decisão foi tão firme quanto os gritos que dera no
sacristão pelo seu bastistério que ele insistia ser de um menino. – Você
está doido! Quer saber mais do que eu que sou mãe. Quer que eu a
traga aqui para mostrar o rabo a você. – E o sacristão morto de vergonha,
diante daquela cena acreditou mesmo que seu finado pai tenha se enganado quando
escreveu aquelas anotações no livro da igreja. Foi assim que Querêncio se
transformou em Maria
Querência e conseguiu subir ao altar. O resto aquela sua vida
bravia foi capaz de moldar uma mulher forte decidida, segura, sem a graça das
outras moças, mas do jeito que Jesuíno a havia amado, sem se importar com seu
pouco busto e com a falta de doçura de seu rosto. Amou uma mulher que idealizou
para cuidar de sua casa e ter uma família. Talvez por isso não a tenha perdoado
naquele primeiro momento. Agora que o tempo havia passado e sua visão do mundo
era diferente a presença daquele filho postiço que ela tinha lhe
arranjado não o afrontava. Era uma prova de que Maria Querência não merecia o
seu ódio para sempre. Mesmo sem saber, havia casado com um homem e agora era
tarde demais para se divorciar.
* Historiador,
Crítico de Arte, acumulando os cargos de Coordenador da Ação Cultural e
Superintendente Executivo da Associação Comercial de Maceió. Com livros
publicados a partir de 1974 – Mona Lisa Um Auto-retrato de Leonardo da Vinci –
pesquisa, em 1979 – Lamento Derradeiro – contos, 2003 – A Construção do Palácio
do Comércio – Pesquisa Histórica/EDUFAL,
Um Amor Além do Tempo – romance/HD LIVROS e 2006 – Doce de Mamão
Macho/CATAVENTO. Articulista de diversos jornais como: Jornal de Alagoas a
partir de 1976, O Jornal entre 2001
a 2005 tendo publicado em fascículo o livro: O Halo da
Besta e atualmente no Jornal Gazeta de Alagoas. Prêmios: Moinho Nordeste – 1979
com o livro – Lamento Derradeiro e
Graciliano Ramos – 2006 com o romance: Pensamentos Mágicos(inédito), ambos da
Academia Alagoana de Letras. Palestras: Diversas palestras sobre História da
Arte e Arte Contemporânea. Corpo docente do Curso Técnico de Guias Regionais do
SENAC desde 1996. Cadeira nº 9 na Academia Alagoana de
Letras.
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