Inferno no céu
* Por
Marcelo Sguassábia
Viver muito pode ser
um privilégio, mas também um castigo pós-morte. A menos que alguma religião
tenha opinião diversa a esse respeito, é de se supor que os mortos cheguem ao
paraíso com a idade cronológica do óbito. Se conservarem a última forma física que
tinham aqui na Terra quando baterem as botas, então o céu deve ser um asilo. E
o asilo celeste ganha gente cada vez mais velha, conforme aumenta a expectativa
de vida do ser humano.
Ora, dentro dessa
lógica, quanto mais miserável e socialmente desassistido um país, mais
interessante será sua versão espiritual. Por mais incoerente que isso possa
parecer. Como esses infelizes morrem cedo, a probabilidade de um paraíso
povoado por defuntos na flor da idade aumenta bastante.
Mortos cheios de vida
também não devem faltar no purgatório e no inferno, pois os devassos tendem a
ir dessa pra melhor em pleno vigor físico, com a maioria dos dentes na boca e
sem sinal de calvície ou de cabelos brancos. Triste injustiça, já que quem
cuida direitinho da carcaça por aqui acaba indo um bagaço pra lá, de tanta hora
extra que acabou fazendo...
Essas constatações
levam a crer que, se a juventude é algo supervalorizado entre os encarnados, no
reino dos fantasmas ela tende a ser ainda mais prestigiada. Imagine o sucesso
que deve fazer um Jim Morrison ou um James Dean em meio a milhares de
octogenárias desdentadas que certamente os abordam a todo instante em busca de
autógrafos. Note que essas mesmas velhinhas teriam sido contemporâneas de Jim e
de James aqui no planeta - tietes de seus discos e de seus filmes enquanto
garotas de carne e osso. A diferença é que os dois ídolos, no caso, foram
embora mais cedo, enquanto suas fãs ficaram vagando inconsoláveis pela Terra
décadas a mais que eles.
Ainda que as dores e
limitações da carne deixem de existir quando se passa para o lado de lá, não é
nada animadora a perspectiva de encarar a eternidade na condição de idoso. A
menos que se aguarde ansiosamente lá em cima a chegada do Pitanguy, com seus
bisturis redentores e alguma nova técnica trazida da Europa.
Para resolver, ou ao
menos minimizar o problema, alguns expoentes da geriatria apontam possíveis
caminhos. Um deles seria o enxerto de células-tronco na face, na pele e no
couro cabeludo de forma preventiva, já a partir dos 50 anos, a fim de que o
decujo chegue apresentável ao reino dos céus. Uma outra corrente de cientistas
trabalha numa solução mais prática, econômica e emergencial, propondo
aplicações de botox alguns dias antes do previsto desenlace. Esta segunda
alternativa, embora mais barata, contempla o risco do botox perder seu efeito
logo no decorrer dos primeiros meses de vida eterna, para desespero dos anciãos
- que passarão séculos e séculos atrás de uma clínica celestial de estética que
lhes forneça uma segunda e milagrosa aplicação.
Entretanto, quaisquer
das duas opções esbarram numa limitação de ordem terrena, nem um pouco fácil de
equacionar: os planos de saúde. Muitos deles desde já consideram inviável a
cobertura tanto do implante das células-tronco quanto do botox pré-óbito. A não
ser que o governo autorize um reajuste nas mensalidades para a inclusão dos
procedimentos.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Nem me fale em reajuste de plano de saúde. O meu subiu, logo após um aumento normal, mais 50% em um mês. É que o grupo paga pelos gastos do grupo, e houve um furo monumental. Quanto ao texto, houve um avanço e tanto, quanto as preocupações pós-morten, sobre a aparência e não o sexo, antes, a única interrogação sobre os anjos.
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