Brevidade
* Por Daniel
Santos
Dormíamos ainda, e o estrondo abalou
todo o vilarejo. De início, intrigados, divisamos um estranho vulto fincado no
terreno e, perplexos, nos dispersamos, quando alguém gritou “é um míssil, vai
explodir!”.
Não explodiu. Peritos atestaram se
tratar mesmo do tal armamento, embora de origem ignorada, ainda mais numa época
sem guerras, e deixaram-no ali como metáfora de que tudo pode estar por um
segundo.
Tentaram nos acalmar (“antigo demais,
não funciona”, disseram), mas durante muito tempo vivemos com a angustiante
sensação dos últimos dias. Faz décadas. Alguns já se mudaram, outros morreram.
E nada!
Hoje, as crianças brincam à sua volta.
Os mais velhos reprovam, porque, de raro em raro, ouvem o tic-tac dentro da
fuselagem – sinistra advertência de que o viver, por mais gozoso, nada pode
contra o destino.
À noite, observamos no céu perigosas
luzes sem revelar direção, mas logo miríades de pirilampos cintilam sobre
nossas casas. Aceitamos a bênção. Afinal, mais breve é a vida, se vivemos no
aguardo do fim.
* Jornalista carioca. Trabalhou
como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da
"Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo".
Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para
obras em fase de conclusão, em 2001.
Verdade, "tudo pode estar por um segundo", ou um fio, como preferir.
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