Para o bem e para o mal
A
capacidade de criar do bicho homem é fantástica, diria, até, que é
infinita. Essa, aliás, é a característica que fez dele senhor do
Planeta, enquanto espécie. Pelo menos em tese, somos (todos) dotados
desse potencial de criatividade. Por que uns o desenvolvem e atuam
como se fossem mágicos, fazendo descobertas incríveis e inventando
coisas que antes de inventadas pareciam impossíveis, enquanto outros
são mais estúpidos do que portas e têm habilidades inferiores às
de um macaco treinado? Há uma série de fatores para que haja essa
diferença, que não cabem na presente análise.
Quando
me refiro à criatividade, sequer estou pensando em literatura e nas
artes em geral. A presença dessa virtude fica implícita nessas
atividades, das quais é condição “sine qua non”. Se você não
criar, não será artista coisíssima alguma e... ponto final!
Refiro-me à aptidão para suprir necessidades básicas e solucionar
problemas desde os urgentíssimos até os que comportem soluções de
longo prazo. Acompanhem meu raciocínio.
Durante
um tempo enorme da sua existência, o homem tinha uma dificuldade que
parecia insuperável para produzir fogo. Não se sabe, óbvio (por
não haver restado o mínimo registro desse pioneiro) quem foi que
descobriu e sistematizou os primeiros, e rústicos, métodos de
produção desse tipo de energia, a calorífica, tão abundante no
universo. Mas foi, é inegável e para lá de óbvio, um salto imenso
na evolução da espécie. Hoje, o homem gera energia utilizando os
mais diversos meios, desde a força das águas ao abundante calor do
sol.
Para
abrigar-se, a espécie dependeu, sabe-se lá por quanto tempo
(provavelmente por dezenas de milhares de milênios) de cavernas
naturais, que tinha que disputar com outros animais que lhe eram
muito superiores em força e ferocidade. Hoje, constrói torres que
são autênticas cidades verticais, com mais de meio quilômetro de
altura, dotadas de todas as facilidades proporcionadas pela
sofisticada (e miraculosa) tecnologia contemporânea.
Para
comunicar-se, nosso remoto ancestral primeiro teve que desenvolver
linguagem oral. Há evidências que não sabia nem falar. E
desenvolveu isso mediante variedade de sons produzidos pelo seu
aparelho fonador e cujas combinações consolidou e tornou comuns,
mediante convenção, dando nome e identidade a cada objeto ao seu
redor. Milênios mais tarde, sofisticou as coisas ainda mais, criando
um sistema de escrita, uma das maiores revoluções, base da
civilização como a conhecemos. E hoje? É preciso citar as
facilidades e maravilhas ao nosso dispor, tornando um Planeta até
não muito tempo atrás enorme (que para muitos parecia infinito)
numa aldeiazinha global em que, estando no Brasil, em fração de
minutos posso comunicar-me com outra pessoa no Japão, como se
estivéssemos cara a cara, por e-mail ou até mesmo pelo celular?
Claro que não!
Sequer
é necessário mencionar todas as facilidades que a tecnologia nos
proporciona, para tornar nossa vida mais fácil, mais confortável,
mais segura e mais extensa. Evoluímos, mediante a criatividade, em
todos os campos e direções: na medicina, na engenharia, na
indústria, nos transportes, etc.etc.etc. Tudo estaria perfeito se a
capacidade humana de criar fosse utilizada, apenas, em sentido
construtivo, evolutivo, ou seja, para o bem. Mas não é. Também no
campo da criação há a luta incessante entre os dois instintos
básicos do homem (como, ademais, os de qualquer outro animal): o
erótico, de autopreservação e preservação da espécie e seu polo
oposto, o tânico, de destruição.
É
desnecessário, também, mencionar os inúmeros e sofisticados
artefatos inventados e aperfeiçoados a limites extremos, cuja única
finalidade é a de destruir, de eliminar, de matar. Há, ainda,
armazenados em milhares de silos espalhados pelo território de pelo
menos seis dos membros do infame “clube atômico” , bombas e mais
bombas nucleares, em enorme profusão, suficientes para destruir por
completo pelo menos uma centena de planetas do porte da Terra. O
engraçado é que as sociedades que detêm essas armas (e as que não
as detêm) acham sua existência e posse “normais”. Normais como,
cara pálida?! Trata-se de brutal insanidade, de absoluta loucura,
mas...
Voltando
à abordagem inicial, constatamos que há pessoas que têm potencial
imenso de criatividade, mas que o desperdiçam por falta de
disciplina, método e comprometimento com o que quer que seja. Se
essa aptidão for para criar artefatos de destruição, é até uma
bênção que permaneçam obtusas e estúpidas como uma porta.
Muitas, no entanto, poderiam ser magníficas cabeças pensantes que,
se desenvolvessem sua capacidade criativa para o bem, poderiam
resolver os milhares (não seriam milhões?) de problemas ainda
pendentes que ameaçam e tornam difícil a vida humana.
Alguns
indivíduos mal instruídos ou mal educados acham que lhes basta mera
“inspiração” para inventarem máquinas, princípios, ideologias
ou, até, para comporem simples poema. Estão equivocadas. A
capacidade de criar só pode ser plenamente desenvolvida e exercida
com disciplina, concentração, estudo e trabalho. Requer, além
disso, meticuloso planejamento e rigor na execução do que foi
planejado. E mesmo com tudo isso, o resultado será sempre incerto.
Sem essas virtudes, porém, não haverá resultado algum.
Albert
Einstein, tido e havido como gênio, criador, entre outras coisas, da
“Teoria da Relatividade”, afirmou em seu livro “Como vejo o
mundo”: “Fazer, criar, inventar exigem uma unidade de concepção,
de direção e de responsabilidade”. E, convenhamos, ele sabia o
que dizia. Seu currículo, ou seja, suas realizações depunham, por
si sós, e enfaticamente, a seu favor.
Fica,
pois, um conselho óbvio a você, leitor (e que serve, evidentemente,
para mim e pára qualquer pessoa): Não desperdice seu talento por
mera negligência, ignorância e, principalmente, preguiça
Aplique-se, concentre-se, estude e trabalhe, sem esmorecimento ou
desânimo. Essa recomendação vale quer você seja artista, quer
cientista ou quer mero artesão Justifique sua passagem (aliás,
brevíssima) por este estranho (exótico?) Planeta. Afinal, a vida é
oportunidade única, sem nenhuma chance de reprise. Mas desenvolva e
aplique sua criatividade apenas para o bem. Não seja agente de
Tanatos, que sequer precisa de asseclas em sua tarefa de arrasar tudo
e todos, de células a civilizações, planetas, estrelas, galáxias…
Boa
leitura!
O
Editor.
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