Homenagem
à Vó Tinhoca
* Por
Marcelo Sguassábia
A
Vó Tinhoca era uma velha muito da xexelenta e da maledicente. Do
tipo ranzinza que ronca e fuça, que estorva e bisbilhota onde não é
chamada, onde não é desejada e muito menos útil. Seria em seu
tempo o que hoje designamos “mala”. Uma mala gasta, feia e
abarrotada de tudo o que possa existir de odioso na face da terra.
Nascida
Antônia Leocádia di Piero Vantruz, nossa homenageada viveu 97
longos anos a serviço único da fofocaiada rasteira, incumbência a
que se entregava com prazer e sofreguidão. O boato era sua vida e
sua cachaça, e a esse vício era de tal forma dedicada que abdicou
de marido e filhos para fazer dele o seu sacerdócio.
Filha de Maria, ostentava uma beatice de fachada, mas que lhe valia certo verniz de honorabilidade e lhe franqueava o ingresso a alguns salões mais exclusivos e bem frequentados, de onde retirava valiosa matéria-prima para produzir injúria.
Filha de Maria, ostentava uma beatice de fachada, mas que lhe valia certo verniz de honorabilidade e lhe franqueava o ingresso a alguns salões mais exclusivos e bem frequentados, de onde retirava valiosa matéria-prima para produzir injúria.
Não
obstante a manipulação sacrílega que fazia da religião, tinha lá
seus santos no oratório doméstico, e era bom mesmo que tivesse para
se aliviar de tantas e pesadas culpas. Mas quem conheceu a velha a
fundo jura que ela abusava de São Tomé e de São Jorge para coisa
bem diversa da remissão dos pecados e do alívio da consciência. Na
verdade, apoquentava as figurinhas de gesso com promessas para
descobrir segredos de alcova da vida alheia, escândalos iminentes,
calotes insuspeitos, amores clandestinos, passos em falso de figuras
ilibadas da sociedade jacutirense. A delícia da desdentada era dar
com a língua na banguela, destilando febrilmente seu veneno nas
casas de comadres, em infindáveis diz-que-diz-ques guarnecidos por
suspiro e suco de pitanga. A velha era uma “véia”, e é preciso
que se diga que entre velha e “véia” há uma colossal diferença
de sentido. Quem é da região do Vale do Jequitinhonha, berço e
túmulo de Tinhoca, sabe bem do que estou falando.
O
fato é que nossa heroína ia aniquilando reputações de casa em
casa, os olhos esgazeados e a boca murcha, com batom fora do
contorno, tremendo de gozo a cada vez que explodia a “bomba” da
ocasião no ouvido alheio. Feito o serviço, ria seu riso rouco e
desafinado de bruxa da carochinha, sacudindo os peitos derrubados
debaixo da papada gorda e cheia de dobras.
Tamanha
era a ânsia em passar adiante a fofoca fresca que ela, com a jugular
pulsando e a respiração entrecortada, respingava doses cavalares de
saliva sobre o ouvinte, o que lhe granjeou, além da mais do que
justificada fama de candinha, a alcunha de “Tinhoca Chuvisco”.
Dependendo do teor da novidade, Tinhoca era um verdadeiro aspersor,
capaz de estancar a seca do sertão com meia hora de mexerico.
Dito
isso, você, leitor complacente, me pergunta: “Sim, mas e daí?”
E
daí que era só isso o que eu queria, pintar um retratinho pálido e
despretensioso da velha Tinhoca, essa verdadeira indústria de
calúnia e difamação. E homenageá-la falando um pouco mal dela,
que é o que ela mais gostava de fazer com todo mundo. Mas, pelo amor
de Deus, que isso fique só entre a gente, heim? Não vai espalhar.
*
Marcelo
Sguassábia é redator publicitário. Blogs:
WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e
WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Uma Tinhoca com um retrato tão bem feito que deu para espremer cravos na cara dela, de tão nítido, e em close que foi.
ResponderExcluir