Espontâneo é melhor
A
atividade artística, notadamente a literária, tem, como premissa
fundamental, a liberdade de expressão. Não comporta, pois,
direcionamentos de temas, pautas, censuras e nada que atrapalhe, ou
impeça, o escritor de expressar o que pretenda em seus textos com a
máxima fidelidade e clareza. Arte e Moral são compartimentos
distintos e nunca (ou raramente) andam juntos.
O
único juiz, implacável e exclusivo, o que decide de fato o sucesso
ou o fracasso de quem se aventure neste campo é, e sempre deve ser,
o leitor. Apenas a ele cabe julgar o que acha bom ou o que entende
que seja ruim, deficiente, mal escrito e mal expresso. Afinal, é ele
que compra livros e movimenta a vasta indústria editorial.
A
única censura pertinente é a do próprio escritor. Este precisa
contar, sobretudo, com bom-senso na escolha do que e de como irá
escrever, para não cair, eventualmente, em ridículo publicamente.
Compete-lhe escolher livremente o tema que queira abordar, a forma de
explanação e a linguagem a utilizar, de conformidade com o seu
estilo e de acordo com o grau cultural do segmento a que seu texto se
destine. Mas precisa estar ciente de que será, sempre e sempre,
julgado pelo leitor. Em caso de agradá-lo, será premiado com a sua
fidelidade. Se não...
Todavia,
o escritor tem que respeitar, sem nenhuma exceção, os cânones do
idioma. Neste caso, não se trata, sequer, de nenhum cerceamento à
sua liberdade de expressão, mas de premissa básica e lógica para
quem aspire a essa condição. É para lá de óbvio para qualquer um
que ninguém jamais será escritor caso não saiba o que é primário
e elementar: ou seja, “escrever”.
O
objetivo primordial da literatura é o de comunicar – pensamentos,
sentimentos, observações ou seja lá o que for – a alguém. Não
se trata, pois, de nenhum exercício de exibição de erudição e
nem de mera feira de vaidades. Quanto mais perito for o escritor, na
captação da atenção do leitor e na conquista da sua empatia e
cumplicidade, maior será seu sucesso nessa atividade.
A
liberdade para a escolha do quê, como e quando escrever, reitero, é
um dos fatores que contribuem para garantir a qualidade de uma boa
obra literária. Claro que não é o único e talvez nem seja o
fundamental. Mas que ajuda, disso não tenham dúvidas. A
espontaneidade na criação é muito importante.
Um
escritor, meu amigo, passou pela experiência contrária, ou seja, a
de ter que escrever com prazo marcado, a toque de caixa. Premido por
dificuldades financeiras, fez um acordo com sua editora para receber
adiantada parcela expressiva dos seus direitos autorais. Isso, antes
mesmo de haver escrito o livro. Foi-lhe imposto um prazo de seis
meses para entregar a obra acabada, revisada, prontinha para seguir
para a impressão.
Ele
nem se abalou. “Em seis meses, escrevo um tratado de mil páginas”,
raciocinou. Todavia, por uma dessas artimanhas do acaso, entrou num
período temido por todos os artistas, o de “crise de
criatividade”. Sentava-se junto ao computador e ficava horas
olhando para a telinha, sem que lhe viesse uma única idéia
aproveitável. Passados dois meses, começou a lhe bater o desespero.
E quanto mais desesperado ficava, menor era a sua “inspiração”.
Sua autoconfiança, ademais, fora para o espaço, estava a zero.
Resolveu
mudar de ambiente, na tentativa de se concentrar melhor e produzir o
tal livro, do qual já estava pegando ódio, antes de ser escrito
(ou, justamente, porque não conseguia escrevê-lo). Em vão. As
ideias teimavam em não vir. Como havia ido para um vilarejo deserto,
com uma praia sensacional, distraiu-se com a paisagem, deliciou-se
com os banhos de mar e praticamente esqueceu a razão de estar ali.
Lá
um belo dia, num final de tarde, relaxado após longo e prazeroso
passeio pela praia, resolveu escrever a primeira coisa que lhe viesse
à cabeça, publicável ou não, sem nenhuma preocupação. “Às
favas com o livro”, pensou. À medida que ia escrevendo, as idéias
foram fluindo, a princípio suavemente, como as águas de um riacho
e, depois, com vigor incontrolável, como as cataratas do Iguaçu.
Ao
reler o que havia escrito, com intenção de deletar em seguida,
percebeu, surpreso, que até sem querer, havia escrito o tal livro.
Foi só esquecer a pressão para que seu talento inegável
prevalecesse. Entregou a obra prometida no prazo acertado com a
editora e esta foi um grande sucesso. Todavia, até
inconscientemente, todas as vezes que meu amigo escritor fala dos
seus êxitos literários, omite o tal livro (por sinal, um dos
melhores que já li de autores nacionais).
Confesso
que, vira e mexe, passo por situações semelhantes. Basta que alguém
me imponha um tema ou uma data específica para a entrega de uma
crônica, um ensaio ou um conto, para a atividade de escrever, que
tanto amo, deixar, subitamente, de ser um prazer, algo delicioso e
lúdico, para se transformar numa tarefa chata, num dever a cumprir,
numa enfadonha obrigação.
Apesar
de invariavelmente elogiados, não gosto dos textos que produzo
nessas circunstâncias. Eles me parecem sempre artificiais, forçados,
“falsos”, embora quem os leia não perceba nada disso e se
desmanche em elogios. Não me refiro, aqui, à produção
jornalística, muito diferente da literária. Em jornalismo, sim,
prazos e temas prefixados são a rotina. Em literatura, todavia, isso
é um “veneno” à criatividade.
Não
sei se com vocês, caros amigos escritores, ocorre o mesmo. Mas isso
é para lá de comum com os colegas do ramo com os quais tenho
abordado o assunto. Para evitar essa pressão, antecipo-me a
quaisquer cobranças. Aproveito os momentos de “fúria produtiva”
para produzir uma quantidade imensa de crônicas, ensaios etc. Quando
alguém me pede um texto, digamos, para amanhã, não me aperto.
Tenho uma quantidade enorme deles em estoque, todos escritos com
prazer e alegria.
Reitero
que escrever, para mim, é muito mais do que a minha maneira de
ganhar o “pão nosso de cada dia”. É tão necessário e natural
como comer, beber ou respirar. Mas esse prazer se torna um delírio
apenas quando se dá espontaneamente.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Comigo acontece coisa semelhante.Escrevo duas crônicas por semana, mas trabalho em consultório oito horas por dia. À noite, como sou viciada no Facebook, gasto um bom par de horas com ele, e o tempo vai se esgotando.Para mim o mais difícil é definir o assunto. Quando está escolhido, aí vai rápido. A falta de tempo é inimiga da criação.
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