Inconstância
constante
O escritor Jonathan Swift escreveu que
"nada é mais constante neste mundo do que a inconstância". As
palavras não são exatamente estas, mas o sentido é. A vida de um homem é uma
obra inacabada, tenha ele a idade que tiver. Está em permanente construção. E
muitas vezes quando a "obra" está acabada, quando vai colher os
frutos da semente que plantou, a morte o colhe de repente, sem aviso prévio.
Ao longo de nossa trajetória todos
temos altos e baixos (a maioria mais estes do que aqueles). Há os que se
desesperam diante dessa inconstância e recorrem às drogas para se alienar, para
fugir de uma realidade que consideram adversa. Outros conformam-se e
simplesmente deixam de lutar. Entregam-se à "correnteza" e deixam as
coisas simplesmente acontecerem, sem interferir no próprio destino ou
interferindo o mínimo possível.
Existem, no entanto, os determinados,
os perseverantes, os que não aceitam derrotas enquanto tenham o mínimo sopro de
vida. Mas adotam a estratégia da prudência para atingir seus objetivos. Recuam
quando isso é necessário, para reunir forças, experiência ou sabedoria
necessários a novos avanços, nos momentos oportunos. Apenas a determinação,
embora importante, não basta para que atinjamos nossos objetivos, a menos que
estes sejam medíocres demais e não exijam muito ou nenhum esforço. É preciso
saber a hora de fazer as coisas.
Os sábios sabem administrar a
inconstância e não se desarvoram com os períodos de baixa. Nessas ocasiões,
reúnem forças para que a subida seguinte seja mais intensa, mais vigorosa, mais
duradoura. Os que mais sofrem, e findam por se perder, são os vaidosos, os
ególatras, os que não admitem que não sejam o centro do universo e das atenções
dos que os cercam.
São dignos de pena. Têm uma visão
distorcida da vida e dos objetivos da existência. São vulneráveis exatamente
por sua vaidade. Tratamos, em crônica recente, da questão da fama e dos que não
sabem administrar essa notoriedade que tanto procuram. Quando a perdem,
tornam-se amargos, frustrados, revoltados e até perigosos.
Julgam-se injustiçados, perseguidos,
sabotados. Tornam-se paranóicos. Todos conhecemos alguma pessoa assim. São as
que, no afã de ser felizes, mas sem competência para conquistar essa situação,
mergulham de cabeça na infelicidade.
Tempos atrás, ao escrever matéria sobre
os dez anos da explosão do ônibus espacial norte-americano Challenger para o
jornal em que trabalhava, pude refletir sobre a inconstância em minha
profissão. Para redigir o referido texto, tive que recorrer ao arquivo.
Utilizei as páginas sobre o mesmo assunto que editei há uma década.
Na ocasião, mesmo sem a experiência e o
conhecimento que tenho hoje, eu era considerado um "nome" no
jornalismo da cidade. Minhas opiniões, publicadas diariamente, eram temas de
conversas nas rodas de intelectuais. Vivia assediado para fazer palestras,
participar de jantares e tomar parte em outros tantos eventos.
O tempo passou... A maré da vida
baixou... Não tardou para que esse mesmo Pedro, melhorado pela vivência e conseqüente
experiência, não passasse de um funcionário a mais de uma enorme equipe, no
exercício de uma função virtualmente burocrática, que não condizia com seu
preparo. Claro que essa situação foi um golpe para o meu ego. Mas nem por isso fiquei
frustrado. Pelo menos, não muito.
Decidi executar a tarefa que me foi
destinada com empenho e dedicação, como se fosse vital para o jornal e para a
comunidade. "Só quem é fiel no pouco, consegue sê-lo no muito", diz
um preceito bíblico. E não posso nunca me esquecer que sou dispensável.
Felizmente, ninguém é insubstituível. É certo que algumas dessas substituições
representam retrocesso qualitativo. Mas quem é que liga?! O mundo não pára
somente por isso.
Costumo ficar atento no
"acaso". Alguns, chamam-no de "destino", outros, de
"sorte", mas o nome é o que menos importa. Sua manifestação é que é
importante. Sua ação pode nos colocar no centro dos acontecimentos e nos
transformar instantaneamente em heróis imortais ou nos suprimir a vida.
Sob sua influência podemos nos tornar
ricos, poderosos e famosos ou cair na indigência, na humilhação, no ostracismo.
Esse fator aleatório é o que propicia ou suprime oportunidades.
Portanto, há imensa sabedoria na
observação de Swift, como ademais em tudo o que esse escritor nos legou. A
inconstância é rigorosamente constante. Convida-nos a sermos prudentes e a
tratarmos os que nos rodeiam com bondade e gentileza, sejam eles quem forem.
Os que maltratarmos na subida, serão os
mesmos que nos pisarão a cabeça quando da descida. Quem sabe o que quer, quem
traça um roteiro para a sua vida e é maleável para modificar o rumo quando for
necessário, quem tem energia para produzir, talento para criar e autodisciplina
para evoluir espiritualmente, não tem o que temer.
Pessoas com esse estofo jamais irão
empinar o nariz, achando que são melhores do que as outras. Nunca irão se
deixar levar pelos louvaminheiros de plantão. Em circunstância alguma assumirão
ares de superioridade diante de quem quer que seja. Saberão colher
estrelas-do-mar na areia, quando as marés baixarem. Navegarão com audácia
quando elas subirem. Serão, mesmo que os outros não admitam de imediato,
vencedoras. Conquistarão um lugar cativo no coração do seu povo.
Boa
leitura.
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Acaso ou imprevisibilidade? Gostei e concordei com sua afirmativa de o nome não é importante, e sim o seu efeito. Em geral, esperamos que o acaso nos seja favorável.
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