Fotos: Pedro Bersi
Liberdade
* Por
Urda Alice Klueger
Para
o Penha, o Pedro Bersi e toda a família do seu Cláudio)
Faz poucos dias que
estive lá de novo, um dos lugares do mundo onde sempre volto, o Costão do São
Roque (Penha/SC), lugar que povoou de magia a minha adolescência. O costão
abrupto, terminando lá na água em todo o tipo e tamanho de torres e torrezinhas
de pedras negras envoltas na espuma branca do mar, tão virado para o sul que o
açoite dos ventos que veem daquele lado poda e domina a vegetação que se atreve
a nascer acima dele, sempre foi, pra mim, uma realidade tão irreal que sempre
me pareceu cenário de filmes feitos em lugares desconhecidos e distantes, não
um lugar de verdade, mas algo nascido da Literatura e da Imaginação.
Na minha adolescência,
lá havia duas casas humildes e o ranchinho do seu Penha. As casas eram do seu
Emílio e do seu Rodolfo, irmãos, ambos com famílias numerosas, e elas não estão
mais lá, nem mesmo estão mais lá as marcas de que um dia existiram. Sei que seu
Emílio e sua gente um dia vieram embora para um subúrbio de Blumenau, mas da
gente do seu Rodolfo nada sei.
Se as casas cheias
daqueles dois moradores desapareceram sem deixar vestígios, que dizer do ranchinho
do Penha? Era um ranchinho de nada, com paredes de casqueiro e telhado de
palha, com uma porta que decerto se fechava com uma tramela. Nunca entrei lá,
mas o que poderia ter ali dentro, em espaço tão exíguo? Decerto havia um lugar
de dormir, um lugar de acender foto, um lugar de comer... mais que isso não
caberia. Tudo deveria ser da maior rusticidade e simplicidade possíveis – um
cercadinho de pedras para o fogo, uma panela ou duas, caetés secos formando um
colchão, quem sabe um cobertor, um balde de madeira, que ainda não chegara o
tempo do plástico, para um pouco de água colhida num poço junto ao brejo
próximo, onde nasciam as taboas – muito mais que isso não existiria ali.
E havia o Penha, que
me parecia um homem velho – mas como eu tinha apenas 14 anos, na época, quem
sabe lá a idade do Penha? Talvez tivesse apenas 40 anos, talvez 30... Tudo é
tão relativo em se tratando de idade!
E o Penha vivia ali
naquele ranchinho, sujeito ao vento sul batendo de chapa e entrando pelas
frestas das suas paredes de casqueiro, naquele cenário cinematográfico, dia
após dia, os anos inteiros, e quando a fome apertava ele esperava a maré baixar
e descia um pouco o costão e tirava mariscos para cozinhar numa daquelas
panelas dele – quem poderia ser mais livre do que o Penha?
Quando ele saía a
andar pelos velhos caminhos da Praia Grande do Itapocoroy, ou pela Armação
contígua, sempre havia alguém que o chamava:
- Penha, entra aqui na
venda! Vem tomar uma caninha!
- Penha, quer almoçar
conosco?
- Penha, quer levar
uma cuia de farinha?
E o Penha andava
alegremente pelas ruas pouco povoadas, onde viviam seus vizinhos distantes, e
era alegre e sorridente, e nunca o vi sem estar assim. Ia e vinha quando queria
e toda a gente gostava dele. Nunca soube se em algum lugar tinha uma família, nem
se tinha sobrenome, nem mesmo se aquele era mesmo o nome dele. Ser o Penha
bastava a ele e bastava a todo o mundo, e lá ia ele sorrindo, perfeitamente
dono da sua liberdade! Nunca mais conheci alguém tão livre quanto ele!
Um dia, depois de
muito tempo, quando voltei ao Costão do São Roque, já não havia mais casas e
nem aquele ranchinho, e deixei de ter qualquer notícia do Penha. Já faz tanto
tempo que penso que ele não pode sequer estar ainda vivo.
Fiquei a lembrar dele,
semana passada, quando de novo estive naquele costão, hoje totalmente despojado
de humanos. Onde estaria o Penha e a imensa liberdade do Penha? Por que eu não
poderia ter a mesma liberdade que ele? Para que preciso de casa, carro, e toda
uma parafernália que a vida moderna enfia dentro da casa e da vida da gente?
Todas essas coisas que tenho me atrapalham, me impedem de ter a liberdade que o
Penha tinha. Por que eu não posso viver num ranchinho de casqueiros, com um
leito de caetés secos, um cobertor para as noites de vento sul e aquele cenário
cinematográfico para buscar alguns mariscos quando tivesse fome? Nem computador
a gente precisa: para escrever, basta um caderno e uma caneta, como era
antes... Que saudade que me deu, Penha, e que fome de Liberdade!
Blumenau, 15 de maio
de 2015.
*
Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR,
autora de mais três dezenas de livros, entre os quais os romances “Verde Vale”
(dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).
Já me assaltou a mesma ideia. Vontade de me livrar de todos os anexos, e ficar apenas de short, camiseta, sandálias e um cartão. O da aposentadoria. Para que mais? Terei de lutar muito para vencer a dependência do computador e da internet. Sei que mesmo que quisesse, jamais seria tão livre quanto Penha.
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