Quem
solta o verbo demonstra que o preconceito é uma prisão
* Por
Mara Narciso
A moça é bonita, bem
tratada, com os cabelos arrumados num corte avançado, diferente, com brilho e
estilo marcantes. É castanho e meio curto, quase chanel, com leves mechas
claras esparsas em suas pontas. Morena, estatura mediana, magra, com braços
fortes e torneados, a cabeleireira demonstra habilidade com o secador de
cabelos. É uma exímia fazedora de mágicas nos próprios e nos cabelos alheios.
Risca a cabeça das clientes com o pente, separa as mechas, prega-as com
pregadores tipo piranha, e vai secando parte por parte, transformando os
cabelos sem vida em viçosos, mortos em vivos, rígidos em flexíveis, opacos em
brilhantes, feios em belos e ondulantes. Em 40 minutos, nos longos e nos
curtos, opera o milagre, ligando e desligando seu aparelho de trabalho, um
secador barulhento e consumidor de energia.
Singela e discreta,
sua linguagem sugere uma origem simples. O ambiente em que está é um salão de
beleza em bairro nobre. A roupa que veste e toda a sua aparência, como a pele
sem manchas e as mãos bem tratadas, conflitam com o modo de se expressar.
Poucos ouvidos percebem, tal a simpatia e capacidade de trabalho da moça, que
conta aos poucos, pedacinhos da sua história.
Explica que a sua
família hoje pode ser considerada rica, pois tem tudo. Anos antes, quando a sua
mãe morreu aos 39 anos, de um câncer no estômago, dois meses após o
diagnóstico, tudo desabou. A pobreza, a falta de oportunidade e de capacitação
para executar outros trabalhos eram obstáculos difíceis, quase impossíveis de se
vencer. Hoje, quando invejam seus braços firmes, musculosos e bonitos,
perguntando em qual academia faz musculação, mal imaginam como foi dura a sua
vida como trabalhadora braçal no meio do mato, se levantando antes do sol
nascer, arrumando a comida simples numa marmita, e tendo de se acostumar a
comer comida fria e coagulada, por dois anos. Colhia café debaixo do sol forte.
O pai ainda vive por lá, numa pequena propriedade.
Com a família
esfacelada, a única irmã mudou-se para São Paulo. Os irmãos acabaram indo
embora também, um deles para Montes Claros. Foi morar com este, que logo se
casou. Ainda solteira, é apaixonada pelo sobrinho de quatro anos, com o qual
brinca todos os dias após o trabalho. O menino a espera para usufruir da sua
companhia e carinho. “Eu amo aquele menino!”, ela diz. Na época em que chegou,
precisou ser cuidadora de uma velha senhora sem memória. Simultaneamente, fez o
curso de cabeleireiro no SENAC, na ocasião, por um custo proibitivo de mil e
quinhentos reais. Todo o material usado no curso foi comprado por ela, já que
as vagas com produtos incluídos eram poucas e por concurso e ela não teve
acesso a elas. Foram dezoito meses de aprendizado.
Nesse meio tempo, a
senhora portadora do Mal de Alzheimer faleceu, e ela, pela proximidade com os
donos, foi trabalhar numa padaria, onde aprendeu o ofício de caixa, mas não
chegou a fazer o curso de informática. Assim, trabalhava dois expedientes, um
na padaria e outro num salão de beleza, durante anos. Lá ficava mais na química,
na escova progressiva, enfeitando as mulheres da alta sociedade. Cresceu
profissionalmente, enquanto aprendia incansável na sua sede de fazer bem feito,
de assimilar tudo de positivo que cruzasse seu caminho.
Agora suas mãos são
finas, em comparação com o tempo da lavoura. Seu cheiro é de cosméticos e de
xampu, trabalha com clientela mais rica, seu ambiente é de ar-condicionado, com
televisões de tela plana, serviço de segurança, câmeras, portão fechado e uma
grade de onde se pode ver a rua e abrir ao cliente com menor risco de assalto.
A vida está mais leve. Diz ter vontade de se casar, de ter filho, mas por
enquanto vai de sobrinho mesmo, levando seu bom trabalho de cabeleireira. Com
um sorriso amplo que a todos compra, com meiguice e delicadeza, os verbos não
tão bem conjugados desaparecem, para deixar à mostra como pode ser cruel o
preconceito. Porque ridículo e burro tal sentimento sempre será.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Bela história de superação e de coragem para vencer obstáculos. Sucesso à nossa amiga cabeleireira!
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