Meu carrasco, meu herdeiro
* Por
Marcelo Sguassábia
Ser o moleque de
recados do maior agiota da cidade: o Criador não tinha posto ele no mundo para
suportar essa vida por muito tempo. O boy de Villa Antiga montava em mula para
as cobranças, e difícil era a vez que não voltava com o olho roxo ou o lábio cortado.
Já andava cheio o embornal de desgostos, estava até a tampa de desaforo
engolido. Não mais, agora é minha vez - decidiu. Entregou a mula e as
promissórias resgatadas do dia ao tirano Tonzezão, que emprestava sem muita
exigência de garantia, mas sabia buscar a mãe de quem não tinha mais nada.
Chega de ser leva e traz, se entrasse em séria luta corporal com o destino
poderia juntar para emprestar aos outros e ter o seu próprio moleque, correndo
rua e dando a cara pra bater.
Só que não queria
virar um Tonzezão mais novo, sem barriga, sem artrose e sem cabelo branco -
tiraninho Tonzezinho metido a besta, coletor de suor alheio. Já conhecia bem a
manha de ganhar dinheiro assim, mas não. Produzir e vender era mais decente que
emprestar cinco e tomar vinte de volta. E sucedeu que foram anos sem lembrar o
que era dormir e jogar conversa fora de domingo, porque todo dia era feito para
gramar até que o negócio que abriu fizesse o favor de dar lucro. E como deu. A
prosperidade veio e começou a ganhar barriga, artrose e cabelo branco como o
Tonzezão dos velhos tempos, só que em paz à noite com o travesseiro. Rico pelo
merecimento de trabalhar direito, não de tirar de quem quase não tem.
Sua filha Cândida, a
linda. Por 19 anos conseguiu guardar bem guardada a estonteante fêmea em casa
antes de entregá-la a Orêncio, num rega-bofes que a Villa Antiga, agora
promovida a Vila Nova, não ia esquecer tão cedo. Bolo cortado, foto tirada,
buquê jogado e gravata de noivo retalhada, foram pra lua de mel que seria linda
como a noiva, se o avião não tivesse caído.
Acabado o luto,
canalizou o bem querer para o Laércio, sobrinho um pouco distante na geografia
e na árvore genealógica, mas o único. O velho, agora megaempresário e prefeito,
morreu fazendo a sesta após pesado almoço em companhia do sobrinho, na casa
grande de uma de suas fazendas. E Laércio se viu dono de tudo, sem esperar e
nem saber o que fazer com tanto patrimônio.
Deslumbrado e perdido
ao mesmo tempo, fez rapidamente da namorada Sofia sua sócia nos negócios. Ambiciosa
e cheia de má intenção, fingia-se de boazinha e só precisou de dois dias para
fazer o serviço sujo. Na sexta, casou-se com Laércio. No sábado, envenenou o
coitado e, mancomunada com um legista sem vergonha, arrumou atestado de óbito
onde constava a salmonela da maionese de casamento como causa mortis.
A nova herdeira de
tudo, que do velho patriarca não tinha nem o sangue e nem o caráter, gastou
três anos comprando o que via pela frente. Até que uma bala perdida veio se
alojar na sua cabeça, enquanto veraneava em Cartagena. O patrimônio caberia,
por direito, aos três irmãos da golpista. Ainda no meio do inventário, um
grande banco caiu em cima do montante, por conta de uma dívida impagável em
nome do trio. E lá se foi a herança para o banqueiro, neto do bom e velho
Tonzezão.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Humor negro para ninguém botar defeito. A queda do avião chegou rápida feito foguete. Fez-se justiça invertida. Como se diz: o rio corre para o mar.
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