Sujeito Zero (19)
*
Por Sergio Vilas Boas
Acabaram
de mandar Fernando
Collor de Melo para o espaço. Ah, que coisa, Seu Edmundo ainda não
podia (ou não conseguia?) possuir um telefone em casa. Ele bate
novamente no portão de Beatriz com os dedos grudados. Faz mais força
com os bíceps do que com a mão, tenta amortecer a pancada e o
incômodo que a batida pode causar em Beatriz, principalmente depois
que Nádia corre para atender e grita aquele “maaaaaaãe”
infantil maçante, idêntico ao de Bruna com os mesmos sete anos!
Beatriz
chega ansiosa, enxuga a mão no avental jeans costurado à mão por
ela mesma. Solícita, mantém sua angelical expressão singular.
Beatriz
é atarracada e morena. Os olhos arregalam quando fala e a testa
franze enquanto escuta. A voz rouca e áspera não tem nada de
malícia ou gravidade. Ao contrário, combina com seu jeito mole de
articular as palavras. Beatriz aparenta mais jovem quando os cabelos
secos, negros e longos são presos em rabo longo de cavalo. Parece
índia.
-
Estou precisando fazer uma ligação pro meu trabalho. (Diz
Seu Edmundo.) O
telefone público do Bar do Joaquim não está funcionando.
Acende
um cigarro. Pode não ajudar nada, mas precisa de um agora.
Acaricia os cabelos despenteados de Nádia, que sorri afetiva antes
de recobrar o olhar frouxo e sem pontaria. Seu Edmundo traga fundo
seu Derby.
Beatriz
sutilmente reclama do preço da conta de telefone. Seu Edmundo se
ressente.
-
Não, não, o que é isso, o senhor pode entrar e ligar pro seu
trabalho. Foi o modo de dizer.
Seu
Edmundo releva.
-
Não repara a bagunça, por favor, Seu Edmundo. Para variar, estamos
em obras de novo. A poeira é invencível. Nádia acompanha o senhor,
mas tira o dedo do nariz, menina!
Beatriz,
com seu passo de pingüim, curto e ágil, retorna à cozinha,
passando por um corredor oposto ao que conduz à porta da sala. Os
chinelos de couro aos poucos fogem do raio de audição de Seu
Edmundo e Nádia.
Ele
deixa a menina mais à vontade e derretida, com rosto de quem espera
um chocolate ou, no mínimo, uma adulação.
Parecia
haver na casa de Beatriz uma fúria construtiva:
uma parte da casa está obstruída por escoras de madeira sustentando
o encontro de duas lajes. O chão respingado com nata cinza de
cimento escorrida das frestas da armação que formata a viga ainda
úmida. Algumas paredes sem reboco estão mofadas. Um pouco da
água do último temporal continua empoçada perto do vão de uma
futura janela. Há móveis amontoados, material de construção
estocado; montes de tacos de peroba esperando marteladas e pregos em
L; cheiro de cimento misturado com de areia e serragem úmidos. Não
há muito o que organizar exceto proteger os móveis com plásticos e
lonas.
Nádia
passa o telefone para Seu Edmundo. Ele pisca de novo para a menina.
Ela adora essas intimidades sutis. Pedro, irmão de três anos de
Nádia, dorme como um bebê. Mesmo não muito perto dele, Seu Edmundo
nota uma pequena fenda nos olhinhos de Pedro – pálpebras
semi-abertas como ostras.
Nádia
acaricia o gato cinzento que, antes da chegada de Seu Edmundo,
cochilava sobre o móvel da máquina de costura de Beatriz. O gato,
este irresponsável guardião das duas crianças, espreguiça.
Deleita-se com os carinhos de Nádia.
Miguel
atende. Seu Edmundo tenta ser o mais objetivo possível. Mas desliga
o telefone no momento em que Beatriz reaparece. Ele fugia de
flagrantes como o diabo da cruz. Tudo tinha de ser sem testemunhas
adultas, às escuras, silenciosamente. Esvaziado o cenário, aí sim,
ele comunica a Miguel sua decisão de comparecer à consulta médica
marcada com antecedência.
-
Uma novidade, Dmundão: acabam de anunciar aqui que fomos
incorporados por um poderoso banco holandês. Vamos virar laranjas,
Dmundão, como a Laranja Mecânica holandesa de 1974. Teremos de
falar holandês agora, é?
A
ligação caiu no momento em que Miguel disparava uma gargalhada. Era
muito mais informação do que Seu Edmundo gostaria de ter recebido.
Prefere reter o que lhe resta: atrasar-se. Nessas horas, sua teimosia
se manifesta em sutilezas, e criam-se os obstáculos. Ao sair da casa
de Beatriz, já está suficientemente atrasado para a tal consulta.
Como um sujeito tão disciplinado para o trabalho podia ser tão
desleixado consigo? Desce a ladeirosa Rua C, o mundo de Edmundo que
Alma respeita à distância.
***
Quanto
mais papel consumido, mais árvores cortadas. Seu Edmundo chega
atrasado de propósito à clínica onde devia ter dito ao médico que
às vezes tinha palpitações, faltas de ar e lapsos. Poderia ter
extirpado o câncer de pulmão a tempo e viver um pouco mais. Mas,
por sorte ou azar, o médico estava mais atrasado do que ele.
A
clínica fica numa casa antiga. Uma edificação vulgar – uma dose
de funcionalidade, duas de kitsch. O interior fora restaurado de um
modo contrastante. As paredes foscas abrigam algumas obras
difíceis de interpretar. Pinturas de cabeça para baixo, gravuras de
cores berrantes e sem forma, figurações, flores artificiais sem
caráter, dentro das quais dormiam durante o dia insetos minúsculos.
Atrás
da mesa da recepcionista há uma colagem enorme na parede. É uma
paisagem campestre, com árvores bem verdes, ipês, flores brancas
como catapora sobre a grama verde e uma queda d’água exalando um
frescor forjado. O efeito obtido na fotografia remete a imagem da
cachoeira a um longo véu.
A
beleza maior está na garça se equilibrando em uma perna só, a
outra encolhida até a dobra. Vista assim, de perfil, a ave parece
uma vareta sustentando um travesseiro de plumas.
A
recepcionista tenta disfarçar que está ocupada. Na verdade, repete
os mesmos gestos e movimentos. O olhar dela é de tédio, isto
sim. Olhos parcimoniosos, miúdos como duas contas. Os cabelos
avermelhados pendem sobre a testa. Armam um delicado círculo em
torno das orelhas. O tampo de vidro da mesa a obrigava a preocupar-se
com a saia curta.
Consulta
a agenda. Faz uma cara de menina travessa e volta a si.
-
Duas pessoas chegaram antes do senhor.
Seu
Edmundo demonstra contrariedade porque contentamento, àquela altura,
ia soar falso demais. Não sabe por que a moça ri dele de modo tão
zombeteiro, como se algo de muito esquisito tivesse sido impresso
naquele rosto diante dela.
Ela
enrubesce, resgata a compenetração e... Rã-rã. E o trabalho.
-
É a primeira vez que o senhor consulta aqui?
-
Primeira e última.
Ele
era duro de vez em quando; até porque, como odiava se ausentar do
trabalho, queria ter ouvido da moça que atrasos são irreparáveis.
Assim poderia partir, mandar para aquele lugar a consulta e ir
escalar sua montanha de cheques sem culpas.
Tem
outra coisa que chama a atenção na recepcionista: o modo como ela
segura a caneta entre o indicador e o anular. Os dois se juntam ao
polegar para guiar a ponta da esferográfica sobre o papel. A
caneta fica tão vertical que a mão dela parece a haste de um
pantógrafo. Se fosse mais observador, ele teria se espantado com o
quanto aquele jeito se assemelha ao seu.
Seu
Edmundo tira os óculos do bolso e os coloca para folhear uma
revista velha que apanha na cesta de palha trançada. Sente a perna
direita saltitar. Passa deserto as páginas. Plana o olhar por cima
dos óculos, que estão a meio-nariz. Outros clientes estão olhando
para o chão, exceto alguém ao lado de Seu Edmundo, uma senhora
fumando debaixo de um “Não Fume”.
E
havia outra placa mais à esquerda: “Fumar Faz Mal”. E uma mais
distante: “Fumar Prolonga a Vida”. Abaixo dela, o desenho de um
esqueleto enfumaçando a porta do próprio túmulo. Se era mesmo
proibido fumar ali, por que diabos havia tantos cinzeiros?
Teve
uma segunda impressão ruim do lugar, da casa restaurada e da
campainha estridente do telefone. Na avenida movimentada, lá fora, o
ronco dos motores eram como bombas a abalar os alicerces. Para ele,
devia ser uma expectativa angustiante. A vontade predominante nele
era sair pela tangente.
Seu
Edmundo generalizou que os médicos são pessoas egoístas, metidas,
arrogantes, desumanas. Talvez um encontro dele com médicos
simbolizasse fragilidade. Ele é de um tempo em que homens frágeis
não são homens, mesmo ele, que nunca ergueu a voz. Levantou-se e
foi até a porta. Andou de um lado para outro aparentando uma
tranqüilidade descabida.
Miguel
certa vez lhe disse que bananas são ricas em potássio, que potássio
auxilia a circulação do sangue e, conseqüentemente, ajuda a
respirar. Interessante como informações amparadas por autoridades
constituídas, repassadas por pessoas neutras, não familiares,
recebiam algum crédito de Seu Edmundo.
Ele
era capaz de, por exemplo, comer bananas três ou quatro vezes ao dia
durante uma semana. Se as bananas não provocassem nenhuma alteração
no organismo (contra ou a favor) em uma
semana, o que era cientificamente provável, abandonava-as.
Agia
assim também com antibióticos em caso de amidalite, por exemplo. Se
os remédios recomendados pelo farmacêutico Carlos Delfim não
fizessem efeito em poucas horas, voltava à Farmácia São Carlos, no
Jardim Nova York, a fim de trocá-los por outros. Ler bulas? Jamais.
Nem bulas, nem catálogos telefônicos, nem rótulos, nem jornais,
nem seus próprios exames laboratoriais.
Mas
possui um mínimo de senso de resultado, como os novos velhos
ingleses. Abre um pouco a greta da persiana, usando dois dedos, como
quem separa as pálpebras para examinar a íris. Nuvens vão se
juntando rápidas e formando uma crosta de chumbo no céu, da cor da
fumaça dos ônibus e caminhões. A quantidade de material poluente
na atmosfera seria hoje menor do que naquele ano de 1980 se o
transporte público corresse sobre trilhos. Mas nem isso, nem
trilhos.
Seu
Edmundo se manda. Desce a escadaria, ganha a calçada e, aliviado,
volta a ser o mesmo homem livre. Leva consigo um arrepio na espinha,
como quem acaba de se desviar de um balaço. Deve ter pensado “muitos
daqueles bobos sentados lá na clínica gostariam de fazer o que
estou fazendo, fugir da consulta médica para ir jogar na Esportiva”.
Em
algum dia de março de 1976, nove anos antes de uma diverticulite
matar Tancredo Neves, Seu Edmundo entrou em uma casa lotérica para
apostar na Loteria Esportiva, como fez toda semana, religiosamente,
durante toda a sua vida metropolitana. O prêmio estava acumulado há
dois sorteios. Marcou os palpites com uma esferográfica estropiada
amarrada a um pedaço de barbante, técnica preventiva de retenção
que iria inspirá-lo anos depois, na agência.
O
caixa da casa lotérica perfurou manualmente o cartão pardo contendo
os treze jogos da semana. Usava para tanto uma espécie de chave de
fenda pontiaguda. Atravessava catorze quadradinhos, os treze palpites
mais o extra (jogo-duplo) que a aposta mínima dava direito.
Todo
domingo, durante o Fantástico, Seu Edmundo coloria os quadradinhos
do volante de aposta em branco e sobrepunha a este o cartão pardo
perfurado. Era o modo de conferir o total de pontos. Se o furinho
estivesse escuro, ponto para ele. Se não, ponto para alguém mais.
Ria
sozinho quando a animação grotesca de uma zebra movimentando a
mandíbula dizia: “Êpa, olha eu aí. Deu zeeeeeebra!”.
Já
havia feito doze pontos no mesmo ano em aposta de apenas um
jogo-duplo. Ele refletiu um bom tempo, fato raro, sobre aquele
Botafogo X Bangu. Considerou os noticiários, as possíveis
escalações dos times, as baixas, o retrospecto, etc. Pimba: cravou
Botafogo e empate. Deu Bangu: 2 a 0. Podia ter recebido o equivalente
a 150 mil dólares de 1976.
Pela
vidraça espelhada do balcão, ele próprio nota que abotoou a camisa
às pressas ao sair de manhã rumo à consulta médica abortada. Uma
casa sobrando em cima e um botão sobrando em baixo, perdido dentro
da calça. Se era disso que a recepcionista da clínica debochava,
ela tinha razão. Estava
mesmo ridículo.
Atravessa
sob sol forte a avenida movimentada por uma passarela de madeira e
estrutura metálica. Suas últimas dores na nuca deviam ser reflexo
de seu andar cabisbaixo. Nem olhando para o chão ele consegue
caminhar em linha reta. Persistem as curvaturas.
Aos
cinqüenta e poucos anos, quando foi à tal clínica, Seu Edmundo já
demonstrava um apurado senso de irresponsabilidade. Tão desapegado
que até a aliança do casamento com Inês, que ele usou até morrer,
apesar de tudo, às vezes escorregava sozinha de seu dedo médio.
Como ele desconhecia a misteriosa energia dos átomos, o fenômeno
não o intrigou.
*
Jornalista, escritor e professor. Editor do portal TextoVivo
Narrativas da Vida Real (www.textovivo.com.br);
vice-presidente da Academia Brasileira de Jornalismo Literário
(ABJL). Autor de “Os
Estrangeiros do Trem N”
(1997), “Biografias
& Biógrafos”
(2002) e “Perfis”
(2003), entre outros. E-mail: svilasboas@textovivo.com.br.
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