Efeito manada
Há pessoas, diria que a
imensa maioria, que têm obsessão pela “modernidade”, embora
quando questionadas, nem mesmo saibam definir com razoável precisão
o que entendem por “moderno” e, em contraposição, por arcaico,
antigo, ultrapassado e, portanto, descartável. Já tratei, por aqui,
deste tema, mas considero oportuno reiterá-lo, agora sob outro
enfoque.
Os que agem dessa forma não
têm o menor senso crítico e gostam de navegar na onda do que está
em moda. Consideram tudo o que tenha, por exemplo, três anos (se
tanto) de produção como imprestável, substituível, em suma, velho
(em sentido pejorativo). Esquecem-se que o que é moderno hoje, será
ultrapassado amanhã e que nem sempre conseguirão acompanhar (por
falta de recursos financeiros, na maior parte das vezes) a onda de
momento.
Quando se trata de tecnologia,
essa postura até que é compreensível e, diria, elogiável. Se os
cientistas e a indústria desenvolveram máquinas que facilitem
nossas vidas, e se tivermos dinheiro para a sua aquisição, por que
não usufruir desses avanços? As boas novidades, nesse sentido,
serão, obviamente, sempre e sempre bem-vindas.
Quando se trata de estilo de
se vestir, de se pentear, de se maquiar etc., ou seja, de moda, a
coisa já começa a pegar um pouco. Nem tudo o que outras pessoas
gostam e usam é, automaticamente, adequado ao meu estilo de vida.
Mas... ainda passa.
Todavia, quando se trata de
artes - e não importa se música, pintura, escultura, literatura
etc. – aí a coisa pega de vez. Descamba-se, não raro, para os
modismos, passageiros e inúteis, que satisfazem os gostos de
determinada pessoa e não, necessariamente, os nossos. Em política,
isso é muitíssimo pior. Chega a ser trágico.
Seguir esse tipo de tendência,
sem senso crítico e sem justificativas, apenas porque “todo mundo”
gosta disso ou daquilo, é o que denomino de “efeito manada”. É
seguir, bovinamente, algum pretenso líder (que pode até ser o
suprassumo da burrice e do mau gosto, quando não o corrupto dos
corruptos), apenas para não ser acusado de “antiquado” ou de mal
informado. Esse comportamento reflete absoluta falta de
personalidade. E por que ser a retaguarda do bando, quando se pode
ser cabeça?
Não há obra de arte moderna
e antiga. O que há são obras boas e obras ruins. O critério de
avaliação correto, portanto, não é o temporal, de quando
determinada obra foi produzida, mas o qualitativo, se ela é boa ou
ruim. Se adotarmos a maneira de avaliar em voga, estaremos cometendo
uma baita sacanagem com artistas de um passado remoto (e não raro,
até recente), que criaram não para o tempo e o esquecimento, mas
para a imortalidade.
Não podemos nos deixar
induzir por modismos, como se estes pudessem ou devessem determinar
nossos gostos. Vejo, hoje em dia, muitos pseudo apreciadores de
pintura, por exemplo, torcerem o nariz para determinados pintores,
por serem figurativistas.
Na sua concepção, eles
deveriam ser surrealistas, ou cubistas, ou seja lá o raio que lhes
queiram pespegar, e se não seguirem essas tendências, as obras
serão imediatamente discriminadas e consideradas “coisas menores”,
mesmo que haja genialidade, perfeição formal, talento e paixão
nessas pinturas.
A mesma coisa ocorre com a
poesia. Já tive livro recusado por uma editora, assim liminarmente,
sem que o responsável pela seleção das obras a publicar sequer
lesse, simplesmente porque era de sonetos. “Escreva coisas
‘modernas’ que eu publico”., foi a resposta que ouvi. Saí
irritadíssimo não por causa da recusa, mas pela razão apontada
para tal.
Também componho poemas
concretistas, surreais, versos brancos, cheios de metáforas
(modéstia a parte, criativas e originais) e3 o meu leitor assíduo é
testemunha. Mas não eram eles que eu queria publicar. Queria que meu
público (que felizmente não é pequeno) conhecesse meus sonetos,
considerados de excelente qualidade por vários professores de
literatura que os leram. Frustrei-me.
Quem determinou que apenas os
textos considerados “modernos” são válidos e bons? Que
autoridade esse alguém tem para isso? Será que a verdade passou a
ter donos e esqueceram de nos avisar? Como se vê, não são apenas
as pessoas ingênuas que se deixam levar por modismos. Há muitos
pseudointelectuais (e até intelectuais genuínos) que caem nessa
esparrela. Como é perverso, com os artistas, esse tal de efeito
manada!!!
Por que não seguir o lema da
cidade de São Paulo – “non ducor, duco”, ou seja, não sou
conduzido, conduzo – desenvolvendo saudável espírito crítico e
incentivando o máximo de pessoas a fazerem o mesmo? Não sou,
obviamente, contrário a mudanças. Mas não quero mudar na marra, à
minha revelia, por causa de tendências, modas e, pior, modismos.
Antigo, na verdade, é arrotar
uma pretensa modernidade, sem sequer saber definir do que se trata.
Por isso, recorro, mais uma vez, a Carlos Drummond de Andrade – que
já citei um milhão de vezes ao tratar desse tema, mas que nunca é
demais citar novamente. Em um verso magistral (como tudo o que
escreveu), o sábio poeta de Itabira deu a entender que sua pretensão
nunca foi a de ser moderno. Foi a de ser eterno. A minha também…
Boa leitura!
O Editor.
Calma, Pedro. Não se exalte. Há público para todas as tendências.
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