A guerra no sertão
Os
131 anos da destruição do Arraial do Belo Monte, no sertão da
Bahia, que se completam em 5 de outubro de 2018, marcam um dos
episódios mais controvertidos, pouco estudados e mal-entendidos da
história brasileira: a Guerra de Canudos.
A
bibliografia a respeito – nacional e internacional – é vasta.
Desde Euclides da Cunha, com seu clássico "Os Sertões",
ao peruano Mário Vargas Llosa, com "A Guerra do Fim do Mundo",
livros de todos os gêneros – da análise histórica a romance –,
foram escritos a esse propósito.
Mas
a maioria das obras segue o mesmo tom da época dos acontecimentos,
enfocados fartamente pela imprensa, em especial a do Rio de Janeiro,
capital da República de então. Considera os sertanejos envolvidos
nesse drama e, em especial seu líder, Antônio Vicente Mendes
Maciel, o Conselheiro, como mero bando de lunáticos; como um
grupelho de fanáticos religiosos, condenados pela própria Igreja.
É
uma visão muito simplista, bem ao gosto da elite. Canudos, na
verdade, foi mais uma revolta dos excluídos, dos despossuídos, dos
vilipendiados, dos esquecidos, dos "sem-terra", dos quais o
País estava, e ainda está mais do que nunca, repleto.
Os
moradores do arraial, fundado em 1893 na invadida Fazenda Velha, no
município de Massaté, eram camponeses pobres (como os invasores de
hoje), expulsos de suas terras pelas sucessivas secas e pelo
latifúndio. Um século e uma década depois, o que mudou foi somente
o discurso. E o número de brasileiros vítimas dessa exclusão
social.
O
que essa gente humilde, rústica, na maior parte ignorante e crédula,
procurava era apenas melhores condições de subsistência. Além
disso, buscava assistência espiritual de conformidade com a sua
crença, com a rígida moral transmitida por seus pais, que não mais
encontrava na Igreja formal.
Um
livro lançado por ocasião do centenário do massacre, em 1997, pela
Editora Moderna, como parte da Coleção Polêmica, dos historiadores
José Rivair Macedo e Mário Maestri, intitulado "Belo Monte,
uma História da Guerra dos Canudos", traz novamente à baila,
sob novo enfoque, o instigante tema. Tenta desmistificar a idéia,
que passou para a história como expressão da verdade, sobre a
natureza do movimento e o perfil do seu líder.
Os
comandados de Antônio Conselheiro investiam contra o que entendiam
serem os "pecados" da recém-implantada República. Entre
estes, dois eram considerados os mais graves: o casamento civil e a
separação da Igreja do Estado. Daí serem confundidos com os
monarquistas. Aliás, estes foram tidos como os instigadores da
revolta sertaneja e seus beneficiários.
A
batalha não se desenvolveu apenas no distante sertão baiano. Houve
choques de rua no Rio de Janeiro, envolvendo os "sebastianistas"
(que acreditavam que Dom Sebastião, o Venturoso, não morreu na
Batalha de Alcacer Kibir, mas que voltaria para restaurar o seu
trono) e que os republicanos chamavam pejorativamente de "jagunços",
e os mais exaltados partidários do novo regime, os "jacobinos",
saudosos do governo forte e nacionalista do Marechal Floriano
Peixoto.
Quando
o arraial Belo Monte foi arrasado, o País tinha seu primeiro
presidente civil, Prudente de Morais. A precariedade dos transportes
e a inexistência dos meios de comunicação modernos – não havia
rádios, telefones, televisão etc. – faziam com que vastas áreas
do enorme território nacional fossem autênticas "terras de
ninguém". A atenção do governo era voltada basicamente para
os Estados do Sul e Sudeste, e mesmo assim de maneira precária.
No
Nordeste, a "lei" era a criada e imposta pelos grandes
latifundiários, pelos todo-poderosos senhores de engenho. O poder
central, no entanto, não podia tolerar contestações como a de
Antônio Conselheiro. Canudos passou, em pouco tempo, a ser
considerada um perigo sério à própria ordem constituída nacional.
Exagero, é claro.
Para
sufocar esse "levante", foram organizadas quatro expedições
militares, num crescendo de quantidade de soldados e de armamentos. E
de patentes dos seus comandantes. Inicialmente, as autoridades
federais achavam que apenas a polícia conseguiria controlar os
"desordeiros" e repor a ordem. Foi enviado, no começo de
1896, um destacamento policial comandado pelo Tenente Manuel da Silva
Ferreira.
Os
conselheiristas, conhecedores do terreno, mesmo com armas precárias,
desbarataram facilmente esse grupo. Com a vitória, obtiveram
armamentos melhores que lhes possibilitavam defesa mais eficaz do
arraial. A seguir, no mesmo ano, partiu um considerável contingente
do exército, comandado pelo Major Febrônio de Brito. Também foi
derrotado. Ou melhor, foi virtualmente dizimado.
Em
março de 1897, os conselheiristas derrotaram a expedição comandada
pelo Coronel Antônio Moreira César, que morreu combatendo. As
autoridades federais convenceram-se que se tratava de um levante
"muito sério". Comentava-se, na Capital Federal, que havia
até soldados estrangeiros lutando ao lado dos revoltosos ou pelo
menos determinando sua estratégia de combate.
Foram
enviadas, pois, a Canudos seis brigadas, desta vez comandadas por
dois generais: João da Silva Barbosa e Cláudio do Amaral Savaget. A
convicção era de que desta vez não sobraria pedra sobre pedra em
Belo Monte. Achava-se que os rebelados sequer combateriam, diante
dessa demonstração de força. Fugiriam espavoridos. Outro engano.
Não fugiram. As seis brigadas foram dizimadas e os sertanejos
fizeram uma excepcional colheita de armas.
Finalmente,
a quarta expedição, muito mais numerosa e melhor equipada, com o
que havia de melhor em termos de artilharia pesada na época, sob o
comando do General Artur Oscar de Andrade Guimarães, exterminou os
revoltosos. José Rivair Macedo e Mário Maestri ressaltam em seu
livro:
"Canudos
não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o
esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão do termo,
caiu no dia 5 (de outubro), quando caíram seus últimos defensores,
que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos
e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil
soldados".
Hoje,
de Belo Monte, não sobrou sequer a própria área. O local que
abrigou uma das mais unidas comunidades populares do País está
coberto pelas águas do Açude Cocorobó, concluído durante a
ditadura militar. Resta aos historiadores a tarefa de um resgate da
verdade. De quem eram, realmente, Antônio Conselheiro e seus
seguidores. E, sobretudo, o que esses brasileiros pretendiam.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Dependendo de que conta, uma mesma história pode ter visão distorcida. Ficamos sem saber a verdade, e algumas vezes não chegamos nem perto dela.
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