Se eu tivesse dito
* Por
Gustavo do Carmo
Relembrando o passado,
fico pensando nas discussões que eu tive na vida, nas verdades que eu deveria
ter falado e nas atitudes que eu deveria ter tomado. Me calei. Fiquei inerte
para evitar maiores constrangimentos ou mesmo retaliações. Entre muitos
exemplos, aqui vou contar alguns deles.
A
professora ex-carioca chata
Na faculdade de jornalismo eu tive uma
professora, daquelas cariocas que tiveram melhores oportunidades em São Paulo e
só voltam ao Rio de Janeiro para criticar a cidade. Vivia dizendo que o Rio não
tem oportunidades, que aqui ninguém trabalha direito, que todo mundo é incompetente,
que só aqui tem estágio não-remunerado e que só São Paulo tem os melhores
empregos para jornalistas.
Eu, que sempre fui e
ainda sou uma pessoa tímida, ouvia calado a todas aquelas ofensas contra a
minha cidade, o meu estado. Às vezes, a irritação era tanta que eu saía de
fininho e fingia ir ao banheiro, quando na verdade ficava no pátio para não
ouvir mais bobagens.
O bom tratamento e os elogios que esta professora fazia a mim também
impediam que eu me rebelasse. Ela dizia que eu sorria com os olhos, que eu
tinha futuro na profissão e... que eu deveria me mudar para São Paulo também.
Hoje, fico pensando o
que seria do meu presente se, num do vários workshops
que ela organizava nas aulas, eu lhe
pedisse a palavra e tivesse dito na cara dela que se o Rio tem tão poucas
oportunidades é por causa de gente como
ela, que em vez de valorizar o estado, entrega o ouro ao bandido, que fica com
tudo o que temos de bom, inclusive o seu próprio talento, deixando as sobras para
nós, cariocas, para depois ficar criticando.
Na época eu tinha medo
de ser expulso de sala, de passar vergonha e ser mais malvisto do que sou hoje
pelos meus então colegas. Dezessete anos depois, ainda acredito que só a última
consequência poderia ter acontecido, mas poderia ter feito ela refletir, deixar
de ser simpática comigo e me prejudicar nas notas. Não sei se me arrependo ter
ficado quieto ou não.
O
coordenador demitido
Há dez anos, eu cursava
pós-graduação em Gestão de Cultura, um daqueles cursos bem “intelectuais”. Eu me formei, mas até agora o diploma (na
verdade, um certificado) não teve serventia nenhuma para mim.
O primeiro coordenador
era um senhor na faixa dos setenta anos, que participava de todas as aulas,
vestido de terno, gravata e bengala e fazia comentários que até as tornava
demoradas.
Após eu mandar uma
mensagem para toda turma dizendo que estava com problemas pessoais (e estava
mesmo, não estava inventando) e de ter enviado um e-mail para o coordenador,
anexando o então rascunho do meu romance Notícias que Marcam, ele disse ter
adorado o livro e me incentivou a pagar para publicar. Foi o que fiz, depois de receber mais incentivos
de outras duas colegas e da minha mãe ganhar um dinheiro de correção da
Previdência Social.
Ainda não tinha
assinado o contrato com a editora em São Paulo quando o coordenador foi
demitido da Estácio de Sá e proibido de entrar nos campi da universidade. Ele
tinha acabado de iniciar uma nova turma que estudaria com a gente nas primeiras
matérias deles, assim como a minha turma conviveu com a anterior.
Apegado aos alunos,
ele queria levar as três turmas para a nova faculdade onde foi contratado, que
eu não me lembro o nome. Só que ninguém
quis sair da Estácio. Eu fiquei tentado a sair, mas eu também estava apegado
aos meus colegas e resolvi ficar, com
outro coordenador.
Claro que o senhor
tentou persuadir a mim e a todos. Acontece que uma senhora descobriu a farsa ao
ver o contrato da nova faculdade que ele distribuiu: não tinha registro. Apenas
o logotipo da nova faculdade e da empresa cultural dele. Como se fosse uma simples ficha. E seria um
curso de extensão e não uma pós-graduação. Se eu me matriculei na Estácio para
fazer pós-graduação, como acabaria fazendo um curso de extensão em outra
faculdade? O meu pai, que pagava o curso, me mataria. Declinei e segui os meus
colegas.
Ele convocou uma
reunião no escritório dele, na Rua México, no mesmo Centro da cidade onde
ficava o campus do meu curso (na Presidente Vargas). Desci do ônibus e, por uns
instantes, tive aquele dilema de qual caminho seguir. Segui o caminho da
Estácio.
Além disso, me pediram
para expulsá-lo do grupo de discussão da turma na internet e concordei. Eu era
o moderador. Tive a sensação de que fiquei com a fama de traidor entre o
ex-coordenador e seus familiares. E também perdi a sua confiança.
Hoje, fico pensando: e
se eu tivesse seguido com ele? Poderia ter um emprego na sua empresa cultural, mas ficaria sem um curso de
pós-graduação? Por motivos legais, de diplomação, fiz a coisa certa. Mas pela
gratidão que eu (ainda) tenho a ele, me arrependo. Pois rompi com todos os
colegas com quem eu preferi continuar. Foram uns falsos. Me cobraram tanto para
eu lançar o livro, mas na hora do lançamento só duas apareceram. E também não
me ajudaram no trabalho final.
Hoje penso que eu
deveria ter feito o mesmo que outro colega, então marido de uma das colegas que
revisou o meu livro: conversar com ele e expor as minhas razões. Mas, com medo
de cair na conversa dele, fui covarde e segui a manada.
Aula
de puxa-saquismo
Anos depois, me
matriculei em outra pós-graduação da Estácio. Desta vez, para fazer um curso no
qual quase me matriculei na ocasião da pós de Cultura, mas meu pai não deixou:
Telejornalismo.
Entrei com a intenção
real de fazer amizade com jornalistas já ingressos na Rede Globo e outras
emissoras, com alguns professores conhecidos, para que alguém me colocasse no
caminho das pedras do mercado cultural. A coordenadora, por exemplo, era filha
da apresentadora do primeiro programa feminino da Globo. Uma das colegas era editora de imagens da
emissora.
Ao contrário da outra
pós, em que eu só fui aceito na panelinha por causa daquela mensagem, neste
curso eu fiz algumas “amizades” espontaneamente. Mas por causa da minha timidez
crônica e de alguns comentários polêmicos e boicotes que eu fazia, a turma
passou a me esnobar. Por puro preconceito e pré-julgamento. Logo eles que se dizem os guardiões da moral
politicamente correta.
Aliás, a maioria da
turma já me esnobava mesmo. Nunca se aproximou de mim. Já os meus “amigos”
passaram a me evitar nos trabalhos de grupo e nas redes sociais.
Num dos módulos, como
são chamadas as matérias dos dois cursos, que duravam um mês, que eu não lembro
o nome (como estou esquecido), eu tinha aulas de apuração e redação e a
professora era editora da Record, onde uma das colegas começava a sua carreira
de repórter de vídeo no hard news.
Hoje ela apresenta um telejornal local na emissora dos bispos.
Encantada com a moça,
ela se derretia em elogios à “pupila”. E aí começava a aula de puxa-saquismo.
Parecia fazer mais isso do que dar aula. Neste caso eu não tive oportunidade,
mas jurei, para mim mesmo, que, se ela puxasse o saco da colega mais uma vez, ia
perguntar se o módulo era para nos ensinar a redigir textos para a TV ou ficar
elogiando a Fulana.
Na época, não tinha
nada contra essa repórter. Mas depois fiquei chateado quando ela comprou o meu
livro, após um colega fazer a divulgação, e no final da aula ignorar o meu
agradecimento.
O
surto que eu não tive
A “amiga” mais próxima
desta nova pós, ignorando a grande preocupação que eu tive na época das chuvas
que arrasaram Itaipava, onde ela morava, de repente passou a fugir de mim nos
trabalhos de grupo. Escolhia propositalmente temas complexos para que eu
perdesse a vontade de fazer com ela e depois ficar dizendo que fui eu que não
queria fazer. Fora a falta de retorno de e-mails para discutir os pontos dos
trabalhos que eu fazia com ela.
As aulas aconteciam
sábado sim, sábado não. Na semana anterior ao início dos dois últimos módulos (um
de reportagem em vídeo e outro de orientação ao projeto final) foi o meu
aniversário.
Recebi parabéns no meu
Facebook de vários amigos e parentes, menos dos colegas da pós. Estava
esperando mesmo o meu aniversário para fazer uma limpeza na lista dos meus
amigos que não interagiam comigo. Na meia-noite de segunda-feira excluí o
pessoal. E esta ex-colega e seu, talvez namorado, que também era da nossa
turma, estavam entre os excluídos. Ela só foi me dar parabéns na tarde de
segunda-feira e por e-mail.
No sábado ela chegou
atrasada e me deu uma camisa lilás de presente. Poderia pensar que era um
presente de arrependimento, mas ela também deu uma camisa para o outro colega.
Eu estava feliz quando a professora pediu para anunciarmos os integrantes de
cada grupo que faria o projeto final. Ela anunciou e me deixou de fora, dizendo
claramente que eu ia fazer sozinho.
Naquela hora me deu
vontade de surtar, jogar a camisa na cara dela e mandar todos aqueles falsos
para o inferno. Tive vontade de dizer tudo o que eu disse no primeiro parágrafo
deste capítulo desta crônica. Mas o bobo aqui ficou quieto e ainda aceitou o
presente e ter ficado de fora do grupo. E ainda prometeu entregar o projeto
inicial do trabalho para a professora na aula seguinte.
Na aula da tarde, esta
colega traidora preferiu fazer o teste de vídeo com outra colega. Isso não me
incomodou tanto, pois entendi que eu realmente iria passar vexame e ela queria
fazer o programa de entrevistas intelectual dela.
O que me incomodou foi
a humilhação da outra professora ao avaliar o meu teste, no qual, com certeza,
não me saí bem. Gaguejei, fiquei mudo e fiquei em dúvidas na gramática. Foi
horrível. Na hora de avaliar ela me detonou. Disse (até com razão) que eu tinha
mais vocação para trabalhar em programas de carro do que de notícias e
aconselhou que ninguém deve errar na língua portuguesa. Mas o comentário foi
direcionado a mim, induzido ao erro pelo amado da “amiga” traidora, embora
naquele dia eu ainda não estava desconfiado do envolvimento romântico dos dois.
Ele até me incentivou nas duas aulas. Saiu cedo desta aula da tarde.
E se eu tivesse me
rebelado contra aquele comentário? Deveria ter dito para todos ali que eu não
fui muito favorecido intelectualmente e nem fisicamente para apresentar um
telejornal. Que eu não sou rostinho bonito como muitos ali naquela turma. Que
eu não tenho amigos influentes e que ela era muito arrogante. Mandaria a
professora, coordenadora e todos os ex-colegas à merda. Encerraria o discurso
jogando a camisa na cara da ex-amiga traidora. Este ato eu não me arrependo de
não ter feito. Com certeza gaguejaria
novamente. E ainda sairia vaiado.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance
“Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea
“Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess -
http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
Seu blog, “Tudo cultural” -
www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
Nenhum comentário:
Postar um comentário