Para o retrato de um amigo
* Por
Urariano Mota
Aviso a partir desta
linha aos raros leitores que vou cometer uma violência, um abuso, um ato
arbitrário. Vou falar de um poeta fundamental de Pernambuco, do Brasil, da
América, sem falar uma só linha da sua poesia. E para isso devo ter e possuir e
haver punho de ferro, sangue metido em frigorífico. Porque vou falar de Alberto
da Cunha Melo sem lhe citar um só verso. Vou falar apenas de um amigo.
Tenho agora mesmo, em
minha mente, a sua imagem no Bar da Bete, no tempo em que havia o Bar da Bete.
A pessoa dele me vem como em uma foto onde se escreve abaixo, Olinda, 1989. E
depois, em letras pequenas: "nós atravessamos o tempo e não
percebemos". Não fosse o sol de Pernambuco, diria que essa imagem vem
entre brumas. Por que recebo assim essa foto na memória? Imagino que essa
dissociação entre clima local e lembrança ocorre porque o poeta sempre era
encontrado ali mais à noite, ou no fim da tarde, quando o sol declina sem
vestígio do clarão. Ou talvez porque seja próprio das fotos que guardamos virem
em preto e branco, como uma foto antiga, que vai perdendo a sua tonalidade. E
as tonalidades, sabe-se, perdem-se assim sem ruído, caladas, traiçoeiras e
ferinas como um câncer. Abandonam o vigor no escuro da noite, furtam-se da vida
com a luz dos dias.
Em Bete, o poeta
sempre se encontrava em sua mesa. Aquela vida secreta que me envergonhava, a de
ser um escritor, só um escritor, só e somente e mais nada, porque seria tudo,
Alberto exibia como um despudorado em seu lugar, que não poderia ser de outro,
a falar entre sombras, sem ostentação, recuado em uma parede, ao fundo do Bar
da Bete: "Eu sou um poeta, o meu nome é Alberto da Cunha Melo". E eu
via, embora ele não proclamasse, não erguesse a voz, nem se vestisse com ouro e
pedras reluzentes, eu via, como uma pancada funda em meu peito, porque eu via
pelos olhos do sentimento, eu via alumbrado e fingia nada ver, eu via,
"atenção, canalhas, eu sou a dignidade da literatura"...
Nesta altura, até para
manter o frio dos árticos no sangue, devo lembrar também a pessoa de Bete, uma
dona de bar meio estranha, quase tão desequilibrada quanto a sua fauna querida.
Ela era amiga de Rodolfo Mesquita, e temia com terror fascinado que o pintor
Rodolfo Mesquita reaparecesse, porque Rodolfo era um demônio que pintava, e
poderia, naqueles tempos, beber mais que um demônio quando pinta o sete. Ela
era amiga de Abdias, o sociólogo e jornalista, a quem ela se referia sempre com
o respeito dos pobres que admiram quem não é do seu meio. Ela era amiga de
muitos malucos, a quem atraía por ser também uma semelhante. Ela era amiga
enfim de toda gente, por ser dona de um talento de cozinhar com as combinações
mais inesperadas, loucas, que resultavam em um produto saboroso. Mas era amiga
acima de tudo do poeta Alberto da Cunha Melo, por dar a ele privilégios que
nós, os outros, jamais poderíamos sequer tentar. A saber, primeiro: um lugar
exclusivo, encostado à parede, de frente para o mar de Casa Caiada. A saber,
segundo: a compra exclusiva de garrafas de conhaque, servidas tão somente a
Alberto, todas as tardes e noites, que ele bebia, gole por gole, bebida que
pagava quando chegasse o fim do mês. Às vezes o salário do poeta atrasava, o
dia 30 não vinha, a sede em algumas estações era maior, e Alberto entrava nos
conhaques do outro mês.
Nesse tempo eu era,
mais que estava, bancário. Tinha que sobreviver de alguma forma, esta é a
verdade. E para sobreviver sem me trair além do suportável, embora já houvesse
ido além do que deveria, eu saía a beber com colegas de trabalho, e os
arrastava para o Bar da Bete, sob o pretexto de comer uma fritada de siri. Para
quê? Houve uma ocasião em que me fiz acompanhar de um gerente de banco, e já
vêem todos o quanto eu ultrapassara a fronteira do razoável. Nessa infeliz vez,
avistando ao fim do Bar o nosso poeta, saudei-o, ele respondeu, e continuamos
cada um na própria mesa, a minha, com o gerente e demais funcionários, a dele,
ele sozinho, enquanto escrevia em uma folha de papel algo que anos mais tarde
saberíamos. Para engrandecer o meu gesto, e caminhar na zona anfíbia da
literatura e da sobrevivência, eu disse aos colegas de mesa que aquele homem
ali era um grande poeta.
- Aquele?
O animal, que era tão
importante no comando de uma agência bancária, queria dizer, aquele a fumar
cigarro sem filtro, a beber algo que não é uísque, vestido sem roupas de grife,
com os óculos de armação pesada, aquele, enfim, com todos os sinais exteriores
de não ser uma pessoa de classe?
- Sim, aquele,
respondi.
Então o animal gritou
para Alberto, gritou como se fizesse uma saudação, pior, como se enviasse uma
ordem, típica de quem possui o espírito formado por valores do câmbio de
moedas.
- Se você é poeta,
improvise uma poesia, agora! Vamos, é uma poesia e duas cervejas, por minha
conta.
Eu vi então o poeta
não ouvir. Eu vi então o poeta perder o sentido da audição, e mais concentrado
olhar o papel sobre a sua mesa, a perpetrar aquela poesia que não se improvisa,
que vem como fruto do esforço de toda uma vida, de leituras e talento e
espírito que se amadurece no fogo, lento, mais lento que o câncer, a poesia que
vence a morte. Então, ao animal indócil tentei explicar que o gênero do poeta
era outro, que ele não era bem um violeiro repentista, que ele não possuía
estrofes e sílabas fixas, que a sua poesia... em vão. Há um limite para a
ignorância no qual conhecimento nenhum atravessa. É uma couraça mais dura que a
pedra. O homenzinho contestava, indignado:
- Ah, se ele faz o
mais difícil, faz o mais fácil. Qualquer Camões sabe improvisar....
E eu fiquei então com
a pecha de mentiroso, pois apontava como poeta um homem que não sabia sequer o
mais fácil, cantar um poema. Certamente, esse "poeta" era um louco ou
um fracassado, porque nem operava na vida prática, isto é, jamais fizera
qualquer investimento em qualquer letra bancária, o que se notava pela
aparência, nem jamais operara na vida cultural, porque era incapaz de realizar
as maravilhas que o dinheiro paga. Maldito deveria ser o espírito que não se
regia pela recompensa de duas cervejas...
Esse amigo que ora
canto, nesse árduo escrever de pulso rijo e gelado sangue, é um homem que
sobrevive na contradição de todo artista, como um exemplo vivo do destino de
quem cultiva o que não se troca em uma sociedade prosaica e porca. Porque assim
dizem os homens de poder e prata:
- Fazer poesia é
fácil. Compor uma música é simples. Pintar um quadro qualquer um pinta.
Escrever essa coisa que esse idiota aí escreve é uma imbecilidade. Dura e
difícil é a vida de quem trabalha pesado, de quem possui o coração aos pulos
conforme a cotação da Bolsa de Valores, de quem perde o sono em razão do
movimento perturbador do dólar. Pesado e massacrante é comandar um batalhão de
empregados, todos simulados e bandidos até prova em contrário. O dinheiro que
ganhamos vem ao fim de uma guerra. Matamos leões todos os dias. Agora,
sentar-se em um lugarzinho em silêncio, beber uma dose e fumar um cigarro,
enquanto se escreve, "ó minha flor, ó meu amor", é um paraíso.
Por isso acham, com
muita naturalidade, que gente assim vive com muito pouco, quase nada, porque,
afinal, são poetas. Gente enfim que não liga para essas coisas, a saber, comer
bem, beber melhor, possuir casa confortável, carro importado, mulheres,
amantes, planos de saúde que quase enganam a morte. Bom, se isto não conseguem,
bem que conseguem deixar o cidadão morrer com todo e total conforto. Pois
melhor é ser infeliz com muito dinheiro. Pero os artistas, não. São felizes com
pouco, com nada, menos que nada, são um fenômeno. Compõem um acorde, recebem um
trocado. Escrevem cinco linhas, ficam famosos. Pintam um quadro, ficam
conhecidos além do seu tempo. Nós, homens práticos, jamais seremos imortais.
(Todos temos onde cair mortos, querem dizer. Os artistas que gozem a sua
imortalidade, porque não têm onde cair duros para sempre.) Os artistas se
contentam com pouco. Nós, os homens práticos, não.
No entanto esse amigo,
a viver nessa contradição do sublime e da pobreza, jamais se acostumou aos
gostos nos quais é obrigado a viver. Percebem? É natural que um homem, de tanto
não conhecer o sabor de vinhos envelhecidos, de qualidade, comece a gostar de
vinhos menos nobres e passe a olhar desconfiado para as excelências que jamais
irá conhecer. Há quem construa até uma teoria, um sistema de gosto para
enquadrar o seu modo possível de ser. O poeta Alberto da Cunha Melo, não. Houve
uma vez em que eu, depois de bem observar as cervejas que ele bebia nos bares,
convidei-o para a minha casa, para que assistíssemos juntos a um programa de
televisão dedicado a Canhoto da Paraíba. Que fiz eu? Pedi a meu filho para que
comprasse as marcas de cerveja que eu sabia ser do costume do poeta beber. O
meu amigo se angustiou:
- Por favor, essa daí não.
Se puder, mande buscar uma cerveja melhor. Eu bebo as baratas, porque não posso
pagar outras.
É esse mesmo homem que
é capaz da maior generosidade. Dirão os muito cínicos, "quem tem pouco a
oferecer, é generoso com a riqueza que jamais possuirá". Rotundo engano.
Nos tempos em que o poeta muito podia oferecer, ou seja, no tempo em que ele
era editor do melhor caderno cultural do Nordeste, o suplemento do Jornal do
Commercio, não poucas vezes, muitas vezes vieram à luz, por sua conta e risco,
poetas iniciantes, escritores novos, estudantes de jornalismo, artistas de toda
sorte e gênero. Os protegidos que ele semeou hoje estão por cima na imprensa e
nos bons empregos públicos. Ainda há pouco, na semana que passou, fui
testemunha de mais um ato seu. Eu vi o poeta pedir a uma pessoa ligada ao novo
governo de Pernambuco que mantivesse o emprego de alguns velhos conhecidos na
imprensa do estado, porque afinal todos eram pais-de-família, e precisavam
viver, entende? E com o mesmo ímpeto, antes, o ano passado, vi o poeta partir
uma torta ao meio e me dar de presente, no dia do seu aniversário. Logo ele,
que tem mulher, filho e sogra que adorariam o prazer de um pouco mais de tempo
com a delícia. Não adiantou conselho, ele exigiu que eu levasse para casa a
melhor parte. Este é o meu amigo. Generoso com o pouco, generoso com o muito,
generoso com o que poderá e poderia ter.
Se querem um motivo
para esse retrato de um poeta vivo, eu lhes digo. Encontrei Alberto neste
começo de ano abatido e triste. Tive vontade de lhe dizer, meu amigo, este ano
é o começo do melhor tempo de nossas vidas. Será que não você não percebe as
promessas que se anunciam? Vontade tive, mas um pudor e uma vergonha imensa me
fez cair em silêncio. Isto não é chacota, eu me disse, não é assim que se
responde a uma tristeza objetiva e subjetiva de um homem maduro, eu senti. Por
isso, pelo que eu não lhe disse, eu lhe digo ao fim estas últimas palavras de
Sancho Pança a Dom Quixote:
- Não morra Vossa
Mercê, meu amigo, mas tome meu conselho e viva muitos anos, porque a maior
loucura que um homem pode fazer nesta vida é deixar-se morrer sem mais nem
menos, sem que ninguém o mate, nem dêem cabo dele outras mãos que não as da
melancolia. Olhe, não seja preguiçoso: levante-se dessa cama e vamo-nos para o
campo vestidos de pastores, conforme combinamos. Quem sabe, atrás de algum
bosque iremos encontrar desencantada a senhora Dulcinéia...
Por isso, ao poeta
Alberto da Cunha Melo dedico esse retrato. Olinda, janeiro de 2007.
(Transcrito de “La
Insignia”).
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros
As almas poéticas são uma incógnita, apenas falando em números, para os que se dizem práticos e racionais.
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