Homens
* Por Rodrigo Ramazzini
Fim de
tarde. A esposa retorna do supermercado e encontra o marido sentado no sofá da
sala aguardo-a para tomar um chimarrão.
- Oi! O mercado
estava cheio hoje, por isso me atrasei.
- É... O chimarrão
está pronto já.
- Que bom!
Estou seca. Valdo! Nem sabe o que eu fiquei sabendo agora na rua.
- O quê?
- Por isso
que demorei também...
- Hã.
- Aliás, tu
já deves saber, mas não me contou... Sobre a Márcia e o Umberto. Sabes?
- Hã... Não
sei de nada. O que tem?
- Se
separaram!
- Opa! É?
- Arãn.
Dizem que foi uma baixaria...
- Ah é?
- Dizem que
ela bateu nele de tapa na cara e tudo! Coisa muito feia! Até polícia deu!
- Ah é?
- É... Foi de
sábado para domingo isso.
- Que coisa.
- Sabe
aquele sítio que o Umberto tem na descida aquela... Aquela que vai lá para casa
do alemão?
- Eu sei
onde é o sítio. Não lembra que nós estivemos lá há uns três anos? Acho que era aniversário
da Márcia...
- É mesmo!
Nem lembrava disso. Pois é... Dizem que de uns seis meses para cá, o Umberto
começou a dar umas festinhas no sítio...
- Hum.
- Uma vez
por mês dizem que rolava a tal festinha....
- Hã.
- R$ 80 a
entrada...
- ...
- Só os
amigos convidados...
- ...
- Com
cervejada liberada...
- ...
- Com
churrascada...
- ...
- Música
boa...
- ...
- E com...
- E com?
- E com mulheres
correndo de calcinha pelo sítio... Mulheres, não! Vagabundas correndo pelo
sítio de calcinha!
- Hum.
- Que pouca
vergonha! Olha a que ponto que chegam as coisas. Um homem velho fazer isso...
Um homem velho, casado, pai de família querendo bancar o “gurizinho”... Acabar
com o casamento por correr atrás de vagabunda. Pelo amor de Deus! Esse mundo
está perdido mesmo!
- É.
- Dizem que
a Márcia descobriu a tal festa, foi lá no sítio e pegou ele no flagra! Daí, que
se formou a baixaria!
- Hum.
- Por que
essa cara, Valdo?
- Que cara?
- Valdo!
Olha bem para mim... Olhando nos meus olhos, me responde: tu sabias destas
festas do Umberto?
Mesmo que
soubesse das festas, Valdo teria cumprido o acordo secreto dos homens que diz
que “homem nunca sabe de nada ou não viu nada” dos pares do mesmo gênero.
- Claro que
não!
- Olha para
mim, Valdo! Eu vou te perguntar de novo...
- Para de
encher o saco! Já disse que não!
- Tu já
foste em alguma destas festinhas promovidas pelo Umberto?
- Pô! Claro
que não!
- Sei... Sei...
Eu que fique sabendo, Valdo! Eu que fique sabendo que tu esteves lá um dia...
Um mísero dia... Tu és um homem morto! Ouviste bem? Um homem morto!
- Já disse
que não! Que inferno! Não sabia destas festas e nunca fui em nenhuma... nem
nunca recebi convite daquele “traíra”! Que droga!
- Por que se
alterou? Por que esta indignação? Por que “traíra”?
Irritado e
alterado com os relatos e pela sequência de perguntas da esposa, Valdo acaba
respondendo à questão no impulso, com o pensamento que martelava a sua cabeça
naquele momento, sem se dar conta das consequências e municiado pelo sentimento
de traição:
- “Traíra” porque
o cara se diz teu amigo e tal, mas na hora boa de te convidar para as tais
festas: nada! Nenhum convite. “Traíra” do inferno! Olha... É brabo! Ele que vá
se catar! Tem mais é que se....
Ontem, fez
três dias que Valdo está dormindo no sofá da sala...
*
Jornalista e contista gaucho.
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