Bendita
rotina!
A maioria das pessoas que conheço, e
com as quais convivo, queixa-se, amiúde, da vida rotineira que leva. As
reclamações vão desde o trabalho realizado, que não seria o de seus sonhos, ao
casamento, que caiu na monotonia e não raro acaba desfeito, com rusgas,
ressentimentos, mágoas e sofrimentos para todos os envolvidos. E as queixas não
param por aí. Passam, ainda, desde o tipo de lazer que os queixosos têm à
disposição, aos seus relacionamentos de amizade. E vão por aí afora.
Essas pessoas, no entanto, reclamam,
reclamam, mas não movem uma só palha para promover benéficas mudanças em suas
vidas. Conformam-se com o cotidiano banal, sempre igual, rotineiro e sem graça.
Mas seria mesmo assim? É possível que todos os dias sejam, de fato, “iguais”,
ou pelo menos parecidos? Claro que não! Em alguns, por exemplo, o sol brilha
intenso e, em outros, chove. Uns são de verão, com calor sufocante e, não raro,
com chuva no final do período; outros, são de inverno (ou de primavera, ou de
outono), mais frescos ou até mesmo gelados. Já aí há uma impossibilidade da
existência de rotina, monotonia, marasmo.
Ademais, por mais rotineiro que seja o
trabalho que a pessoa exerça, todos os dias têm coisas novas acontecendo. Basta
que se esteja atento para identificá-las. São, em geral, pequenos incidentes
diários (positivos ou negativos), mas que marcam nosso cotidiano. Ora é o
chefe, que dá uma bronca homérica, que a pessoa que a recebe invariavelmente
considera injusta, mesmo tendo cometido algum erro ou se mostrado impontual, ou
desatento ou improdutivo. Ora é um colega que nos ajuda (ou nos atrapalha). Ora
somos promovidos, ou preteridos numa promoção, dependendo do nosso empenho
profissional, capacidade e utilidade na empresa. E, quando somos demitidos...
aí sim, há uma quebra violenta de rotina. Essa mudança, porém, ninguém aprecia.
Não há, pois, dois dias rigorosamente iguais.
O mesmo ocorre em casa, na escola, nos
encontros com os amigos, com namoradas e em outros tantos atos da vida. Da
minha parte, confesso, gosto da rotina. E vou mais longe: eu mesmo estabeleço
uma, no meu dia a dia, para organizar e gerenciar tudo o que preciso fazer. Sou
uma pessoa extremamente metódica (meus críticos garantem que até exagero e que
sou obsessivo) e busco racionalizar meu tempo, que é o grande capital de que
disponho.
E como é essa minha rotina diária?
Revelo-a, sem pudor, até para atender a dezenas de pedidos, feitas por
leitores, curiosos em conhecer um pouco mais a meu respeito. Como não tenho o
que esconder, lá vão alguns detalhes de como é meu cotidiano. De antemão
reconheço que falta espaço para a vida social. Mas quando temos algum objetivo que lutamos para alcançar, alguma
coisa sempre acaba sendo sacrificada. Afinal, um dia tem, somente, dezesseis
horas úteis, e nem um segundo a mais. Minha rotina matinal permanece a mesma há
já quase um quarto de século. Já a vespertina, que era uma até 2013, é bem
outra nestes quase três últimos anos. Aliás, em 2007 já descrevi como ela era
então. De lá para cá, a rigor, pouca coisa mudou. A maior mudança é que troquei
as atividades jornalísticas pela dedicação exclusiva e integral à Literatura. A
parte da manhã não teve nenhuma alteração. Continuo acordando, sempre,
invariavelmente, na mesma hora, seja dia útil ou final de semana, ou então,
feriado. E cumpro todo um ritual, o mesmíssimo por anos e anos, no mínimo
trinta. E ai daquele que me obrigue a deixar de cumprir um único ponto desse
rito pessoal e cotidiano!
Após despertar, dedico cinco minutos
para meditação. Abstraio-me dos problemas e fixo-me num só tema, que analiso
ângulo por ângulo. Antes, leio algum poema, ou trecho já marcado de algum
livro, para balizar tais reflexões. Feito isso, antes mesmo da higiene pessoal,
tomo uma xícara de café preto, bem forte, que me desperta de vez, e cuido da
aparência. Tomo banho, faço barba, escovo os dentes, penteio-me e quando
termino, estou prontinho para começar a jornada diária. Infelizmente, tenho o
mau-hábito (diria, péssimo) de não me alimentar pela manhã.
O passo seguinte, pois, é ler os
jornais do dia (pelo menos três impressos e outro tanto da internet) e comparar
a edição de cada um deles. Faz parte da minha profissão, embora esteja afastado
dela há já quase três anos! Sou editor há mais de quatro décadas e ainda
considero-me como tal! Asseado e bem-informado, ligo o meu computador, para
conferir a correspondência eletrônica. Separo os e-mails que precisem ser
respondidos, arquivo os importantes e “deleto” (desculpem-me o neologismo, que
já se incorporou à nossa linguagem comum) os spams e tantas outras bobagens que
enviam para a minha caixa postal. De 2006 a 2009, era uma rotina nessa parte do
dia. De 2009 a 2013, passou a ser outra. E de 2013, aos dias de hoje, é uma
terceira, um tanto diferente das outras duas.
De 2006 a 2009, tão logo conferia a correspondência
eletrônica, encaminhava, à redação do Comunique-se, os textos dos
colunistas-fixos do dia (que eram três de cada vez) e dos colaboradores eventuais (dois diariamente) para o “Literário”,
do qual era (e ainda sou) o editor. Na ocasião, esse espaço era uma das seções
desse prestigioso portal jornalístico. Esse material era devidamente revisado e editado e
só então remetido ao Comunique-se. A partir de abril de 2009, o “Literário”
ganhou autonomia e foi transformado num blog autônomo. Sofreu algumas
alterações pontuais conservadas até hoje, quando está próximo de completar onze
anos ininterruptos (o que irá ocorrer em 27 de março de 2017).
Mas o passo seguinte não sofreu nenhuma
alteração. É o da postagem da crônica, de um artigo retirado do meu arquivo
jornalístico e da reflexão diária, redigidos previamente na véspera, no meu
blog “O Escrevinhador”, espaço que trato com o maior carinho e atenção e que
mantenho desde dezembro de 2006, com postagens rigorosamente diárias. É voltado
exclusivamente à minha produção (literária e jornalística). O passo seguinte,
até 2010, era acessar o extinto Orkut. Postava, então, na comunidade criada em
minha homenagem. uma meditação e, eventualmente, algum texto mais extenso,
sempre de caráter literário, antes de conferir os scraps recebidos, que respondia
à noite, quando retornasse do trabalho. A partir de 2010, até hoje, só mudei
mesmo a rede social. O Orkut foi substituído pelo Facebook.
O passo seguinte era (e ainda é) a
redação de crônicas novas (geralmente, escrevo duas por dia), que eram e que
são enviadas aos dez sites da internet em que sou cronista fixo. A esta altura,
já são 16 horas. Até 2013, era o momento de me aprontar para cumprir minha
jornada diária na redação do jornal (ou dos jornais) em que então trabalhava
como editor, que, não raro, entrava pela madrugada. Desde 2013, quando passei a
gozar efetivamente da minha aposentadoria (aposentei-me em 1997, mas continuei
trabalhando, com registro em carteira, recolhimento de INSS e tudo mais, por
dezesseis anos, enquanto a lei me permitia), esse passo não é mais necessário.
Não tenho mais que ir a lugar algum. .
Naquela época, ao voltar para casa, tomava
um banho morno e relaxante, jantava e partia para a última etapa da minha
rotina. Respondia, rigorosa e meticulosamente, todos os e-mails recebidos,
fazia a programação para o dia seguinte e editava os textos que seriam postados
na próxima manhã no “Literário”. Hoje (desde 2013) não preciso mais disso. Não
saio de casa para absolutamente nada. Depois da janta, portanto, além de
responder os e-mails que têm que ser respondidos, dou uma última passada no
Facebook e no Twitter e só então, desligo o computador. Ufa! A jornada chegou
ao fim! Da obrigação, parto, de imediato, para a satisfação.
Depois de ler, por cronometrada e exata
meia hora, algum livro selecionado na véspera, dou por encerrada a jornada que
tanto me satisfaz. Vivo para isso. Vem, então, o melhor momento do dia. Ou
seja, aquele em que dou a devida e plena atenção à amada esposa, com a qual sou
casado há 42 anos, que me acompanha, estimula e compreende e que tem a imensa
paciência de esperar que eu cumpra, rigorosamente, sem deixar de fora nenhum
passo, a minha estafante, mas bendita rotina. Cumprida a obrigação conjugal
(que, claro, é a coisa mais prazerosa de todos os meus dias e da minha vida
inteira), faço uma breve oração e... durmo. De imediato, como uma pedra! E sem
necessidade de nenhum sonífero ou calmante! Afinal, ninguém é de ferro, não é
mesmo?! O meu dia é chato? Provavelmente o leitor dirá que sim! Mas não troco
essa “chatice” por nada deste mundo. Bendita rotina que me organiza, me
fortalece e me mantém lúcido, saudável e vivo!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
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