A desumanidade nossa de todos os dias
* Por
Mara Narciso
Zeca Baleiro que me
perdoe, mas beijo de novela não me faz chorar. E não apenas por que não vejo
novela. O que me faz soltar lágrimas é o trabalho dos médicos sem fronteiras,
ligado a guerras, tragédias naturais, epidemias, situações em que as dores nos
chegam em profusão. Vejam, se tiverem
coragem. Sentados em nossas torres (nem sempre de marfim), em parte nos
sentimos a salvo, importantes. Lá embaixo, quem pode disputa um lugar na fila
de comida, ou nova oportunidade de ter esperança como futuros devotos. Temos
algo a repartir? Então que repartamos logo, pois a fome tem pressa. É para
hoje; amanhã a vida já partiu. A morte, não sei se todos repararam, é
irreversível. É preciso salvar vidas, acolher crianças perseguidas, velhos
abandonados. Todos sabem disso, mas preferimos esquecer esse lado da nossa
consciência. Se é que ainda a temos. Somos muitos que não queremos fazer o bem.
Basta ler uma mesma notícia sob pontos de vista opostos. Duas verdades aparecem
simultaneamente. Os socorristas com cães se agarram num amontoado de escombros
em busca de uma vida, enquanto aviões passam e mandam mais bombas sobre eles.
Santa ingenuidade! As vidas dos nossos inimigos vencidos e rendidos nada valem.
Matá-los é a solução vista, filmada e divulgada. Tal gesto monstruoso demonstra
força. Se por um lado não cai uma folha de árvore sem a permissão de Deus (é o
que dizem), por outro, nenhuma guerra acontece sem que o interesse econômico
diga sim.
Quanta crueldade
contra nossas crianças, a parte mais fraca, que, caso fossem filhas nossas,
abriríamos caminho até com as mãos, mas os pequenos de outros países, junto com
seus pais imigrantes são vistos como inimigos, alguns derrubados com rasteira
nas fronteiras. Quando para cá imigram comem, bebem, agasalham-se, ocupam os
postos de trabalho (escassos), instalam-se em abrigos, produzem lixo e dejetos.
Melhor que não venham se somar aos nossos desmesurados problemas. Mal admitimos
o quão mesquinhos somos. Está com pena? Leva para casa, provoca aquele que
pensa: para mim, tudo, para os demais, coisa nenhuma. Solidariedade? Quem nada
pode nos oferecer que desapareça.
Caso tenha pouca
comida ou agasalho, o meu primeiro. Tenho força, avanço, derrubo, passo na
frente. Numa cultura brasileira, que acha natural tudo que nos beneficie, o
nosso estando garantido, se sobrar algo que não queremos, faremos “caridade”.
Somos hipócritas, queremos exclusividade no território, e nos dizemos
bonzinhos. Queremos tudo para nós, não pensamos no coletivo, não respeitamos os
vizinhos, perturbamos, fazemos barulho, e, egoístas, falamos “da minha porta
para fora, não quero nem saber”.
As monstruosidades do
noticiário demonstram que criamos seres insensíveis, a julgar pelos fatos,
somados ao que falamos e escrevemos. Nem duras leis seguram nossos instintos
perversos. Mesmo diante de uma calamidade que exija ampla ação governamental,
preferimos o saneamento estético, como esconder a ferida urbana com um muro.
Não sejamos cínicos. A lenda de esperar o bolo crescer para dividir já faz
parte do anedotário. Até que ponto vai nossa mente abominável? Seríamos capazes
de contar ao padre/pastor/terapeuta/mãe/melhor amigo pelo menos parte do que
pensamos? Ah, muitos de nós não só falamos como trombeteamos todo tipo de
desprezo, matamos socialmente, humilhamos, espezinhamos, usamos qualquer arma
para o achincalhe. O prazer é comandar campanha difamatória, ameaçando de morte
em rede nacional. E aos que estão fora do jogo, vamos chutar.
Somos uma sociedade
doente. A quem detestamos queremos tirar tudo, bens, dignidade, respeito
social, caso ainda exista algum. Com a História suja que temos de caçar,
torturar, seviciar, cortar pele e carne dos nossos semelhantes (vide tortura e
perseguição a indígenas e negros desde o século XVI, e aos pobres e fracos até
os dias de hoje), o que esperar desse tempo selvagem em que vivemos? A religião
pretende domar os vícios e implantar uma civilidade do bem. E o que temos?
Gente capaz de causar dor ao outro para se divertir. O que fazer para nos
parar? A nós, esses monstros?
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Assino embaixo, palavra por palavra, sem tirar e nem por. Texto lúcido e brilhante. É o retrato, nu e cru, sem retoques, da humanidade, cruel, cínica, podre e egoísta. Parabéns, Mara!!
ResponderExcluirEsse retrato dói. Obrigada, Pedro, pela força.
ResponderExcluirÀs vezes - e como são muitas essas vezes - nada é mais desumano do que nós, seres humanos. Texto contundente. Abraços, Mara.
ResponderExcluirA lista de torpezas e patifarias é dispensável. Nem é preciso citá-la. Todos a sabemos de cor. Choca tanto que nos faz mal falar. Obrigada, Marcelo!
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