Nascemos
para o mundo
O homem de espírito somente tem seu
valor reconhecido quando ou "se" comunica aos que o rodeiam suas
observações sobre tudo o que o cerca. Se compartilha as idéias que tem com um
número máximo de pessoas que lhe sirvam de "espelho" e reflitam toda
essa "luz" que emite. Se tem opinião formada sobre vários assuntos.
Se oferece ao mundo, da mesma forma que recebe, suas criações. Se brinda a
comunidade, não importa qual – se a da
rua, do bairro, da cidade, do país ou mundial – com o produto resultante da sua
atividade intelectual e da sua sensibilidade.
O fruto da razão e da emoção só tem
sentido quando se incorpora ao patrimônio comum do nosso tempo. Quando é
compartilhado com os outros. Quando consegue despertar interesse e enriquece a
cultura de um povo e de uma época. Quando resulta em alguma conseqüência. É sua
única razão de existir.
Este é o motivo principal da minha
atividade, tanto como jornalista, quanto como "aprendiz de homem de
letras". Textos como este têm o objetivo de estabelecer um confronto de
idéias e algumas vezes de provocar quem os lê, para deflagrar uma saudável
discussão, que seja proveitosa para ambos: para o comunicador e para o
destinatário da comunicação. Embora profissional, nunca aspirei obter dinheiro
com aquilo que escrevo. A venda das minhas idéias somente ocorreu por duas
razões e ambas me incomodam. Verificou-se em decorrência da necessidade de
prover minha subsistência e a da minha família e do fato de haver quem esteja
disposto a pagar por elas.
Mas isto me aborrece. Sinto como se
estivesse vendendo um filho. Ou como se estivesse me prostituindo, cedendo uma
parte de mim por dinheiro. É certo que se trata de uma recíproca. Investi
muito, em termos de recursos materiais, de tempo e de esforço para aprender o
que sei. Ainda assim, não me sinto muito confortável vendendo o que crio. Daí
ter experimentado inenarrável sensação de prazer ao doar, em 1998, há,
portanto, 19 anos, a totalidade dos direitos de venda do meu livro "Por
uma nova utopia" a uma instituição beneficente, o Centro de Defesa da
Vida, cuja atividade se caracteriza em demover os suicidas potenciais de
cometerem essa loucura.
Por isso, a maior parte do que publico
– e que não é pouca coisa – é oferecida de forma gratuita aos órgãos que
veiculam meus textos, para que eles os divulguem ao seu público, que por
conseqüência também se torna meu. Pelo menos presumo que seja assim, caso
contrário esses jornais certamente me fechariam as portas. Não pretendo ser
genial. Não me considero assim. Não, pelo menos, o tempo todo. Tanto que nunca
utilizo jargões, termos técnicos, expressões características, mesmo quando
abordo complexos temas filosóficos. Procuro ser simples nas palavras que uso,
na maneira com que exponho as idéias e nas teses que defendo.
Há algum tempo (há uns 20 anos) fui
acusado por alguém, que se dizia meu admirador, de fazer as citações, que
caracterizam quase todos os meus textos, por puro pedantismo. Ou seja, para
exibir aos outros o meu grau de leitura. Que bobagem!!! O que busco fazer é
simplesmente devolver o que recebo: idéias alheias. Claro, acompanhadas, sempre
que possível, da respectiva opinião sobre elas, além de jamais dar os devidos
créditos aos seus respectivos autores. Nunca me apropriei do que não é meu.
Esse modo de agir é uma forma de
reverenciar os grandes pensadores, os grandes artistas, os grandes criadores
(atuando como seu espelho) e de ajudar a impedir que eles e suas criações sejam
esquecidos. Há quem goste do meu estilo, que se propõe a ser nada mais do que
uma "conversa" com os leitores, como aquelas que nos tempos de
estudante algumas pessoas têm, em geral às sextas-feiras à noite, com os
amigos, em alguma mesa de bar, regadas a chope. Ou que outros mantêm
diariamente, após a saída do trabalho, no que passou a ser conhecido como
"happy-hour".
Escrevo
algumas bobagens, como acusou alguém, há uns 20 anos, em uma maldosa e
desaforada carta anônima que enviou ao jornal em que eu então trabalhava? (Ele
disse "só" bobagens, o que, convenhamos, é um exagero). Tudo bem!
Graças a Deus! É sinal de que ainda sou humano. Mas pelo menos tenho a coragem
de me expor. Estou disposto a me relacionar com os outros, sejam quais forem as
consequências. Compartilho com os semelhantes (e dissemelhantes) meus anseios,
sonhos, virtudes e fraquezas. Mesmo escrevendo tolices, ainda assim estou
induzindo alguém a pensar. Inclusive esse mesmo sujeito azedo e mesquinho – e
certamente complexado e infeliz por precisar se esconder no anonimato.
Dom Bosco afirmou que "Deus nos
colocou no mundo para os outros". A recíproca é verdadeira. Ou seja, os
outros também existem para nos ajudar, nos atrapalhar, nos apoiar, nos
repudiar, nos aprovar ou nos contestar. Daí a comunicação ser tão importante,
seja em que plano for. Precisamos é buscar uma interação. E quanto mais ampla e
constante puder ser, tanto melhor.
A maior prova de que não busco nenhuma
vantagem com o que escrevo, é que não conheço a maioria dos meus leitores. Não
atino quantos são. Desconheço seu sexo, sua cor, sua religião, sua etnia, sua
nacionalidade, sua condição social, seus gostos, suas idiossincrasias ou seu
grau de cultura. Sei, apenas, pelos resultados que obtenho, que não são poucos
estes amigos (e inimigos) anônimos. Mesmo que fosse um único, seria válido e
bem vindo. E escreveria para ele (ou para ela) com o mesmo entusiasmo com que o
faria para 50 mil, 100 mil, 500 mil, um milhão ou muito mais.
Tenho a certeza, por outro lado, que
meus leitores, sejam quais ou quantos forem, são fiéis, pelo tempo em que sou
solicitado por jornais dos mais variados portes e estilos a colaborar com eles.
E pelos e-mails e telefonemas que recebo (aprovando e reprovando meus textos).
E pelas manifestações de carinho com que sou brindado na rua. E pelo meu
ingresso, no já longínquo ano de 1992, na Academia Campinense de Letras. E pelo
título de cidadania que recebi em 1993 da Câmara Municipal de Campinas. E por
tantas coisas mais... Nada disso teria acontecido se não me conhecessem. E se
minhas idéias não provocassem nenhuma reação, mesmo que às vezes de ostensiva
discordância, que não fosse a pura indiferença...
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Aprendi e aprendo com você, Pedro. Aprendo inclusive a discordar. Também não gosto de jargões, a menos que já estejam no domínio público e a TV faz isso acontecer. Elogio sincero é bom, o exagerado incomoda. A concordância integral incomoda. A oposição de pensamento abre portas e é bom. Passamos a considerar aquela outra possibilidade de pensar. Gosto das citações para dar solidez ao seu argumento, mas acredito que, pela sua vivência, tenha autoridade para pensar o que quiser, e possa expor seu pensamento, sem recorrer a ninguém, porém, seu estilo é este e eu aprecio. Torço o nariz para o pernóstico. Nossa amizade virtual já vai para dez anos (fevereiro de 2007 soube do Literário no Comunique-se), e só nos desentendemos uma única vez. Pelas minhas contas, somamos. Pena que as pessoas não gostem de escrever o que pensam do que leem aqui.
ResponderExcluir