Volta por cima
A maior parte do meu sofrimento advém
das aflições alheias. Já fiz essa confidência em outra crônica, publicada neste
espaço tempos atrás, mas nunca é demais reiterar. Minha angústia, por exemplo,
é proveniente da miséria, da violência, da exclusão social e da desagregação
familiar de centenas de pessoas ao meu redor, de milhares um pouco mais
distantes de mim, de milhões por todo o País e de bilhões através do mundo.
Excluídos, miseráveis e infelizes não faltam. Pelo contrário...
Essa atitude não se trata, como se pode
supor, de querer, apenas, parecer "bonzinho". É uma questão de berço,
de formação, de educação para a solidariedade. Não são minhas dores físicas,
felizmente raras, que me incomodam. Não são minhas carências financeiras, não
tão agudas, que preocupam. Não são meus desacertos emocionais que me tiram o
sono.
São os sofrimentos alheios que me
consomem a alegria e o otimismo. O pior nessa história é a impotência em ajudar
esses outros que sofrem, dada a sua enorme quantidade. Qualquer ação nesse
sentido que eu tome desaparece, se torna irrisória e invisível. É uma ínfima
gota de água num oceano de carências.
Isso não me isenta, claro, da
responsabilidade de tentar ajudar a quem caiu, não importa a profundidade do
poço em que está. A tendência, quando cruzamos com alguém que fracassou – com
um homeless, com um marginal aparentemente irrecuperável, com o viciado em
drogas ou álcool, ou com tantos e tantos outros tidos como “perdedores” – é
olhar essas pessoas do alto, com ares de superioridade, como se também não
estivéssemos sujeitos a esse tipo de queda, ou até de fracassos piores. Mas
estamos.
Pincei, a respeito, alhures, uma
citação de Gabriel Garcia Márquez, que li não sei se em algum de seus livros (o
que é o mais provável) ou em alguma de suas entrevistas. Bem, a fonte não
importa. Importa é a sabedoria das palavras do jornalista e escritor
colombiano, ganhador de um Prêmio Nobel, quando afirma: “Aprendi que um homem
só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a
levantar-se”. Ah, se todos agissem assim, como o mundo seria melhor, mais
justo, mais humano e um lugar mais aprazível para se viver! Esse tipo de
atitude, porém, é sumamente raro.
Para uns, esse desfile diário de
desgraças, violência e loucura que os meios de comunicação nos trazem age como
fator de dessensibilização. Estes assimilam tais dramas como o fazem com o
enredo dos filmes norte-americanos, da enorme montanha de lixo cultural que
assistem na telinha. Encaram-na como se não passasse de ficção.
Mas para quem, por alguma razão –
sorte, esforço sobre-humano, meios ilícitos etc – conseguiu a acidentada
ascensão da miséria para um patamar social mediano, e que sentiu na própria
carne os efeitos da exclusão social, esses fatos abrem dolorosas feridas na
alma. Tiram a alegria de viver.
O que fazer? Se omitir simplesmente? É
o que a maioria faz! Agir como se nada estivesse acontecendo? É uma atitude,
convenhamos, rotineira. Fechar os olhos ao drama que se desenrola ao redor? A
maioria fecha. Se alienar do mundo e da realidade, se isolando em uma torre de
marfim? Alguns artistas fazem isso. Como deixar de olhar tudo isso e ainda
continuar sendo humano? Sim, como?
O
desencanto que se apossa da maioria das pessoas, nestes tempos loucos de
insensatez e de violência, é tão grande, que pequenos (mas de maiúsculo
significado) gestos de bondade e de solidariedade, que se praticam no dia-a-dia
(e que não são poucos), passam despercebidos.
Ou são ignorados, quando divulgados publicamente. Ou são, na melhor das
hipóteses, logo depreciados.
Não
podemos, porém, nos importar com esse tipo de opinião. Sejamos solidários,
sempre, sem esperar retribuição ou sequer gratidão. Ter condições de servir, ao
contrário de ser servido, é força, é poder e é uma bênção reservada somente a
pessoas muito especiais.
A caridade, tida como uma das virtudes
cardeais que os homens deveriam cultivar, está
em baixa. Vivemos
numa civilização consumista, marcada, sobretudo, pelo individualismo exacerbado,
pela tola acumulação de bens materiais, pelo desperdício e ostentação. Tudo
funciona na base do "cada um por si". Ou do famigerado desejo de
"levar vantagem em tudo".
Felizmente para todos, reitero, há exceções, que merecem ser, quando não
exaltadas – para que o bom exemplo possa se reproduzir, multiplicar e
frutificar – ao menos imitadas, posto que parcialmente. Por isso, leitor
inteligente e sensível, que não perdeu ainda aqueles ideais nobres que
acalentou na mocidade, quando solicitado a socorrer alguém que precise, seja
quem for, não se omita. Não o olhe de cima para baixo, a menos que seja para
ajudá-lo a levantar-se. Faça a sua parte. Diga sim à humanidade. Diga sim à
dignidade. Diga sim à vida.
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Vendo um morador de rua deitado no chão tremendo de frio, uma moça pegou o agasalho que havia ganhado e começou a vestir o mendigo. Era um pulôver roxo. Estava difícil, pois o senhor, provavelmente doente, não conseguia ajudá-la na empreitada. A moça se emocionou tanto que chorou e teve de parar. Foi quando alguém ajudou o homem a se vestir.
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