Como um harém para eunucos
O livro, na feliz conceituação de Jorge Luís Borges, “é uma
extensão da memória e da imaginação”. Desconhece-se quem foi o escritor
pioneiro, o primeiro intelectual que perpetuou em textos observações, reflexões
e fantasias. Ele, todavia, existiu e revolucionou o mundo com sua ousadia e
sabedoria. Esse bem, hoje tão farto e acessível a quem o queira e dele precise,
foi, por milênios, preciosidade sumamente rara, dada as dificuldades materiais
(não intelectuais) para sua produção. Por estranho que pareça, as bibliotecas
surgiram primeiro – e alguns séculos, se não milênios antes – do que o livro. A
razão é até lógica, como se pode depreender sem muito esforço.
Tão logo a escrita foi inventada, como fruto de premente
necessidade, essa forma hábil (e genial) de registro foi utilizada,
inicialmente, e por muito tempo, apenas por governos, e para fins específicos,
notadamente práticos. Ou seja, para registrar, por exemplo, os estoques de
alimentos nos armazéns do Estado. Ou para contabilizar a quantidade de homens
válidos, aptos a pegarem em armas, para defesa do país ou para eventuais (e
bastante comuns) guerras. E para tantos e tantos outros fins, gerando
documentos de diversas naturezas que facilitavam e não raro até viabilizavam a
administração pública. E esse material todo era arquivado, ou seja, guardado
nas bibliotecas, que então, reitero, não contavam com livros (que ainda nem
existiam) e que só eram acessíveis a servidores do Estado. O material que
continham era sigiloso e causaria sérios transtornos ao governo caso caísse em
mãos inimigas.
Com o tempo, esses depósitos de documentos foram estendidos
aos templos, dedicados aos vários deuses então cultuados (em algumas partes,
esse panteão ascendia às centenas). Pode-se dizer que essas bibliotecas, também
restritas, posto que exclusivamente ao clero, continham orações, supostas
comunicações dos sacerdotes com os deuses e outros tantos textos considerados
sagrados e, portanto, interditos à curiosidade e aos olhares profanos. Esse
material, igualmente, a exemplo dos documentos oficiais, não pode ser
considerado “livro”, não, pelo menos, como o conhecemos. Desconhece-se por
completo quando, como e onde esse objeto tão importante para o desenvolvimento
artístico e cultural dos povos surgiu. Há especulações a respeito, e muitas,
abundam teorias, todavia... sem qualquer prova.
Os historiadores classificam, para efeito de estudo, as
bibliotecas em quatro categorias, de acordo com o material utilizado para a
redação dos documentos (e tempos mais tarde, de livros). As primeiras que foram criadas são as chamadas
“minerais”. Seu acervo era totalmente constituído de plaquetas de argila. Houve
várias do tipo, na região do Oriente Médio e Mesopotâmia. A biblioteca “mineral”
que os historiadores acreditam ser a mais antiga é a do rei Assurbanipal II,
último dos soberanos da Assíria, datada do século VII a.C, localizada na
capital do seu império (que em certo tempo abrangeu, também, a Babilônia e o Egito),
a cidade de Nínive. Ela foi encontrada no século XIX por arqueólogos ingleses.
Seu acervo era constituído de cerca de 25 mil plaquetas de argila grafadas em
escrita cuneiforme, muitas das quais preservadas e que hoje integram
importantes museus europeus.
Essa biblioteca, além de documentos do governo, continha
obras, digamos, literárias, entre as quais a mais famosa é a “Lenda de
Gilgamesh”, relatando um dilúvio universal que teria dizimado toda a população
da Terra, preservando, apenas, a família desse herói e os animais e aves que
conseguiu reunir em uma arca que construiu. Essa história, para muitos, teria
servido de base para o relato bíblico da epopéia de Noé, embora outros tantos
neguem. A biblioteca de Nínive continha preciosos relatos sobre o mundo natural
de então, além de textos sobre geografia, matemática, astrologia e medicina. Continha,
também, manuais de exorcismo e de augúrios; códigos de leis; relatos de
aventuras e textos religiosos. Talvez se esse acervo fosse descoberto séculos
antes do que foi, o progresso científico e cultural dos povos teria sido
acelerado e menos traumático que foi.
O segundo tipo de bibliotecas, na classificação dos historiadores,
é o que eles chamam de “vegetal”. O tipo de material utilizado na redação dos
seus textos, nesse caso, era o papiro. Acervos de babilônios, também de
assírios, egípcios, persas e chineses tinham esse material como base. Esses
mesmos povos tinham, concomitantemente, bibliotecas “minerais” e ainda as chamadas “animais”,
constituídas de pergaminhos, ou seja, de couro curtido de animais,
principalmente de cabras. O grande problema desses materiais era sua
fragilidade, o que exigia sua frequente recompilação, para que os documentos
não viessem a se perder com o tempo.
Mais tarde, com o advento do papel, fabricado pelos árabes
(mas inventado pelos chineses por volta de 125 a.C), começaram a se formar as
bibliotecas (públicas, mas também as já privadas) mais ou menos parecidas com
as nossas. Seu acervo deixou de ser exclusivamente, ou majoritariamente, de
documentos, como até então. Pelo contrário, começou-se a priorizar o livro, tal
como conhecemos. Essas bibliotecas são chamadas pelos historiadores, como seria
de se esperar, “de papel”. Essa transição, porém, requer comentários a parte,
que me proponho a fazer oportunamente.
Com as facilidades atuais, de acesso a obras de todas as
naturezas e assuntos, abrangendo, virtualmente, a totalidade do conhecimento
humano, considero o cúmulo da indiferença, para não dizer “burrice”, a atitude
de quem tem todas as condições possíveis e imagináveis de ler, mas não lê.
Victor Hugo fez uma comparação até um tanto chula, mas não menos verdadeira, a
respeito. Escreveu: “Há pessoas que têm uma biblioteca como os eunucos têm um
harém”. Óbvio que para o castrado, de nada vale contar com inúmeras e belas
mulheres para os prazeres do amor. A comparação parece-me politicamente incorreta,
embora não deixe de ser ilustrativa sobre o que os que não cultivam o saudável
(e indispensável) hábito de ler deixam de usufruir. Porquanto, como observou
Thomas Carlyle: “Tudo o que a humanidade tem sido, feito, pensado ou lucrado,
encontra-se como que magicamente preservado nas páginas dos livros”.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Leio quase o tempo todo, e menos do que gostaria. Não entendo o mundo sem ler.
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