Um conto de sangue
* Por
Rosane Magaly Martins
Ela descende de uma
linhagem de mulheres às quais foi negado o direito ao prazer, ao orgasmo e ao
amor. Não sabia disso e não se sabe se tal conhecimento teria mudado seu
destino traçado quando nasceu. Tinha escrito na testa e no braço direito, assim
que nasceu, duas sinas: a de pobre e pecadora. Pobre, porque nunca teria nada
seu, nunca. Pecadora, porque seu caminho seria só, não solidário e na contramão
das missas dominicais.
I POBRE
Eu lembro de sua mãe
pedalando pelos morros da cidadela, pelas madrugadas que salvavam cristãos,
para não perder os prêmios miseráveis ao final do mês. Sim! O prêmio era sempre
algo que não serviria para ninguém mais, a não ser para aqueles miseráveis que
tinham como karma, que acordar todos os dias às quatro da madrugada.
Ela colocava aquele
vestido surrado, branco com pequenas flores coloridas estampadas, doado de
alguma família menos pobre, que nem combinava com a sandália gasta e velha e
pedalava. Pedalada seu tempo, suas ruas, cada pedrisco e buraco que se
avizinhava. Nestes trajetos pela madrugada silenciosa, lhe viam alguns sonhos
quase possíveis de serem realizados. Talvez encontrar um homem bom, bonito e
que se possível, lhe gostasse e lhe tirasse da miséria onde foi nascida.
Veio-me agora uma cena
de sua pequena avó paterna caminhando morro abaixo, antes de qualquer galo da
vizinhança despertar, com um punhal escondido na bolsa, e se ia entre pés de
carrapicho, de língua de vaca que cortavam suas pernas alvas e ainda quentes da
cama. Ela tinha medo das maldades do mundo, dos homens que espreitavam moças
ainda virgens que iam ao trabalho na separação de folhas de tabaco, antes do
sol nascer.
A avozinha não tinha
sonhos secretos, pois nunca havia dormido uma só noite completa que lhe
possibilitasse isso. Não havia cinema, novela nem sonhos junguianos. Era
acordar e trabalhar até que novamente o corpo fadigado por longas caminhadas e
horas sucessivas cheirando fumo, com mãos grossas, pretas e sem carinho
pudessem finalmente descansar.
Soube ainda que a
outra avó, a mãe da mãe, não vinha de melhor estirpe. Desde os 14 anos tinha
sido entregue a um homem que só fazia-lhe às vezes de uma fêmea para satisfazer
sua lascívia, esconder seu sexo e agasalhar seus líquidos. Era um homem rude, que
cuspia fumo mascado e levantava seu vestido quando lhe proviesse. Eram filhos e
filhos saindo de si, sem que tivesse tempo de pensar, de fritar, de fugir ou de
trocar seu vestido emprestado, roto, sujo e largo.
A mãe, pobrezinha, não
sabia de cantigas, de carinhos em seus cabelos, de banhos em tinas quentes nem
de bonecas. Tudo era feito a navalha, no frio e no rio. O banho diário, a roupa
que deveria ser limpa semanalmente, a louça suja eram repassadas nas águas
frias do rio da cidadela. Não olhava nos olhos de ninguém, pois poderiam
descobrir seus segredos. Sim, pois ela era uma das poucas que ousara sonhar, já
na adolescência e sob os olhares desejosos dos homens da cidade. Não entendeu
bem o que nem o por que dos olhares, das obscenidades que ouvia quando passava
com o vestido muito curto, os seios meios em riste, as cochas perfeitas pelos
exercícios matinais de ir e vir do trabalho.
A avó paterna não
podia mais com aquilo. Morava feito macaco, em luar íngreme, feio, frio e
úmido. Seu filho mais velho havia tido o crânio amassado por um ônibus enquanto
dava a ré, em frente da igreja. O filho
mais novo, desde então, nunca mais riu nem falou. Ele lembrava da massa
encefálica do irmão escorrendo pelo meio fio, dos gritos desesperados das
vizinhas e do motorista que não havia visto os meninos na bicicleta. O filho
mais novo da avó paterna esqueceu o que era sonho e as noites longas, eram
banhadas de choros, lamentos e carpideiras do velório do irmão.
Quem disse que
sofrimento salva? Quem disse que Deus ajuda quem cedo madruga? A bordadeira
deixou o pano de enfeitar cozinha pronto, em ponto cruz azul, sobre a mesa. No
outro dia a vizinha viria apanhar, para dar à amiga que iria casar sábado ao
final da tarde. Soube que ela tinha conseguido um bom homem, um bom homem para
casar. Quem lhe apresentou foi a irmã, que trabalhava num prostíbulo por
dinheiro e por prazer. A irmã disse: “com esse você vai casar. É homem
direito”.
A avó materna chorava.
Não queria mais tanto filho, nem ser trepada todas as noites pelo marido
cachaceiro, arruaceiro. Não tinha mais forças para dizer nem que sim, nem que
não. Nem a reza lhe salvaria, pois não há lugar no céu pra tanto filho. Ela
limpava o gozo do marido com aquele paninho que a filha trouxera da malharia.
Até quando ela teria que suportar tudo aquilo? As brigas dos filhos, aquele que
fugia para mendigar, o outro para roubar e a mais velha, para transar com
qualquer um.
A falta do futuro como
esperança, a desgraça do passado como lembrança.
Lembro de sua mãe,
chorando na morte do marido tão bom, tão escolhido a dedo pela irmã prostituta.
Os bons morrem antes e é deles o reino dos céus. Ela havia ficado para purgar
seus pecados. Os pecados de sua carne trêmula, fraca, epiderme e derme
intumescida pelo prazer de ser vista não só como uma bicicleta.
A avó paterna, melhor
sorte não teve. Dizem até que rezou muito pela sua morte. Mas os bons morrem
antes. O marido se foi e a deixou sem nada, com a miséria nas mãos, contrato de
aluguel vencido, filhos doentes. Não poderia ter sido diferente. Seria dela o
reino dos céus? Por sofrer tanto e nunca ter conhecido o prazer haveria de ter
recebido como dádiva das novenas dos últimos dias, um lugar assegurado, lá, bem
lá no céu.
A outra avó, que
enrolava fumo, continuava na safra. Mas acreditava que haveria salvação. Quando
ele morreu de cirrose e ela pode dormir uma noite inteira com os dois olhos
cerrados, respirou aliviada. O filho calado partiu, criou família. Ela não
teria mais com o que se preocupar a não ser com a manutenção das sepulturas,
para assegurar que dali não sairiam: o filho mais velho com crânio partido e
esperanças vãs e o marido morto por cirrose, maus-tratos e pelo sofrimento que
infligiu ás mulheres estupradas pelo seu caminho.
A cidadela permanece
impávida.
O rio já não lava as
partes das moças, nem as louças nem as roupas da pobreza.
II PECADORA
Ela descende de uma
linhagem de mulheres às quais foi negado o direito ao prazer, ao orgasmo e ao
amor. Tinha escrito na testa e no braço direito, assim que nasceu, duas sinas:
a de pobre e pecadora.
Dizem que a mãe era
uma puta, que dava para qualquer um que lhe prometesse que teria prazer, que
era poderosa, bonita, fogosa. Havia cansado da solidão, das noites sem beleza,
sem calor, sem tesão. Soube pela boca das amigas que ela era uma mulher
avassaladora. Onde passava com seus vestidos bem cortados, com seu soutien
alinhado e o perfume do catálogo comprado em duas parcelas, fazia com que os
homens enlouquecessem. Não sabiam as outras mulheres se era seu cheiro, se era
o balanço de suas cadeiras, se era o sorriso no canto esquerdo da boca, ou o
olhar atrevido diretamente nos olhos de sua presa.
A avó paterna não
cometeu pecados. Tinham um desejo sórdido pelo padre da paróquia. Imaginava-se
por vezes levantando sua batina e recebendo as bênçãos celestiais depois de
subir em seu ventre e incessantemente fartar-se dele. O segundo marido, um
santo, pouco pode fazer pela mulher viúva que não mais descia o morro com o
canivete na bolsa. Ele queria rezar, levá-la à quermesse, à festa dos amigos e
dizer para todos que não era gay, nem anormal por estar com 40 anos e ser
virgem. Fora ela, aquela mulher fogosa que lhe despertou os pecados. Passava
por ele, diariamente, com as cochas quentes, com as faces rubras, com o vestido
curto, com o salto médio de seu sapato envernizado. Devorava-o com os olhos e
até com os cheiros que fabricava com suas flores de jardim.
A outra avó desistiu
de querer outro homem. Houve até dias em que queria ter nascido homem, pois não
via vantagem alguma em ser assim, uma mulher, parideira. Já não usava
calcinhas, para que os outros filhos não a vissem sempre no chão, jogada.
Sempre que ele trepava nela, percebia os olhos do pecado lhe espiando pelas
frestas do sótão. Que olhos eram aqueles? Que risos eram aqueles que lhe
impediam a entrega e o prazer?
O prazer não era o da
carne crua, do banho nu, do rio gélido que limpava as partes pudendas e
calorosas. O prazer não era mais do coito, das vogais que escapavam da boca
enquanto estavam ali entregues um ao outro. O prazer não habitava mais a cama
nupcial que já havia experimentado outros momentos. O prazer haveria de ser o
que não teriam nunca aquelas mulheres pecaminosas, perdidas em um passado de
trevas e devassidão.
O pecado estava
tatuado nelas e a santíssima trindade havia proferido a sentença: culpadas pelo
prazer e haveriam de levar o fardo da frigidez, do coito interrompido, do sexo
sem amor, do prazer unilateral.
Eram descendentes das
bruxas, das mulheres que habitavam as florestas e dançavam nuas sob o luar. Das
mulheres livres e puras. Das mulheres élficas. Das mulheres que haviam libertas
sob as asas.
Eram as sucessoras da
inquisição, das que morreram sob malleus maleficarum. Eram as bruxas do norte
da Alemanha que nunca abdicaram dos demônios em nome da cristandade.
A mãe, a avó paterna e
a outra haveriam de possuir poderes sobrenaturais das bruxas. O demônio fez com
que as coisas corressem de tal forma mal na vida destas mulheres, que eram
levadas a consultar outras bruxas. Ao fazê-lo, passavam a seduzir os homens ou
com as delicias do sexo, ou com o fascínio dos poderes das trevas. E voltavam a
dançar nuas...
Na cidadela, ainda
hoje as outras mulheres rezam na diocese para que possam um dia encontrar um
homem bom, uma noite inteira de sono, de coitos e outras possibilidades.
Enquanto isso, as
outras ardem nas fogueiras!!!
*
Advogada, escritora, tutora e professora IFSC e Fiocruz.
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