Chance de luxúria
O escritor norte-americano Henry Miller teria afirmado que “devemos
ler para oferecer à nossa alma a oportunidade da luxúria”. O verbo, aqui, vai
no condicional, porque não tenho certeza que ele emitiu, de fato, e por escrito,
essa opinião. Não a colhi na fonte, em nenhum dos livros desse controvertido
intelectual, como é meu procedimento corriqueiro. Li-a em um comentário, não me
lembro de que autor, em determinado blog da internet, sem a devida
contextualização dessa declaração. Não estou discordando do seu teor, dessa
citação atribuída ao escritor, que aliás ficou conhecido pelo fato de seus
livros serem considerados mais do que eróticos – como os classificam seus defensores – ou
apenas “picantes” – como outros tantos os consideram – mas escandalosamente pornográficos. Muito pelo
contrário. Até concordo com tal observação.
É certo que fiquei intrigado com a palavra “luxúria” contida
na expressão. Daí minha curiosidade sobre o contexto em que Miller teria
escrito isso (claro, se foi ele mesmo que escreveu). O significado desse
substantivo feminino tem a ver com os prazeres sexuais, mas levados ao grau
superlativo. Tem a ver, portanto, com lascívia. É considerada um dos sete
pecados capitais pela Igreja Católica. Interpreto, porém, essa “luxúria” não no
sentido usual, de comportamento desmedido em relação aos prazeres carnais, mas
como criativa metáfora de um estado luxuriante, ou seja, viçoso e abundante,
significados estes que também constam dos dicionários. E, com essa conotação,
concordo integralmente com a citação que nem sei se é autêntica ou apócrifa. “Devemos
ler para oferecer à nossa alma a oportunidade da luxúria”. Ou seja, de
irrestrito e copioso deleite.
É claro que a leitura não se presta “somente” a isto, mas
pode e deve “também” se prestar a isso, ou seja, em nos proporcionar intensa
satisfação. A mim proporciona, mesmo quando seu objeto é um texto mal escrito,
ou “bonitinho, mas ordinário”, que seja até mesmo belo, mas vazio de conteúdo.
Sempre me opus a estereótipos, de atividades e de pessoas, por considerá-los,
sobretudo, injustos. Mas Henry Miller é estereotipado por alguns livros que
escreveu, que críticos mordazes e seus tantos adversários rotularam de “pornográficos”.
Não tenho toda sua obra, mas do que já li dele – a trilogia “Sexus”, “Plexus” e
“Nexus”, “Trópico de Câncer” e “Trópico de Capricórnio” – não merece essa
classificação. São livros um tanto picantes, é verdade, mas jamais podem ser
incluídos na categoria de pornografia, apesar de terem sido proibidos em muitos
países (e também no Brasil), por terem sido considerados “indecentes”.
Indecente, isso sim, é esse (e qualquer outro) tipo de censura.
Ocorre que Henry Miller publicou, também, obras de crítica
literária e de cunho filosófico que não têm, óbvio, nada de obsceno.
Obscenidade é esta generalização barata e preconceituosa, ignorando preciosas
reflexões que nos brindou e que, se lidas e praticadas, certamente nos
engrandecerão intelectual e espiritualmente. O escritor novaiorquino, que
morreu em 7 de junho de 1980, escreveu coisas como esta, de grande sabedoria e
conteúdo: “Ao expandirmos o campo do
conhecimento apenas aumentamos o horizonte da ignorância”. E ele não
estava certo?! Afinal, quanto mais sabemos, mais nos convencemos que nada
sabemos.
Querem outra reflexão de Henry
Miller? Que tal esta: “Ninguém avança pela vida em linha reta. Muitas vezes,
não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos.
Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens
mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de
alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda
a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua
estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam
inelutavelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento,
se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente
impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o
fragmento da nossa vida que decidamos tratar”.
Como se vê, reflexões como
estas, e como tantas outras, se lidas, oferecem à nossa alma preciosas e
indispensáveis oportunidades de “luxúria”, mas em seu sentido metafórico e
nobre: de um “estado luxuriante, viçoso e abundante”. Mesmo que Henry Miller
não seja o verdadeiro autor dessa citação, se ela for interpretada de forma
inteligente e positiva, expressa uma das maiores necessidades espirituais que
temos. Antes que me esqueça, recomendo a leitura deste livro de Henry Miller, “Colosso
de Marússia”, que não tem absolutamente nada de erótico, ou de picante e muito
menos de pornográfico, como seus detratores rotularam a totalidade da sua obra
literária.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Sem modéstia, estou encantada comigo, pois entendi a frase do início do texto exatamente como você a explicou, Pedro. Estou melhorando meu grau de compreensão, mas, como também foi falado, preciso aprender muito mais.
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