Moto
perpétuo
* Por Pedro J.
Bondaczuk
O presidente norte-americano Abraham
Lincoln, conta-se, tinha em sua mesa, no gabinete de trabalho na Casa Branca, verso
de um poema chinês, emoldurado, que dizia, simplesmente: "E isto também
passará..." Parece frase esparsa, fora de contexto, solta, mas não é.
Encerra profunda verdade e merece cuidadosa reflexão. O quê vai passar? Nossa
condição, boa ou má, nossa posição social, nosso cargo, nosso trabalho, nossa
vida... Tudo, de positivo ou de negativo, é passageiro, transitório, efêmero,
como nós somos. A função do intelectual é reter (ou tentar) determinados
segmentos do tempo, eternizá-los, perpetuá-los no papel (ou como querem os
infomaníacos, na memória de um computador).
Sobre essa questão, Mário de Andrade
deixou algumas reflexões, no ensaio "O artista moderno", que consta
do seu livro "A escrava que não é Isaura", para as quais convém
atentar. Escreveu: "Será possível forçar a perfeição a surgir para as
artes? Saltar a evolução para que as obras atuais ganhem em serenidade,
clareza, humanidade? Escrever para os outros ou para nós mesmos? Para os outros
ou para uns poucos outros". Boa esta pergunta. Para quê, ou melhor ainda,
para quem escrevemos? O que objetivamos ao colocar no papel nossas opiniões,
observações ou emoções? O sucesso pessoal? O acréscimo do patrimônio cultural
da humanidade? A satisfação da nossa vaidade? Talvez um pouco de tudo isso.
Mário de Andrade prossegue em suas
reflexões: "Deve-se escrever para o futuro ou para o presente? Qual a
obrigação do artista? Preparar obras imortais que irão colaborar na alegria das
gerações futuras ou construir obras passageiras mas pessoais em que as
impulsões líricas se destaquem para os contemporâneos como um intenso, veemente
grito de sinceridade? Há nestas duas estradas, numa a obrigação moral que nos
(me) atormentam, noutra a coragem de realizar esteticamente a atualidade que
seria ingrato, quase infame, desvirtuar, mascarar, em nome dum futuro terreno
que não nos pertence". No entanto, "isto também passará..."
Passarão os anos, os sistemas, as
ideologias, os países, as civilizações, os homens. Passarão o céu e a Terra...
Passarão planetas, estrelas, galáxias e
sistemas galácticos. Mas outros haverão de surgir, em permanente
renovação cósmica, num "moto perpétuo". Só não haverá de passar a
busca do homem por uma transcendência e por um significado grandioso para sua
existência, mesmo que esta não possua algum. Para o maior estilista barroco
italiano, Daniele Bartoli, "é mister procurar coisas novas para que o
mundo resulte mais rico e nós mais gloriosos". "Vanitas
vanitatis", diria Eclesiastes..."E isto também passará",
repicaria o anônimo poeta chinês.
O que escrevemos se reveste de enorme
responsabilidade. É possível que a maior parte dos nossos textos, quando não a
totalidade, se perca para sempre e não sensibilize ninguém. Mas ao menos
potencialmente, temos condições de influenciar não só esta geração, mas as
vindouras, através de séculos e séculos. É o caso da filosofia de Aristóteles,
por exemplo. São os casos dos poemas de Homero, Píndaro ou Virgílio. Ou da
história de Herodoto, Estrabão ou Flávio Josefo. Há que se ter muita
responsabilidade no que se escreve. Há que se ter ponderação. Há que se ter
preparo. Há que se ter, sobretudo, visão de futuro, mesmo que optemos por
registrar apenas o presente.
Paul Valéry questionou: "O que é
que ensinamos aos outros homens, afirmando que eles nada valem, que a vida é
vã, a natureza inimiga, o conhecimento ilusório? De que serve maltratar este
nada que eles são ou redizer-lhes o que todos sabem?" Talvez por esta
razão, por não querer assumir a responsabilidade pela eventual influência sobre
os outros, é que determinados escritores são tão confusos em expor suas idéias.
Criam jargões complicados para conceitos filosóficos, psicológicos,
antropológicos, literários, sociológicos e artísticos simples. Perdem-se em
cansativas citações fora de contexto. Fogem da clareza, no afã de mostrarem
apenas sua erudição. Mas, parodiando o anônimo poeta chinês, "eles também
passarão".
Ou talvez falte-lhes habilidade para as
letras. E, sobretudo, para lidar com pessoas. Talvez careçam de talento, embora
sobrem-lhes influência e oportunidades. Talvez não tenham mentes ordenadas e
por isso sejam incapazes de expor idéias com ordem. Pois como constatou Robert
Louis Stevenson (ele que foi o autor de tantos consagrados
"best-sellers"), "é difícil escrever um texto fácil de
ler". E como é! O leitor destas reflexões que o diga...
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
As reclamações costumam ser e tônica dos leitores. Já outros, preferem nem ler, porém, mencionam que leram.
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