Bem relativamente caro e nada raro
O eclético e realista escritor italiano, Umberto Eco, mordaz
crítico do comportamento característico de nosso tempo, declarou, em certa
ocasião, que “o mundo está cheio de livros fantásticos, que ninguém lê”. É uma
realidade tão óbvia, que não requer, nem mesmo, o menor esforço para ser
comprovada. Basta vermos o que ocorre ao nosso redor. Livros fantásticos, de
conteúdo precioso, que enriqueceriam nossa cultura e aperfeiçoariam nossa visão
do mundo existem aos montes. Da existência da maioria, no entanto, sequer
tomamos ciência, por uma série de razões, das quais a mais comum é a
deficiência (quando não completa ausência) de divulgação. Nestes casos, até se
justifica o fato de não serem lidos. Como ler um livro que nem mesmo sabemos
que existe?
O ruim é quando um amigo nos recomenda sua leitura, mas, por
algum motivo, não conseguimos ter acesso a ele – ou por não o encontrarmos em
nenhuma livraria da cidade, ou por não integrar o acervo da biblioteca pública
que freqüentamos, ou por não contarmos com dinheiro suficiente para adquiri-lo,
ou por qualquer razão que não as citadas. Isso, porém, não é o pior. Pior é se
o temos em casa e, em vez de lê-lo, deixamo-lo juntando poeira na estante de
livros da nossa casa, sem jamais tê-lo sequer folheado. E isto também é
bastante comum.
Todavia, o livro – tanto esse específico quanto outro
qualquer – embora seja um produto relativamente caro, está anos-luz de
distância de ser raro. Nem sempre foi assim. Durante milênios, foi um bem
raríssimo, a que pouquíssimas pessoas tinham acesso. A lógica diz que, mesmo
depois da invenção da escrita, por determinada sociedade, passou-se um tempo
enorme para que alguém se aventurasse a registrar por escrito acontecimentos, idéias,
sentimentos e vai por aí afora. Para escrever, seria indispensável que houvesse
leitores potenciais. E para a existência deles, seria preciso que muitas
pessoas, ou mesmo apenas um punhado delas, dominassem os símbolos que
constituíam o alfabeto daquele determinado idioma.
E mais do que isso: seria necessário que juntassem as letras
para formar sílabas, palavras, sentenças, orações, períodos e textos
minimamente coerentes e inteligíveis. Raros se dispunham a encarar esse
desafio, ou por considerá-lo inútil e desnecessário, ou por comodismo ou por
qualquer outra razão. Pretextos para a inércia e o desinteresse nunca faltaram,
não faltam e duvido que algum dia faltem. Se hoje, com todos os magníficos
recursos tecnológicos proporcionados pelo aparato de comunicação contemporâneo
há, de acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas para a Educação,
a Ciência e a Cultura (Unesco), em torno de 1,1 bilhão de analfabetos, imaginem
naqueles tempos remotos em que faltava tudo e a luta pela sobrevivência era
muito mais feroz e renhida!
O site Worldmeters (WWW.worldmeters.info/pt),
especializado em estatísticas mundiais em tempo real, informa que de 1º de
janeiro de 2015 até a data em que redijo estas reflexões (17 de dezembro de
2015), foram publicados, no mundo, 330.735.831 livros, literários ou técnicos,
de todos os gêneros e em todas as línguas existentes. Não me perguntem como os
editores desse espaço da internet chegaram a essa estratosférica cifra, pois
não sei e nem desconfio. Prefiro acreditar na informação. Além disso, só nesta
data, circularam 439.305 jornais, ao redor do Planeta, de acordo com a mesma
fonte.
Creio que nem mesmo esse site é capaz de apurar quantos
portais e blogs da internet publicaram hoje algum texto e quantos eles foram. O
que ler, portanto, os 7,3 bilhões de pessoas da Terra têm, e em profusão. O que
nem todos são é alfabetizados. O que nem todos têm é interesse de se instruir e
de se informar. O que nem todos têm é a consciência dessa necessidade. Nem
sempre, todavia, reitero, as coisas foram sequer parecidas com nossa realidade
atual. Aliás, muito pelo contrário. Mesmo depois da invenção dos tipos móveis,
por parte de Johannes Guttenberg, por volta do ano 1450, o livro era produto
raro, raríssimo, uma espécie de tesouro difícil de ser encontrado, o que
começou a mudar, somente, em meados do século XIX, se tanto.
Ouso afirmar, sem nenhum receio de engano, que somente as
obras publicadas neste ano são o dobro, ou o triplo, ou muito mais do que todas
as que foram dadas a lume – desde que o primeiro sujeito talentoso e paciente
conseguiu colocar, com razoável coerência, de forma inteligível, suas idéias em
tabuazinhas de barro, ou num papiro, ou num pergaminho (couro de animal geralmente
de carneiro) dependendo de onde esse escritor pioneiro procedia – somados.
Imaginem nesta década, neste século e no anterior juntos! Por isso, não
estranho que, havendo tantos livros fantásticos, a esmagadora maioria não seja
lida e talvez jamais o venha a ser. Não estranho, é fato, contudo lamento,
principalmente por não ter a mínima chance de acesso a tantas e desconhecidas
preciosidades.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Tenho uma montanha de livros para serem lidos, que cresce a cada dia. Por mais que eu reduza a pilha, mais livros chegam, comprados ou presenteados. Não há como acabar com a torre literária.
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