Ah, o maravilhoso Verão!
* Por
Urda Alice Klueger
Eu nasci no verão,
numa madrugada de carnaval, e a minha mãe me contou que, quando estava indo
para a maternidade, a música que ouviu foi “Sassaricando”.
Dá para aquilatar o
astral do meu nascimento; estou sassaricando até hoje, e sempre tenho a
impressão de que o fato de ter nascido no verão e no carnaval foi que fez de
mim uma pessoa que curte o verão mais que as outras.
Daí, hoje, perguntei
ao meu amigo Júnior se ele tinha uma sugestão para a minha crônica, e ele me
deu a felicidade de sugerir que eu escrevesse sobre o verão. Pôxa, como não
tinha pensado nisso antes? O verão é o tempo mais maravilhoso do ano, dá para
escrever trocentas crônicas sobre ele, e fico aqui, agora, pensando, o que mais
agradaria ao leitor.
Podemos falar dos
adoráveis incômodos do verão: os carros cheios nas sextas-feiras à noite, os
congestionamentos a caminho da praia, a água que está faltando quando se chega
lá, as queimaduras de sábado, que impedem o Sol de domingo, todas essas
adoráveis coisas que seriam horríveis em outra estação, mas que dão um charme
todo especial ao verão.
Podemos falar, também,
das delícias e da suavidade das ondas nos dias de sol, do encanto das noites
quentes, da lindíssima cor bronzeada que a população exibe em Fevereiro, das
batidinhas de morango, do reagge ouvido no carro horas de congestionamento –
tudo, tudo há para se falar quando é verão, mas acho que é melhor contar uma
histórinha.
Desde menina que
freqüentava a Praia de Armação do Itapocoroy (Penha/SC) e conhecia todos os
seus segredos. Um deles é um costão lindíssimo que liga o canto da Praia de
Armação à Praia de Paciência, que atravessei a pé pela primeira vez lá pelos 14
anos, e que nunca mais deixei de atravessar. Leva-se bem umas duas horas para
se fazer o trajeto, subindo e descendo pedras de todos os tamanhos, mas a
natureza, lá, é tão majestosa, que vale a pena qualquer sacrifício para
atravessar-se aquele pedaço de mundo ainda desconhecido dos turistas. Fiz a
travessia muitas vezes, em todos os verões da minha juventude, e fui fazê-lo de
novo, já perto dos 40 anos.
Foi num Ano Novo,
creio que na entrada de 1990. Fomos acampar em Armação, e na manhã de Primeiro
de Janeiro, resolvemos inaugurar o ano fazendo aquela travessia pelo costão.
Minha turma ia muito
animada, e já tínhamos vencido mais ou menos a metade do caminho, quando
aconteceu o inesperado: depois de mais de 20 anos de prática naquelas pedras,
eu escorreguei e cai de cara no costão. Dizer que me machuquei é pouco: fiquei
foi lanhada pelo corpo todo, e corte de pedra sangra que é uma barbaridade. Que
fazer? Voltar ou ir para a frente dava na mesma, estávamos na metade do
caminho, e não havia, por ali, nada nem ninguém que nos pudesse acudir, além de
minha irmã e meus amigos, que não podiam fazer nada. Decidi ser forte, e,
brincando, pedi-lhes:
- Quem se perder, siga
o rastro de sangue, que vai achar o resto da turma!
Capengando, sangrando
no rosto, no corpo, na perna, continuei fazendo a farra, quando aconteceu o
inesperado: lá em cima, um passarinho que parecia uma galinha resolveu se
aliviar e, para usar uma palavra polida, deu-me um banho de cocô, abundante
cocô líquido que me atingiu nos cabelos, nos óculos, no rosto, no corpo todo.
Não tinha chorado ao cair, mas ai me deu vontade de chorar, só não adiantava
fazê-lo. A solução foi entrar no mar e tomar um banho, o que até ajudou a
diminuir os muitos sangramentos que as pedras tinham feito dois ou três minutos
antes. Dentro do mar, via minha turma morrendo de dar risada, e acabei rindo
junto. Que forma de começar um ano! Como seria ele?
Na verdade, aquele ano
foi muito bom, E, como esses incidentes aconteceram no verão, ficaram com um
gosto bom de verão. Os cortes sararam em uma semana, mas a história ficou para
ser contada muitas e muitas vezes. Não é qualquer um que, no verão, consegue
cair num costão e tomar um banho de cocô de passarinho quase ao mesmo tempo.
Tem-se que ter-se nascido no verão, ao som da música “Sassaricando”.
Que pena que o verão
não seja o ano todo! Já estou com saudades antecipadas dele!
* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais três dezenas de livros, entre
os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12
edições).
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