Aparição
* Por
Marcelo Sguassábia
Quando dei por mim, de
pé no meio da sala de jantar da fazenda, não saberia dizer de onde vim e nem
por quanto tempo estive dormindo ou inconsciente. A dor nas costas e o andar
vacilante eram indícios de anos amargados no leito, mas a minha impressão é que
estava retornando de um rápido desmaio.
Me chamou atenção
acima da lareira um retrato meu, tirado há uns dez dias quando muito, e que
mais parecia o meu bisavô Honorato, pelo amarelado da fotografia. A queda do
cavalo estava fresca na lembrança, e minha ida ao photographo foi na terça
anterior ao acidente. Por que tão gasta a imagem e carcomida a moldura?
Mais uns passos e na
cozinha me deparo com uma caixa branca de formato retangular, aparentemente de
metal e quase do meu tamanho. A maçaneta sugeria uma porta e a abri, sentindo
um frescor delicioso que contrastava com o mormaço da fazenda, àquela hora da
noite. Dentro, bebidas e alimentos de feitios estranhos, iluminados por uma luz
que ficava no fundo da caixa fria.
Numa das paredes do
living havia uma espécie de tela preta envidraçada, de proporções próximas às
de uma janela, onde se via um sujeito falando com um terno um tanto esquisito.
Tentei tocá-lo, era impressionantemente real e muito mais nítido que um quadro.
Sua boca se mexia mas dela não saía som algum. O silêncio tomava conta. As
lâmpadas, muitas e todas apagadas, em nada se assemelhavam aos lampiões de
querosene que até outro dia eu acendia ao anoitecer e apagava pela manhã.
As pessoas, umas
quinze, contritas e concentradas em torno da grande mesa, oravam e invocavam
meu nome. Fugia da minha compreensão o que se passava, pois todas eram a mim
desconhecidas. Nem mulher, filhos ou parente próximo. Desgostava-me o incômodo
daquela macabra assembleia tendo lugar ali dentro, profanando a Fazenda Santa
Carolina e minha mesa de jacarandá. Era legítimo que retomasse meus domínios,
queria enxotá-los dali, eles todos com suas roupas e penteados de péssimo
gosto, a mencionarem insistentemente meu nome, em transe insano e de olhos
fechados.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Melhor não voltar do além. Insuperável visão da volta, Marcelo, mais real do que a máquina do tempo.
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