A incontrolável marcha do tempo
“ (...) O tempo é algo que não volta
atrás.
Por isso plante seu jardim e decore sua
alma,
Ao invés de esperar que alguém lhe
traga flores (...)”.
Esta constatação, seguida de sábia e prudentíssima
recomendação, foi feita por ninguém menos do que William Shakespeare. São
versos de um de seus tantos sonetos (não me recordo qual, mas pouco importa),
não rimados na tradução, posto que sejam no original. A conclusão do genial
bardo inglês é tão lógica, e óbvia, que chega a ser redundante. Qualquer
criança, que mal tenha aprendido a falar e até o mais boçal dos boçais têm essa
compreensão. Alguns escritores, todavia, deram (e dão) asas à imaginação e
tentaram (e tentam) até provar, como na demonstração de um teorema, que esse
princípio pode ser violado. Que seria possível não apenas recuar no tempo, mas
também avançar nele, e não apenas dias, mas séculos, milênios, milhares deles.
Ora, ora, ora...
Que ficcionistas levantem essa possibilidade, é até
compreensível. Afinal, a imaginação, uma das ferramentas que mais utilizam em
sua atividade, não tem limites. Mas que sisudos cientistas pelo menos
desconfiem que isso seja possível é contradizer a praticidade e seriedade da
ciência. Há, no entanto, vários deles
que, com base na Teoria da Relatividade de Albert Einstein e em complicadas
equações matemáticas, perdem um tempo imenso (que jamais conseguirão recuperar)
tentando demonstrar que dá para fazer isso. Vão mais longe: até projetam
máquinas que lhes permitam essas “viagens temporais”, e não com o único recurso
em que isso é possível, o do pensamento, mas fisicamente, de corpo e alma. Mais
uma vez, só posso me expressar com irônico ora, ora, ora.
O leitor arguto já percebeu o motivo de eu trazer esse
assunto à baila. É que hoje (e registro, como referência a quem eventualmente
vier a ler estes comentários, digamos, em dez, vinte, cinqüenta, cem ou mais
anos, que o escrevo em 21 de outubro de 2015) é o dia exato em que o personagem
do filme “De volta para o futuro 3” deu o seu salto no tempo para tentar
consertar uma trapalhada do seu passado. É o assunto do momento.; Praticamente
todos os meios de comunicação (rádio, televisão, jornais, redes sociais, sites
e blogs da internet) estão tratando dele, sob os mais variados enfoques. O meu,
como não poderia deixar de ser, é o literário. Por maior que seja meu poder de
síntese, será impossível tratar do tema em único texto. É possível, pois,
(posto que não provável), que me valha de vários outros, posto que não, óbvio,
em 21 de outubro de 2015.
A construção de uma “máquina do tempo” é sonho muito antigo
de nossos remotíssimos antepassados. Quantos deles não sonharam em voltar ao
passado para consertar alguma bobagem, para socorrer algum ente querido, para
evitar a falência de um relacionamento amoroso ou por tantos e tantos e tantos
outros motivos? É impossível de quantificar. Em Literatura, porém – e, claro,
de ficção científica – (só poderia ser) a primazia coube ao criativo escritor
inglês Herbert George Wells (que assinava sua produção abreviando os dois
primeiros nomes para H. G.). Foi em 1895, com o romance “A máquina do tempo”.
Se houve outro que eventualmente o antecedeu (o que é sumamente improvável)
ninguém descobriu tal hipotético livro. A partir de Wells, essa fantasia se
disseminou, “contaminando”, até mesmo, cientistas, supostamente céticos, sisudos
e sérios.
Não tardou para o cinema apropriar-se dessa fantasia, que
fascinava (e fascina cada vez mais) a massa ignara e inculta, excitando sua imaginação
ao paroxismo. Pouco depois, a televisão entrou nessa onda, com a exibição de
vários seriados nessa linha. A enciclopédia eletrônica Wikipédia lista os
seguintes filmes sobre inviáveis máquinas do tempo e, por conseqüência, sobre fantasiosamente
delirantes viagens ao passado e/ou ao futuro:
“A Máquina do Tempo” (1960), “Em algum lugar do passado” (1980),
“O Exterminador do Futuro” (1984),Trilogia “De Volta para o Futuro” (1985, 1989,
1990), “Timecop” (1994), “Os 12 Macacos” (1995), “Perdidos no Espaço” (1998), “Donnie
Darko” (2001), “A Máquina do Tempo” (2002), “Harry Potter e o Prisioneiro de
Azkaban” (2004), “Efeito Borboleta” (2004), “O Som do Trovão” (2005), “A Casa
do Lago” (2006), “Perguntas Frequentes sobre Viagem no Tempo” (2009), “Jornada
nas Estrelas” (2009), “A Mulher do Viajante no Tempo” (2009), “O Homem do
Futuro” (2011) e “O Predestinado” (2014). Já os seriados de televisão foram
estes: “O Túnel do Tempo” (1966-1967), “Doctor Who” (1963, 1986, 2005), “Journeyman”
(2007), “Contratempos” (1989-1993) e “Lost” (2004 - 2010).
H. G. Wells é o autor do romance “Guerra dos mundos” que,
dramatizado por Orson Welles e levado ao ar em 30 de outubro de 1938 pela rede
de rádio Columbia Broadcastig System (CBS), causou pânico nos Estados Unidos,
pois a dramatização foi tão realista que a população acreditou que os Estados
Unidos estavam sendo, de fato, invadidos pelos marcianos, conforme o enredo. Como
se vê, os bons ficcionistas são capazes de fazer multidões acreditarem no
impossível e, portanto, no incrível. No que diz respeito a absurdas viagens ao
passado e/ou ao futuro, fico com a sábia colocação de Shakespeare e com a não
menos sensata recomendação do mítico cantor e compositor jamaicano de reggae,
Bob Marley, que declarou, certa feita: “Ninguém pode voltar no tempo e fazer um
novo começo. Mas podemos começar agora e fazer um novo fim!”. E ele não tem
razão?!?!?!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A ideia de Bob Marley é viável. Vamos a ela.
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