Perco-me
nos meus pensamentos dialéticos
* Por
Eduardo Oliveira Freire
Quando soube que uma obra de arte
(“Desenhando em terços”, de Márcia X) foi censurada na exposição “ERÓTICA”, no
CCBB, achei besteira à primeira vista. Só porque a artista desenhou pênis com
terços. Mas depois, me lembrei que não concordei que um jornal europeu publicou
a imagem de Maomé – para os mulçumanos, isso é uma blasfêmia – e sempre achei
que eles eram injustiçados pelo ocidente. Logo, senti que estava sendo
contraditório. Mas o ser humano não deixa de ser ambíguo.
O que é liberdade de expressão? Ela não
muda de acordo com pontos de vistas diferentes? Atualmente acho tudo tão
complicado.
Quando eu fui à exposição, vi várias
manifestações, desde artefatos das civilizações
antigas, que representavam significados holísticos a manifestações
artísticas de vários estilos. Então, se colocasse um quadro em
que mostrasse um fetiche masoquista, um nazista violentando uma judia,
não chocaria? Eu ficaria horrorizado. Mas não é uma representação
artística? Muitas pessoas não sentem prazer na dor?. Erotismo não mexe com os
sentidos e sensações?
Já ouvi dizer que há homens que pedem
para suas mulheres se vestirem de meninas e os chamarem de paizinho. E se
um artista desejasse expressar essa fantasia, fazendo um quadro de um homem com
uma boneca no colo, será que poderia agredir alguém? Quando não são nossos
valores, viva a liberdade de expressão. Agora, quando mexe nos que acreditamos,
muda-se de figura?
Por outro lado, muitos são adeptos da arte
pela arte. Ela tem que ser livre, não tem que ter restrições sociais,
econômicas e políticas. Oscar Wilde era
adepto dessa idéia e no seu livro O RETRATO DE DORIAN GRAY discutia sobre o que
era a sua concepção de arte. No ensaio A ALMA DO HOMEM SOBE O SOCIALISMO, o
autor discutiu a liberdade e as repressões contra esta. “(...) não há necessidade alguma de separar o monarca da plebe: toda
autoridade é igualmente má. Há três espécies de déspota. Há o que tiraniza o
corpo. Há o que tiraniza a alma. Há o que tiraniza o corpo e a alma. O primeiro
chama-se Príncipe. O segundo chama-se Papa. O terceiro chama-se Povo.”. Ele almejava a liberdade plena, sem que
ninguém a restringisse.
Contudo, não precisa haver limites,
para que cada um respeite o espaço do outro? Quanto mais penso, não consigo ter
uma opinião, e sim mais dúvidas. Leio artigos e opiniões sobre a censura do
quadro da exposição erótica e minha cabecinha fica embaralhada com tanta
informação. Não sei o que escrever. Aí me perguntam: por que escreve então?
Leia mais. Mas, preciso colocar na tela do computador. É uma forma de organizar
o caos da minha mente.
O artista muitas vezes não está à
frente do seu tempo? Vladimir Nabokov, quando escreveu
Lolita, escandalizou muitas pessoas na época. Apesar de contar a “história de
um pedófilo”, o livro faz uma crítica sarcástica e impiedosa da sociedade, da
sociedade americana de consumo e da hipocrisia da época. O escritor foi
transgressor. O papel da arte não é esse? Construir visões críticas e reflexivas
sobre o mundo em que vivemos? Escrevi
duas histórias que poderiam ofender também. Mas não posso escrever
simplesmente, tenho que pensar que talvez possa ofender alguém. O que fazer?
Sinto-me tão contraditório, que me perco nos meus pensamentos dialéticos.
* Eduardo Oliveira Freire é formado em Ciências Sociais
pela Universidade Federal Fluminense, está cursando Pós Graduação em Jornalismo Cultural
na Estácio de Sá e é aspirante a escritor
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