Na ponte das
barcas, junto ao cais da praça
* Por Ruy Paneiro
- Apareceu uma mulher morta boiando
perto da ponte. Ela tá com um facão enterrado até o cabo nos peitos.
A notícia chegou pelo Renan. Ele nem
parou a bicicleta ao passar pelo portão da minha casa e gritar a novidade. Seguiu
pedalando rua abaixo. Renan era um dos garotos que mergulhavam das barcas de
Paquetá comigo.
Meia hora antes, estávamos juntos, com
outros meninos, roubando frutas da chácara do empresário João Silva, dirigente
do Vasco da Gama.
Larguei os sapotis e as mangas num
canto da varanda de casa e disparei a pé pela Rua Comendador Lage, tentando
alcançá-lo. O chão da rua, recoberto de saibro para evitar lama em dia de
chuva, ainda estava quente por causa do sol. E as pedrinhas que se soltavam do
saibro machucavam os calcanhares na corrida.
Três PMs tinham acabado de sair da
delegacia, a uns 200 metros lá de casa. Um
deles era o Costa, cabo esperto que na semana antes tinha conseguido me prender
depois de eu pular da barca do meio-dia. Diminuí a corrida, emparelhei e
cumprimentei:
- Oi, Costa.
- Fala, rucinho.
- Tá indo pra lá?
- Tô.
- Então, se mexe que o doutor vai
cortar sua folga se você chegar atrasado.
Safado! – pensei. Dei o maior duro
nadando quase três minutos por baixo d’água para ele não me ver e o fdp me
descobre escondido atrás da canoa do Heraldo: “Rucinho, você tá preso. Vai em
casa, toma banho, almoça e se apresenta no Distrito”.
Prisão, em Paquetá, era assim. Naquele
dia fiquei de castigo na janela da delegacia mais de duas horas. Foi preciso
minha irmã ir lá me soltar, fingindo fúria assassina. E eu tive de prometer que
não ia mais mergulhar do teto das barcas. Tudo conversa fiada, jogo de cena.
Agora o Renan já estava parando a
bicicleta na praça. Eu acabava de passar pelo muro branco da chácara do João
Silva. No ar, o cheiro forte dos sapotis mordidos de morcego que estavam
esborrachados no chão depois da guerra que Jorginho Gafanhoto, Pepita, Dom
Pedrito, Luiz Carlos Poeta, Renan, Heraldo, Dutra, Zuca e eu tínhamos feito no
final do assalto às fruteiras da casa.
A Praça Pintor Pedro Bruno, que a gente
chamava de praça da ponte e era um dos nossos lugares de mergulho, estava
cheia. Todo mundo querendo ver o corpo trazido pela maré enchente para Paquetá e
estendido pelos policiais a um metro da beira.
A mulher aparentava menos de 30 anos.
Boca e olhos abertos causavam forte impressão. Difícil afirmar que em vida tivesse
sido bonita. Era morena, tinha cerca de l.60 m de altura, cintura e pernas bem
delineadas. Seios rijos.
Entre eles, como o Renan antecipou, um
facão de cozinha cravado quase até o cabo.
O delegado, doutor Campos, conversava
com dois marinheiros da lancha e eu me aproximei como quem não quer nada para
ouvir o que eles falavam.
- ...preso em flagrante. Era amante
dela. Eles estavam numa canoa e alguém viu quando ele deu as facadas e ela caiu
dentro no mar. Afundou e sumiu. Isso foi ontem e ela só boiou hoje – dizia o
delegado.
- Já caiu morta ou morreu logo depois,
porque não parece ter bebido água – disse um dos marinheiros. Dá pra ver pela
barriga, que não inchou.
- E ela se defendeu bastante – disse o
doutor Campos. Vocês viram como os braços e mãos dela estão cortados?
- É... e por quê foi que eles brigaram?
– quis saber o mesmo marujo.
- Parece que foi por ciúme. O pessoal
lá de Itaóca diz que o sujeito é ciumento e brigão. Anda sempre de peixeira e
volta e meia está metido em confusão. É pescador, mas gosta mesmo é de uma
purinha e de um carteado – acrescentou o delegado.
-É, doutor, pé-de-cana com ciúme é fogo
na roupa - comentou o segundo marinheiro, até então calado.
- O senhor dá uma licencinha, doutor?
Nós vamos até ali tomar um café e comprar cigarro – pediu um dos marinheiros.
Eu também me afastei para ver o corpo
ser transferido da praça para o convés dianteiro do barco. Os braços da mulher
estavam duros, voltados para frente, bastante cortados como disse o delegado.
Os talhos mostravam a carne
esbranquiçada, pelo contato com a água do mar. Alguns cortes tinham quase um
dedo de profundidade. Pelo que eu soube, ela boiou de barriga para baixo.
Alguns peixes e siris andaram mordiscando as feridas.
Os homens da Polícia Marítima colocaram
o corpo da mulher na proa da lancha. Por três ou quatro vezes, eles forçaram
seus braços para baixo, tentando fazer com que ficassem paralelos ao corpo.
Não conseguiram. Os braços subiam, num
ângulo de 90 graus. Os policiais acabaram desistindo.
- Rigidez cadavérica, explicou um
deles.
Então trouxeram da cabine uma lona bege
manchada e a desdobraram. Depois a estenderam sobre corpo e o cobriram da
cabeça às canelas. Os tornozelos e pés da morta ficaram visíveis.
Com a lona por cima e por causa dos
braços esticados, o corpo parecia uma tenda de acampamento, dessas em forma de
pirâmide.
Um dos tripulantes recolheu os cabos
que prendiam o barco ao cais. Os dois marinheiros que tinham ido ao botequim pularam
para bordo e se sentaram no banco da popa junto ao casco.
O piloto deu ré, manobrou e acenou para
o delegado. O doutor Campos fez sinal com a mão. Ele estava montado numa
bicicleta com o pé esquerdo apoiado no pedal e o outro no chão. Desde que tinha
sido transferido para a ilha, um ano atrás, aquele era seu meio de transporte
predileto. Fosse para trabalhar ou andar a toa, olhando as mulheres.
A embarcação ficou com a popa virada
para a praça e a cabine obstruiu a visão. Cerca de 500 metros adiante, onde ela
dobrou à direita para contornar a Ilha dos Lobos e ficou de estibordo para nós,
pôde-se ver novamente o corpo sozinho na proa.
Até sumir por trás do Morro das
Gaivotas em direção ao Rio de Janeiro, a embarcação e sua carga foram seguidas
pelo olhar parado das pessoas que estavam na praça. Só então os adultos
começaram a se dispersar de volta a seus afazeres.
Os garotos ficaram. Àquela hora, a água
do mar costumava estar morna e nós mergulhávamos até oito da noite.
Mas naquele entardecer quente de
janeiro, enquanto a desconhecida morta a facadas seguia viagem para o Instituto
Médico Legal do Rio, nenhum menino de Paquetá mergulhou da ponte das barcas.
*
Jornalista, trabalhou no Jornal do Brasil. Atualmente, trabalha como freelancer
e colabora com jornais eletrônicos, como o Montblaat.
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