Mau-humor ou má
educação?
O mau-humor pode ser uma doença. Seria
uma disfunção psíquica, uma espécie de disrritmia cerebral, que afetaria um
número considerável de pessoas (põe considerável nisso!). Em palavras mais
simples: o cérebro, desses afetados, não funcionaria no ritmo desejável,
considerado normal. Daí sua carranca constante, suas respostas arrevezadas e
suas explosões de ira em situações mais tensas ou até mesmo naquelas em que
inexista esse ingrediente de tensão. Esta, pelo menos, foi a conclusão de
ilustres psiquiatras, de várias partes do mundo, que divulgaram inúmeros
estudos a respeito. Os especialistas alertam, portanto, que nem sempre essas
manifestações mal-humoradas são frutos de má educação, como a maioria das pessoas
supõe.
Mas seria possível, face às crescentes
dificuldades da vida, num país cheio de injustiças e contradições como o nosso,
se manter bem-humorado por, pelo menos, uma parcela razoável do dia? Seria
viável não perder a compostura diante das sucessivas crises que nos acometem,
numa sociedade em permanente reforma, mas que, entra ano, sai ano, continua
sempre na mesma, repetindo os mesmíssimos erros e perpetuando os mesmos vícios?
Como portar um sorriso nos lábios, e
ter sempre, na ponta da língua, palavras gentis, quando somos bombardeados, da
manhã até a noite, por uma enxurrada de notícias ruins, que nos afetam, direta
ou indiretamente? Ou quando somos vítimas de uma infinidade de agressões
gratuitas? A violência, por exemplo, explode por toda a parte, nas ruas das
grandes cidades. A mendicância cresce. Sentimo-nos inseguros até dentro da
própria casa. E poderíamos desfiar um rosário imenso, quase interminável, de
motivos para medo, preocupação e o conseqüente mau-humor.
Repito, portanto, a pergunta: é possível
conservar o bom-humor, diante dessa realidade perversa e angustiante?
Possibilidade sempre existe. Pelo menos, temos a obrigação para conosco mesmos
de fazer força para isso. Para tanto, porém, é preciso que tenhamos nervos de
aço. Ou que sejamos dotadas de uma insensibilidade que nos aproxime de um
mineral, de uma pedra, de um objeto inanimado. Ou que tenhamos visão clara do
que realmente somos e do que aspiramos da vida.
Equilíbrio é a palavra chave. Claro que
nem tudo é ruim em nosso cotidiano. Há momentos agradáveis, e até felizes, que
devem ser preservados na memória, multiplicados ao máximo e, sobretudo, muito
bem aproveitados. Não é lícito, e nem justo, que descarreguemos nossas tensões,
mágoas e frustrações sobre quem não tem nada a ver com elas: a esposa, os
filhos, os vizinhos, os colegas de trabalho, aqueles que nos servem
etc.etc.etc.etc.
Ressalte-se que os especialistas
consideram doença o mau-humor freqüente, constante, contumaz, permanente e
imotivado e não aquelas reações naturais, humanas, instintivas de irritação
face às coisas desagradáveis que nos aconteçam, que são desagradáveis, óbvio,
porém passageiras. Mas esse estado de espírito, normal, gerado por alguma
contrariedade, também não pode ser confundido com manifestações ditadas,
exclusivamente, pela má educação, das quais somos vítimas, às vezes, até,
várias vezes ao dia, em nossos relacionamentos cotidianos.
Há pessoas cuja especialidade parece
ser a de chatear os outros. Há funcionários que lidam com o público que,
descontentes com a função que exercem, ou com o salário que recebem, ou com
outra coisa qualquer, tratam a todos, indistintamente, aos trancos e barrancos.
Descarregam suas frustrações em quem encontrarem pela frente, sem escolher
cara.
Criticam e condenam tudo e todos. Criam
regras e normas sem sentido ou necessidade, que apenas complicam o bom
andamento do serviço. Inventam pretextos mil, em repartições públicas, para
desperdiçar o tempo alheio, com exigências de cópias de documentos e de
requerimentos absolutamente inúteis e, portanto, dispensáveis. Apegam-se a uma
burocracia inútil, irritante e perdulária. Estes carrancudos crônicos, todavia,
não são, na verdade, mal-humorados, no sentido patológico, classificado pelos
especialistas. São é mal-educados, estúpidos e sumamente chatos. Mas esta já é
uma outra história.
Boa leitura!
O Editor.
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Tão bom ser bem-recebido,bem cuidado. Tento fazer o mesmo: receber bem.
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