Fantasia sobre a felicidade
* Por
Evelyne Furtado
De repente todas as
convenções foram banidas. Todas as formalidades derrubadas. Todas as leis
revogadas. Não haveria mais lugar para a hipocrisia naquela nação.
Com apenas uma Emenda
Constitucional, fora decidido que tudo seria permitido, ressalvado em apenas um
parágrafo, que somente a felicidade regeria a nação.
E todo aquele povo
parou estático diante da TV onde o presidente em pessoa lia a nova Carta Magna,
resumida em um artigo.
A princípio alguns
exultaram, enquanto outros tentavam entender melhor o que aquilo significava.
Grande parte da população nem deu importância, afinal todos os dias surgia mais
uma lei que não pegava.
Aos poucos as reações
mudaram. Para começar muitos não sabiam o que era felicidade e de tanto
pensarem, começaram a se sentir angustiados. Os mais afoitos correram em busca
dos sonhos antes impossíveis, sem se incomodarem em atropelar outros sonhos.
Enquanto casais comemoravam em êxtase o amor antes proibido, homens e mulheres
choravam a perda daqueles que tinham sob as suas posses, por força das
convenções.
Os bares encheram-se
para os que viam a felicidade na embriaguez, o que resultou em brigas e
acidentes. Lojas foram invadidas por consumidores compulsivos, certos de que
ali morava a felicidade. Igrejas lotaram pelos que buscavam a paz espiritual.
Muitas pessoas ficaram
mais infelizes ainda, pois não sabiam viver sem convenções, formalidades,
hipocrisias. Não sabiam mais como destilar todo veneno acumulado em anos de
infelicidades.
Em pouco tempo a
euforia deu lugar à bagunça institucional. Apenas os workaholics trabalhavam
sem parar e se sentiam felizes. Os demais se dedicavam aos hobbies ou ao bom
ócio de cada dia. A situação chegou a tal ponto que o Congresso foi convocado
às pressas e foi uma luta fazer os parlamentares comparecerem. Enfim deputados
e senadores foram conscientizados do caos que tendia a crescer e aprovaram às
pressas uma nova constituição semelhante à anterior.
Dessa vez a nação
escutava atenta o discurso do presidente interino anunciando a data das
próximas eleições e outorgando a Lei Maior que passaria a vigorar a partir de
então.
A felicidade voltaria
a ser o que sempre foi: perseguida por muitos, reconhecida por poucos e
conquistada pelos corajosos que se acham dela merecedores.
Sob a regência do amor, talvez o resultado fosse menos desastrado.
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