Na hora do batismo
* Por
Marta Barcellos
Tenho 214.262 xarás no
Brasil. A maioria, nascida entre 1960 e 1970. É curiosa a percepção que temos
do próprio nome. Achava que éramos uma pequena quantidade, eternamente
confundida com as Márcias. Elas, sim, representariam um batalhão: precisavam
ser chamadas pelo sobrenome em sala de aula. Ok, não eram tantas assim, mas
minha sensação tinha lá suas razões: das 551.855 Márcias brasileiras, 204 mil
nasceram justamente nos anos 1970, e principalmente no Rio de Janeiro. E quanto
aos Marcelos? Também foram um fenômeno da mesma época e do mesmo estado (no
país, somam hoje 690.098), daí terem também nome e sobrenome, para diferenciar,
na minha lembrança escolar.
Minha filha
adolescente não tem nenhum amigo Marcelo, Marta ou Márcia, para ficarmos apenas
na letra M. Ora, as Márcias que perambulam por aí não são jovens, e sim
quarentonas ou cinquentonas. Em compensação, certa vez ela fez uma colônia de
férias em que havia oito Júlias. Não resisto, e retorno ao site que me viciou:
a frequência de Júlias passou de 20 mil, nos anos 1980, para 264 mil, nos anos
2000. Ao todo, elas já são 430.067 no país, e parecem estar em vertiginosa
ascensão, a julgar pelo gráfico apresentado instantaneamente pelo IBGE na página
“Nomes no Brasil”.
O banco de dados
disponibilizado pelo órgão governamental é inesgotável. A primeira consulta,
quase automática, é ao próprio nome. Mas depois começa o vício. Nomes de
conhecidos, nomes que parecem raros ou comuns (e não é bem assim), até que você
se flagra confirmando que o nome esquisito de sua tia-avó era uma modinha da
época. Sabe-se lá o motivo. O boom de Martas, aparentemente, tem relação com
concursos de miss, enquanto as Simones hoje balzaquianas foram impulsionadas
pela personagem da novela “Selva de pedra”. Mas, por que será que tantas
Alziras nasceram em 1930?
Se você é um
ficcionista, o vício de consultar o “Nomes no Brasil” pode ir além. O nome
daquele personagem é banal ou esdrúxulo demais? Está adequado à idade? É nesta
fase da adição que me encontro...
Escritores, porém,
muitas vezes, batizam seus personagens buscando simbolismos, menos ou mais
evidentes. Homenagens a personagens clássicos são comuns, sem falar em
anagramas (a primeira “brasileira”, Iracema=América), nomes inexistentes ou pra
lá de enigmáticos. O batismo da personagem mais famosa da escritora mais
estudada no Brasil, por exemplo, permanece como mistério. De onde Clarice teria
tirado as sílabas que formam o fonema hoje tão adequado à Macabéa, de A hora da
estrela? Há hipóteses sobre uma referência aos macabeus, sem grandes
embasamentos além da fonética semelhante.
Um escritor deve
manter a “inspiração” deste batismo oculta, como fez Clarice? Em geral, eles
gostam de ser descobertos, em suas referências, pelos críticos. Trata-se da
famosa piscadela, do autor para o crítico literário. Eu mesma adorei quando a
escritora Cláudia Nina, que resenhou meu livro “Antes que seque” para o jornal
Rascunho, percebeu que o nome de Norma, do conto “Depois do Natal”, não era
nada gratuito. Se já houvesse o site do IBGE quando escrevi, teria confirmado
que o nome era também adequado a uma mulher de meia idade. E teria me
certificado da inexistência do nome que inventei para a personagem de “À moda
antiga”, Myrea (anagrama de Yerma, peça de Federico Garcia Lorca). Não resisti
à piscadela - que obviamente ninguém entendeu.
*
Jornalista, trabalhou nos veículos “O Globo”, “Gazeta Mercantil” e “Valor
Econômico”, e hoje consegue conciliar realização no trabalho com qualidade de
vida. Já escreveu três livros jornalísticos, encomendados por empresas. Presta
serviços de conteúdo por meio da Contexto Final, é colaboradora do Valor
Econômico e mantém colunas fixas na revista Capital Aberto e no site Digestivo
Cultural, além de manter seu blog "Espuminha de Leite"
http://blog.contextofinal.com.br/perfil/
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