A cultura nossa de
cada dia
Muita gente não se dá conta da riqueza
cultural contida num único exemplar diário. Alguns dão uma olhada por cima nas
manchetes, detêm-se numa ou em outra notícia mais pitoresca (ou escandalosa),
talvez leiam as legendas das fotos, e pronto. Feito isso, passam a considerar o
jornal como coisa ultrapassada. Ou, no máximo, utilizam-no para embrulhar
mercadorias ou forrar o piso do automóvel.
Quem age assim, não se dá conta da
quantidade de informações preciosas (que certamente farão falta mais para a
frente) que está desperdiçando. Há, no entanto, muitas, muitíssimas pessoas que
fazem seu exemplar diário render como nunca. São os colecionadores de recortes.
Alguns fazem isso sem método.
Simplesmente cortam o que lhes interessou e acumulam esses papéis numa caixa.
Outros, todavia, organizam hemerotecas sofisticadíssimas, tanto no que se
refere à apresentação quanto à classificação por assuntos.
Adquirem pastas classificadoras de
couro, com 50 lâminas, em forma de sacos (plásticos) onde colocam os recortes,
ou colados numa folha de papel sulfite, ou através de cópias xerografadas dos
artigos ou reportagens que lhes interessam.
Conheço pessoas que têm estantes
repletas de volumes organizados dessa forma. O acervo cultural que juntam dessa
maneira econômica é inestimável. Mas não é preciso tanta sofisticação para
formar uma boa hemeroteca.
Podem ser utilizadas pastas
classificadoras mais simples, guardadas, ao invés de em estantes de madeira
ricamente trabalhadas, em arquivos de aço. Tais coleções, com o passar dos
anos, adquirem um valor impossível de se quantificar. Maior até do que o de uma
boa biblioteca.
As informações contidas em livro nos
permitem o acesso em qualquer oportunidade. Mesmo quando se trata de edições
esgotadas. Basta procurar em algum "sebo" para encontrar o volume
desejado. Ou então, recorrer às bibliotecas públicas. Mas as colecionadas em
jornal logo se tornam virtualmente "inéditas". Afinal, ainda são
poucos os que adquiriram este saudável hábito de recortar o que lêem.
O leitor já imaginou, por exemplo, que
preciosidade possui quem colecionou as crônicas que Machado de Assis escreveu
na imprensa carioca em fins do século retrasado? Muitas foram reunidas em
livros, mas não todas. Quem herdou uma hemeroteca dessas possui hoje um
material tão precioso, a ponto de não ter preço, em termos econômicos.
No aspecto cultural, nem é possível
avaliar a importância desse acervo. O mesmo vale para textos de João do Rio, de
Rubem Braga, de Guilherme de Almeida (que por muitos anos assinou a coluna
"Eco ao Longo dos Meus Passos" em "O Estado de São Paulo"),
de Luís Martins, Sérgio Milliet, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade,
Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta), Guilherme de Figueiredo, Otto Lara de
Rezende, Affonso Romano de Sant'Anna e tantos outros nomes ilustres da cultura
nacional. Ou para as crônicas e artigos do "Correio Popular" de
pessoas como B. Sampaio, Francelino de Araújo Piauí, Odilon Nogueira de Mattos,
Maurício de Moraes, Célia Siqueira Farjallat, Roberto do Valle, Renato
Sabattini, Francisco Fernandes de Araujo, Cecílio Elias Netto, Eustáquio Gomes,
Moacyr Castro e centenas de outros intelectuais representativos da vida
campineira.
Boa leitura!
O Editor.
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