Realidade e estereótipos
O Brasil, há muito
tempo, vem sendo analisado pelos intelectuais através de estereótipos. Estudos
sem fim tentam compreender e explicar a personalidade do brasileiro, como se
houvesse uma homogeneidade, um elo comum, um comportamento básico que igualasse
todas as pessoas. Todavia, não há.
O antropólogo Roberto
da Matta, em artigo que publicou no Jornal do Brasil há muito tempo, em 24 de
julho de 1994, analisou essas tentativas de definir o nosso jeito de ser.
Constatou, em determinado trecho: "Em torno de 1900, o Brasil foi lido
como um país a ser arianizado; em 1960, foi a nação dos espoliados prestes a
realizar sua grande revolução socialista; em 1970, foi a terra do milagre
econômico do Delfim e do Médici, hoje, ele é visto como país da violência, da
falência moral, do separatismo e da ausência de valores éticos".
Estereótipos. Meros
estereótipos. O País está longe de ser homogêneo, quer no comportamento da
população, quer nos estágios de desenvolvimento em que se encontra. Há ilhas de
prosperidade de fazer inveja a sociedades do Primeiro Mundo, mas existem
bolsões de miséria, de enormes proporções, rivalizando com povos mais carentes
da África, como Burkina Faso, Somália, Ruanda ou Etiópia.
Há metrópoles modernas
e dinâmicas e comunidades mergulhadas num imenso atraso. Há pessoas
extremamente competentes, solidárias, com altíssimo senso ético e bandidos
cínicos e cruéis, muitos dos quais de colarinho branco, a cometer toda a sorte
de crimes.
Há crianças sadias,
superdotadas, com potencial para ter um brilhante futuro e meninos de rua como
Ricardo da Silva Soares, que em 1994 tinha 12 anos, que teve o crânio esmagado
pelas rodas de um caminhão da Prefeitura de São Paulo, no dia 10 de setembro daquele
ano, ao ser confundido com um saco de lixo, dentro do qual dormia, numa calçada
do Largo do Arouche.
Tudo isso é Brasil.
Podemos ser um pouco de Macunaíma, mas também o somos da Irmã Dulce. Podemos
ter características de Lampião, mas temos a coragem e o ideal de um Marechal
Rondon. Somos múltiplos, heterogêneos, não somos passíveis de receber
rotulações.
O próprio da Matta, no
mencionado artigo, conclui: "Nenhuma sociedade se esgota nas definições
dos seus membros. As imagens variam, o que nos leva a pensar que somos parte de
um momento e de uma geração que nos limita. Isso demonstra que ninguém está com
a verdade, o que é um alento numa sociedade, na qual cada grupo foi sempre dono
de uma verdade absoluta". O Brasil é tão grande que não cabe em estereótipos!
Boa leitura!
O Editor.
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Tenho de concordar. Até cada um de nós é múltiplo nos diversos estágios da vida.
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